Do Maracanã (construído em 30 meses) à Copa de 2014

Pedro do Coutto

Numa reportagem magnífica que ocupou recentemente duas páginas da Folha de São Paulo, a jornalista Carolina Araujo relembra a construção do Maracanã, estádio Mario Filho seu nome, e traça um paralelo entre as dificuldades do passado e as preocupações com o futuro próximo, ou seja se estaremos preparados para sediar a Copa de 2014. Estaremos – acredito.

Dificuldades existem, mas serão superadas com o passar cada vez mais rápido dos meses, um desafio a mais para o país. Aliás, vale assinalar, a distância que temos pela frente não termina em 2014: não. Acaba em 2013, pois sediaremos também, um ano antes, a Copa das Confederações.

Carolina Araujo, pelo seu texto, deixa ressaltada sua juventude e atravessa o espelho do tempo. Une à reportagem, oportunamente, foto da construção do também chamado (por Mario Rodrigues Filho) gigante do Derby. E uma entrevista com o professor da USP Hilário Franco Junior, sociólogo e autor do livro A Dança dos Deuses, Futebol, Sociedade e Cultura. Uma das fotos, o histórico gol de Gighia. Eu estava lá na arquibancada e vi o tiro fatal. Barbosa, o goleiro, não falhou no lance. O ponteiro uruguaio chutou de muito perto. Vamos recordar o passado.

A importância da escolha do Brasil como sede da Copa de 50 foi extraordinária. Era a primeira Taça pós guerra, que, deflagrada por Hitler em 39, não permitiu a realização das Copas de 42 e 46. O desafio era enorme, não tínhamos estádios compatíveis com a grandeza da competição. Na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, capital do país, o grande artista e vereador Ari Barroso apresentou projeto propondo a construção do Maracanã à base de umas permuta entre o Exército e a Prefeitura. O prefeito era o general Mendes de Moraes. Por que tal permuta? Porque a área onde surgiria o estádio estava ocupada pelo 1º Batalhão de Carros de Combate, o BCC. Mas Mario Filho, que liderou toda a bela campanha do Jornal dos Sports, do qual era proprietário, chamava o campo de gigante do Derby. Isso porque, antes de ser BCC, a área era ocupada pelo antigo Jóquei Clube, naquele tempo Derby Clube.

Na Câmara Municipal, primeiro o projeto foi combatido pelo vereador Carlos Lacerda. Aprovado, o jornalista, que em dezembro de 49 fundaria a Tribuna da Imprensa, passou a defender a localização em Jacarepaguá. Mas o espaço original do projeto Ari Barroso foi mantido. Mario Filho era irmão de Nelson Rodrigues e autor de um livro sociologicamente muito importante: O Negro no Futebol Brasileiro. Vale a pena lê-lo. A presença negra eternizou o futebol,com ele eternizando-se também. Afirmação social total, informação possivelmente boa para o professor Hilário Franco Junior.

O Maracanã foi erguido em apenas trinta meses, inaugurado em junho de 50, pouco antes do Brasil e México abrirem a quarta Copa do Mundo. Orlando Silva Azevedo, arquiteto da obra monumental, não construiu só um estádio. Ergueu uma cidade. Até hoje o maior estádio do mundo, 60 anos depois. O professor Franco Junior não teme os prazos que correm na estrada do tempo, mas sim a falta de mudanças estruturais na escala social brasileira.

Vamos ver o que acontece, a começar pela definição da sucessão presidencial dia 31. Mas uma certeza: em matéria de PIB e distribuição de renda, a vigésima edição dourada da Taça vai acrescentar. Os investimentos serão feitos dentro do país, o ingresso de capital de fora, via turismo, será inevitável. Se evolução social não houver, a culpa será do governo, não da Copa do Mundo, ou do futebol.

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