Do relatório da CIA ao atentado no Riocentro, ascensão e queda da repressão

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Como o pesquisador Matias Spector revelou, o ciclo da repressão da ditadura militar atingiu o auge no governo Medici, prosseguiu no governo Geisel e se manteve no período inicial do General João Figueiredo até o episódio culminante da bomba no Riocentro em maio de 1981. A mão do destino evitou uma catástrofe, uma vez que no Riocentro realizava-se um show em comemoração ao Dia do Trabalho. A bomba explodiu no meio da noite e, claro, interrompeu a programação.

O Presidente João Figueiredo, evidentemente, sabia da trama elaborada para jogar a culpa em opositores do regime, colocando-os na alça da subversão. Figueiredo havia assinado em 1979 a Lei de Anistia e, também por ironia do destino, aproximou-se de Leonel Brizola, assegurando não só a ele mas a todos os exilados o retorno ao país. Ao sancionar, a lei João Figueiredo afirmou, com seu estilo simplista, que lugar de brasileiro é no Brasil.

FILHO DE ASILADO – Um dado histórico curioso é que João Figueiredo era filho do General Euclides Figueiredo, asilado em Buenos Aires em consequência da implantação do Estado Novo em 1937 e do atentado integralista de 1938. Por sinal, em maio também.

Ao longo do governo Geisel, que antecedeu o de Figueiredo, houve sem dúvida uma tentativa de distensão. Prova disso foram as eleições de 1974, com a vitória total do MDB de Ulisses Guimarães. Nesse ponto a repressão retornou à superfície, havendo uma série de atentados, inclusive à OAB, o que levou Geisel a um recuo, estabelecendo eleições indiretas para o Senado em 1978. E acabando com os horários de propaganda eleitoral gratuita.  Esse retrocesso demonstrou sua dependência ao esquema militar que detestava o voto do povo.

CASO FROTA – Geisel enfrentou uma situação difícil na demissão do General Sílvio Frota do cargo de ministro do Exército.

Ao Riocentro, acrescentava-se, assim, uma crise militar que havia sido iniciada em 75/76 com a morte do jornalista Wladimir Herzog e também com a morte do operário Manuel Filho nas dependências do DOI-CODI de São Paulo.

O Riocentro, entretanto representou um ponto de saturação. A farsa do atentado foi desmascarada, porém o governo não quis punir os verdadeiros culpados. Mas a repressão transformara-se no terrorismo de Estado. Foi essa situação que sofreria mudança profunda a partir da campanha pelas diretas já, liderada por Ulysses Guimarães e Tancredo Neves.

MILHÕES NAS RUAS – O comício da Candelária reuniu um milhão de pessoas ao longo da Presidente Vargas e na semana seguinte um milhão de pessoas na Avenida Paulista. O povo nas ruas afirmou sua disposição democrática. Faltaram poucos votos para o restabelecimento das eleições diretas. Mas a imagem da vontade popular foi vitoriosa. Daí surgiu a candidatura de Tancredo Neves na eleição indireta contra Maluf.

A campanha ganhou as ruas novamente e o lema de Tancredo foi o de que havia necessidade de disputarmos o voto indireto para destruir exatamente tal restrição. A caravela de Ulysses partiu, como ele próprio afirmava, em busca da liberdade.

Tancredo, operado, não assumiu a presidência. João Figueiredo deixou o Planalto por uma porta lateral para não passar a faixa ao vice José Sarney.

NA HISTÓRIA – Como se observa, a estrada da história foi o palco do memorando do CIA, da vitória de Tancredo e do fim das condenações a morte sem amparo na lei. A história se escreve assim. Ela depende de pontos de inflexão ao longo de seu trajeto. As eleições diretas se impuseram. A verdade dos fatos também. Aliás, sobre isso na edição de ontem de O Globo foi publicada uma importante entrevista de Matias Spector ao repórter Leandro Loyola.

Uma página a ser indexada à memória do país.

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