Do paraíso ao inferno, lá vai a classe média

Gaudêncio Torquato

Mais uma pista a indicar o andar da carruagem. Parcela da população brasileira é arrastada para cima e para baixo da pirâmide social pelas ondas de marés enchentes e marés vazantes. A primeira carrega as pessoas da classe C para um passeio pelos territórios do grupo B, às vezes com direito a uma escapulida (rápida) ao topo, onde habita a categoria A. Quem propicia a subida é a grana extra. A segunda empurra o contingente para as águas do fundo. Isso se dá quando a renda das famílias fica apenas no parco rendimento de aposentadoria, pensão ou bolsas.

Ponderável parcela da classe média que muda de condição, muitas vezes de um mês para outro, acaba ingressando no perigoso meio-fio da instabilidade, tornando-se ela própria um dos eixos a moverem a engrenagem da insatisfação social.

A insegurança que grassa por classes, espaços, setores e profissões tem se avolumado nos últimos meses, apesar de a taxa de desemprego se manter estável (em torno de 5% em março nas cinco maiores regiões metropolitanas). A questão é a baixa qualidade do emprego. Ademais, a precária estrutura de serviços não tem recebido do Estado alavancagem para oferecer bom atendimento ao povo.

As políticas sociais do governo, é oportuno lembrar, abriram buracos. A decisão de implantar gigantesco programa de distribuição de renda não tem sido acompanhada de uma política educacional estruturante.

POPULISMO ECONÔMICO

O governo forjou, de um lado, o populismo econômico para abrir as portas do consumo aos grupos emergentes, mas, por outro, deixou de lhes oferecer ferramentas (e valores) que balizam comportamentos da classe média tradicional. A ignorância em matéria financeira acabou estourando o bolso de tantos quantos achavam ter encontrado o Eldorado.

Como se recorda, o losango tem sido apresentado como o formato do novo Brasil: de topo mais espaçado, alargamento do meio e estreitamento da base. Acontece que o saracoteio da classe C não permite apostar na substituição definitiva da pirâmide pelo losango.

É verdade que parte considerável da tensão urbana se deve ao momento especial do país: vésperas de Copa do Mundo e de campanha eleitoral. Mas é inegável que há uma força centrípeta em ação.

Remanesce a questão: para onde as altas e baixas marés carregarão a classe C e, ainda, que consequências serão sentidas em outros conjuntos? A hipótese mais provável é que, a continuar o vaivém dos grupos emergentes, os sismos continuarão a balançar o losango, e este voltará a dar lugar à velha pirâmide. As conquistas obtidas com os avanços dos programas de distribuição de renda estariam comprometidas. As marolas geradas por impactos no meio da lagoa acabarão chegando às margens.

Em suma, enquanto as famílias de classe média se mantiverem “enforcadas”, o nó apertará o gogó de outros habitantes da pirâmide. O Brasil terá de voltar a crescer, de maneira forte e sadia, sem usar o esparadrapo de paliativos sociais. (transcrito de O Tempo)

 

13 thoughts on “Do paraíso ao inferno, lá vai a classe média

  1. Do Paraíso ao Inferno, lá se vai a classe média… um bom título, senhor Moderador.
    O senhor Gaudêncio Torquato, com habilidade, traduziu o momento em que a economia entra em choque com o populismo, e suas consequências, marca registrada e bravateada pela gestão petista.
    Vamos aguardar que, até outubro, o cidadão-contribuinte-eleitor desperte para o conto do vigário que o está jogando nos braços do Capeta…
    .

  2. Essas aventuras denominadas megaeventos sairão carissimas p/ o sofrido e judiado povo tupiniquim. As mazelas do país estão sendo expostas de uma maneira sem precedentes. O tiro ( mostrar um país sério/digno ao resto do mundo), definitivamente saiu pela culatra. p/ 1 país q historicamente se encontra na rabeira no q diz respeito aos níveis educacionais/intelectuais d sua população fica difícil entender como obras de estadios tão esdruxulas podem consumir atenção em detrimento d educaçao básica.
    P aíses sérios movimentam economia através da educação e geração de patentes q rendem dividendos por décadas. país falido investe no circo (futebol/carnaval) pq eh mais facil, + menos rentável. investir no circo serve p/ manter povo na miséria intelectual e p/ perpetuar sua condição bovina. Eis o brasil povo marcado povo feliz.

