Do ridículo ao abominável

Carlos Chagas

Tem coisas que seriam cômicas se não fossem trágicas. Outras que seriam apenas ridículas se não fossem abomináveis. Encontram-se as quatro em curso no episódio Carlinhos Cachoeira-Demóstenes Torres. Por ser senador, este não poderia ter gravadas as conversas com aquele, pela Polícia Federal, sem licença do Senado. Assim, devem ser anuladas todas as provas contra ele…

Ora, a Polícia Federal investigava o bicheiro. Se no correr de mais de mil telefonemas monitorados por ele, trezentos foram dados e recebidos de Demóstenes Torres, implicando-o sem ser o objeto principal da investigação, como imaginar poder de veto ao Senado?

No fundo, trata-se de indícios e evidências de corrupção praticada entre os dois, caracterizando crime. Como anular o ilícito penal porque o Senado não foi ouvido para dizer se permitia ou não que um de seus integrantes tivesse sido grampeado porque dava ou recebia telefonemas do bandido investigado?

É a velha história que se arrasta desde os tempos do Brasil-Colônia: quem pode pagar bons advogados consegue evitar condenações, por mais claras que sejam as provas de seu crime. Simplesmente, anulam-se as provas, dessa vez em nome de um elitismo inadmissível. Por ser senador, um cidadão está acima e além da lei, porque se não fosse, estaria condenado…

Nas mãos do Supremo Tribunal Federal repousa a decisão sobre se valem ou não as provas colhidas contra Demóstenes. Se não valerem estará recuperada e limpa a sua imagem?

Outro artifício em vias de se completar está na negativa do Supremo Tribunal Federal de liberar para o Conselho de Ética do Senado as provas contra Demóstenes. Só se for para uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Para os que devem zelar pela ética dos companheiros, nada feito.

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NÃO DÁ PARA ACREDITAR

Circula no Congresso o temor de que o escândalo envolvendo Carlinhos Cachoeira venha a atropelar o julgamento dos envolvidos com o mensalão. Teria o bicheiro também participado da compra de votos parlamentares em troca de dinheiro vivo, distribuído pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e amealhado pelo publicitário Marcos Valério? São 38 os réus do mensalão, mas se a eles for acrescido o nome de Carlinhos Cachoeira, muda alguma coisa? Ou apenas confunde?

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DESTA VEZ, VAMOS?

Com a presidente Dilma outra vez em Brasília e apesar de sua ausência, domingo e segunda-feira, na Colômbia, aguarda-se para os próximos dias a designação dos sete integrantes da Comissão da Verdade que investigarão denúncias de torturas e de assassinatos praticados por agentes do poder público durante os anos do regime militar. Antes de conhecidos, o governo precisará definir os limite da investigação: quando algum dos investigados acusar terroristas e subversivos dos mesmos crimes, como justificativa para suas ações, esses novos personagens serão chamados a depor? Haverá alguma restrição à divulgação plena dos trabalhos da comissão? Quem for convocado disporá da prerrogativa de não comparecer?

Na seleção dos sete indigitados cidadãos, qual o critério da presidente Dilma para nomeá-los? Militares estarão de fora, dos que serviram à ditadura e dos que a ela se opuseram? Envolvidos em oposição ao regime castrense poderão ser escolhidos? Religiosos entrarão nas cogitações da chefe do governo? E parlamentares? Magistrados?

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PIOR QUE O ATUAL, SÓ  O PRÓXIMO

O dr. Ulysses também sabia ser cruel. Quando perguntavam sobre o nível do Congresso, depois do fim da ditadura, ele respondia de pronto: “pior do que o atual, só o próximo”.

Passou a época dos grandes pronunciamentos na Câmara e no Senado, onde o último dos oradores de vulto foi Paulo Brossard, cujos discursos faziam lotar o plenário e as galerias, quando vergastava o regime e suas contradições.

Faltam também aquelas réplicas de profundidade, humor e malícia que tanto caracterizaram os trabalhos da Câmara.

Quando alguns velhos jornalistas derramam-se em lamentações sobre “como era diferente o Congresso, no meu tempo, com Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Gustavo Capanema, Vieira de Mello e Tancredo Neves”, sempre restará aos jovens repórteres de hoje, daqui a 50 anos, lembrar que no tempo deles também foi diferente, com Demóstenes Torres, Eliseu Padilha, Tiririca e Marta Suplicy…

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