DO FUNDO DA MEMÓRIA (7): Fingiram que não eram

Carlos Chagas

Durante alguns anos, depois de deixar o poder, se não passou incólume, o general Ernesto Geisel parecia destinado a inscrever-se na crônica como um presidente da República que acertou mais do que errou. Afinal, tanto faz os motivos que o inspiraram, mas levantou a censura na imprensa escrita. Iniciou o processo de abertura política e, até mesmo, nos últimos três meses de seu governo, revogou o Ato Institucional número 5.

Na coluna do “haver”, também pesam em seu crédito a sustentação da soberania nacional, quando bateu de frente com os Estados Unidos. A tentativa de inscrever o Brasil no clube nuclear. Uma política energética nacionalista.

E mais a tomada pública de posição contra a tortura institucionalizada, depois do assassinato do jornalista Wladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho nos porões do II Exército, em São Paulo. Um general de quatro estrelas foi demitido, tivesse ou não conhecimento dos horrores praticados à sua sombra.

De quebra, Geisel livrou o movimento militar do general Silvio Frota, que despontava como presidenciávil e era a encarnação do ditador irascível e truculento. O então ministro do Exército foi demitido numa verdadeira operação de guerra.

É claro que na coluna do “deve” muita coisa pesou. Censura à imprensa nos dois primeiros anos de seu governo, cassações de mandatos, decretação do recesso do Congresso, “pacote de abril”, com abomináveis casuísmos políticos destinados à preservação do poder em mãos de um regime que já fazia água. Sem falar na imposição do sucessor, general João Figueiredo, sem consulta a ninguém, nem mesmo ao Alto Comando do Exército.

Até hoje há quem duvide de ter sido coincidência a morte, num espaço de nove meses, dos três principais adversários em condições de derrotar nas urnas futuras o sistema militar: Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda.

O diabo, para Geisel é que depois de sua morte surgiu a denúncia do jornalista Elio Gaspari, aliás, seu amigo pessoal, através da divulgação, em livro, de uma degravação. Nela, em conversa como o general Dale Coutinho, o presidente da abertura defendia a eliminação física de adversários do governo, por agentes do governo. Quer dizer, justificou assassinato puro e simples daqueles que tentavam derrubar o regime, seja lá porque métodos fosse.

O ídolo foi mostrado com os pés de barro. Se não surgirem, como não surgiram até agora, contraditórios ou desmentidos eficazes, vai para o espaço a imagem do penúltimo general-presidente.

João Figueiredo, o último, foi uma espécie de macunaíma do sistema militar. Espertíssimo, tanto que serviu a todos os antecessores, inimigos entre si. Coronel chefe da Agência Central do SNI no governo Castelo Branco; general chefe do Estado-Maior de Garrastazu Médici no comando do III Exército, no governo Costa e Silva; chefe do Gabinete Militar do presidente Médici; chefe do SNI do presidente Geisel.

O último general-presidente era competente. Tríplice coroado, quer dizer, primeiro aluno em todos os cursos castrenses de que participou, buscava transmitir uma imagem anti-intelectual, antes e depois de assumir o poder. Preferia cheiro de cavalo a cheiro de povo. Fingia-se de grosso, adepto dos palavrões.

Mas logo que instalado no palácio do Planalto, levantou a censura no rádio, na televisão e nas publicações que faltavam. Mandou ao Congresso projeto de anistia aos cassados e estimulou a volta de todos os exilados. “Lugar de brasileiro é no Brasil”, afirmou ao assistir pela televisão o retorno de Leonel Brizola, Luis Carlos Prestes, Miguel Arraes e mais um monte de exilados, dos que se opunham retóricamente e dos que pegaram em armas mudar as instituições.

Ia tudo dando certo quando a direita mostrou outra vez a pata. Atentados a bancas de jornal e a livrarias que passaram a vender literatura de esquerda; bombas em automóveis e residências de líderes da oposição; cartas-bomba enviadas à Ordem dos Advogados do Brasil, à Associação Brasileira de Imprensa e à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Finalmente, a tentativa de explosão do Riocentro, durante a realização de um show de música popular organizado por artistas de nítida postura oposicionista.

Teria sido um massacre de centenas de jovens, não fosse a certeza de que Deus é mesmo brasileiro. Um dos petardos explodiu por antecipação, no colo de um capitão e de um sargento do Exército, no carro em que tentavam armá-lo. Um morreu, outro sobreviveu, ambos integrantes do famigerado CIEX, núcleo do terrorismo de estado.

Foi o divisor de àguas, responsável até pela demissão, a pedido, do general Golbery do Couto e Silva, chefe do gabinete Civil, que exigia a apuração e a punição dos responsáveis, do capitão aos generais. Figueiredo hesitou e cedeu. Como expor seus companheiros, que governavam com ele? De que maneira arriscar-se a punir seus ministros, porque a linha de apuração dos fatos chegaria até eles? Engendrou-se uma farsa, atribuindo-se aos comunistas aquilo que o sistema fazia. Agora, com a conivência do chefe…

Do Riocentro ao final do seu mandato, atingido por grave enfarte e mil outras somatizações da impotência política, João Figueiredo transformou-se na sombra daquilo que uma vez pretendeu ser e quase conseguiu: o general-presidente responsável pela devolução da democracia do Brasil. Com a eleição de Tancredo Neves e a posse de José Sarney, encerrava-se o ciclo militar iniciado há quase 50 anos.

(termina amanhã)

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