      • Fróes,
        Tô rindo até agora!
        Excepcionalmente bem lembrado, além de eu escrever permanentemente que o PT detesta o povo, mas este povo, da classe média, que mediante a tua lembrança oportuníssima é alvo do ódio petista declarado pela sua filósofa oficial.
        Certamente a razão pela qual o PT faz tanto esforço para elevar as categorias salariais à classe média, exatamente para destar toda a população brasileira, sem exceção!
        Um abraço, Fróes.

  3. Não existe trabalho de baixa qualidade porque todo trabalho é necessário para movimentar a economia. Nos países desenvolvidos também têm empregados para fazer serviços rotineiros, mas estes são remunerados com mais justiça. No Brasil, apesar do salário mínimo baixo, muita gente conseguiu ascensão social devido a união familiar. Famílias pobres tendem a se unir para proporcionar bem estar para seus filhos. Mais gente pobre empregada, mais a união familiar se fortalece, porque a renda familiar aumenta. Na união familiar está uma das razões para o crescimento social de uma parcela da população brasileira. Querem a todo custo minimizar este avanço, mas a classe que ascendeu não está nem aí para a opinião da classe média, tampouco da mídia, porque ela sabe muito bem que a classe média e a mídia representam interesses que nada tem a ver com os dela. Muita família pobre conseguiu educar algum membro da família, e é deste que importa a opinião para ela. O Brasil mudou, as oportunidades são imensas para quem quer crescer.

  4. São Paulo está o Caos, metroviários pararam a cidade, são 209 Km de engarrafamentos. Quem governa São Paulo ? São Paulo é o maior colégio eleitoral, será que o paulista vai ter a coragem de votar no PSDB ? Será que o povo não sabe que o Aecio é do PSDB ? Será que o povo não percebe que estão cobrando da presidente aquilo que não fizeram nos estados que governam ?

    União , Estados e municípios. Será que só a União é a culpada pelas mazelas brasileiras ? Os hospitais federais são piores que os estaduais e municipais ?

    Aécio é do PSDB, não pode cobrar nada da Presidente. Porque quem não tem quiabo não oferece caruru.

  5. Enquanto o partido canalha de gente da mesma laia fomenta a ideia falaciosa de que fez crescer a classe média e colocou até um economista bandido no IPEA para reforçar a falsa mensagem, o partido dos bandidos castristas, praticamente congelaram a tabela do Imposto de Renda aumentando a base arrecadadora sobre a classe média e sobre quem está tentando chegar nela – na pirâmide social.

    O PT é o partido dos canalhas e vagabundos que nunca trabalharam ou estudaram a contento e tem ódio da classe média, pois, é ela quem trabalha e estuda e faz andar o Brasil.

    O PT quer a classe média quebrada para, também, quebrar o Brasil e o PT – agremiação criminosa que segue as diretrizes do Foro de São Paulo – justificar a transformação da República Brasileira em um ajuntamento comunista castrista.

    O lula – mula manca – e toda a turma que está solta e que foi presa DETESTA A CLASSE MÉDIA!

  6. Francisco de Assis, todo mundo sabe que o PSDB sempre teve problema com racionamentos. No governo FHC, racionamento de energia elétrica. No do Geraldo, racionamento de água para consumo humano. Quando houve estiagem, o volume das barragens diminuiu, parte da geração hidráulica foi substituída por geração termoelétrica, como era de se esperar. Mas a mídia não perdoou o governo da Presidente Dilma, apareceram especialistas , houve todo tipo previsão pessimista, questionaram até a viabilidade das hidroelétricas, fizeram as contas com os gastos com combustível, vociferaram contra a falta de planejamento energético do governo. Agora ,que falta água para consumo humano em São Paulo, ninguém fala nada. Estranho ? Não é não. É que o PSDB tem força. Tem a mídia não mão, a mídia paulista é rica e forte. Mas riqueza, a força e o poder do PSDB não conseguiram vencer a opinião da maioria nas urnas. Agora haverá outra eleição. Esta será decisiva. Se a Presidente Dilma for reeleita, será uma vitória antológica,porque vencer uma eleição depois de mais de um ano de bombardeio incessante contra o governo da Presidente, será sim,uma façanha a ser lembrada. A Presidente Dilma será lembrada como uma das grandes mulheres brasileiras. Oxalá seja reeleita. Era merece.

  7. Quiz!

    Se um cidadão classe C, recebendo 20 mil reais por ano, entrar com um processo contra o estado sobre a injustiça dele ter de pagar 40% de tributos e esse processo vai parar nas mãos de um juiz classe A que recebe 400 mil e paga 29,5%, quem vai ganhar a causa e quem vai pagar as custas?

  8. Um país bom pra cachorro

    Escrito por Márcio Santana Sobrinho | 04 Junho 2014

    A presidente Dilma disse na segunda-feira passada, em resposta às críticas feitas por Ronaldo “Fenômeno”, que “não temos complexo de vira-latas”. Os inimigos do governo estão dizendo que esse discurso foi cachorrada, mas ela falou sério — e dou razão.

    Esse tal complexo poderia ser verdadeiro no passado, quando Nelson Rodrigues cunhou a expressão, rosnando e espumando em seu reacionarismo. Mas agora perdeu o sentido, caiu em desuso, os tempos são outros.

    Nosso país está diferente. Vejam essas bandeirolas tremulando. É a Copa das Copas, e o tal complexo de vira-latas deixamos lá atrás, quando perdemos em casa. Dessa vez, em casa, só ganhamos porque ninguém vai levar estádio e aeroporto na mala — até porque nem ficou pronto.

    Ter Copa em casa nos livra desse sentimento canino de inferioridade em relação ao resto do mundo. Alguns cães até ladram, mas a Copa não vai parar. O brasileiro aguarda o início dos jogos com a língua de fora, vendo pingar na máquina o caldo quente da propaganda. Está embriagado em sua paixão natural — e legítima, diga-se — pelo esporte. Pega a bolinha, pega.

    Mas, roendo a outra ponta do osso, e sem querer ser hidrófobo, vemos algumas estatísticas que teimam em demonstrar, com o peso asfixiante dos números, que a propaganda ufanista apelando ao nosso orgulho é latido oco: o cidadão comum que vive no Brasil está mesmo revirando lixo, mesmo que não queira se enxergar dessa forma.

    Ora, como péssimos cãezinhos amestrados, estamos, por diversos anos consecutivos, nos últimos lugares em rankings que medem a educação. O governo consegue gastar 280 bilhões sem ter uma única universidade entre as cem melhores do mundo.

    Estamos na coleira quando o assunto é liberdade econômica. Somos o 114º país num total de 178, perdendo para o Quênia, Tunísia, Camboja, Tanzânia e Gabão. E se continuarmos em queda, não demora a chegarmos à categoria em que se enquadram, pela ordem, Coréia do Norte, Cuba, Zimbábue, Venezuela e Irã, campeões de repressão econômica.

    No índice de desenvolvimento humano ocupamos a 85º posição entre 186 países. Isso significa que não somos os mais judiados de todos os cães, mas ainda estamos na rabada, e melhorando pouco.

    Somos tosados em nossa liberdade de imprensa, ocupando a 108ª posição entre 179 países, e caindo! A cada oito dias é registrada uma violação grave à liberdade de expressão no país.

    O Brasil é o primeiro dosdez destinos mais perigosos para um turista. Batemos o nosso próprio recorde de homicídios e temos um número absoluto de 56.337 mortes violentas por ano. Quem mora em Trinidad e Tobago, Angola, Quênia, Uganda, Congo, e Ruanda está mais seguro do que você neste momento. De fato, ninguém sai hoje de casa numa cidade brasileira sem o rabo entre as pernas.

    Se quiser mais sarna para se coçar, confira os índices de percepção da corrupção,saneamento, saúde, impostos, suicídio epedofilia.

    Estou de acordo, presidente: não temos complexo de vira-latas. Ou, pelo menos, não temos mais o direito à ilusão de nos imaginarmos inferiores ao resto do mundo. Nós já chegamos lá, na maior parte dos casos. Não é mais um complexo, é algo passível de demonstração estatística, e por diversos ângulos.

    Mundo cão.

    Márcio Santana Sobrinho é jornalista.

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