Dois anos depois, células-tronco podem ser usadas

Pedro do Coutto

Ninguém tem dúvida que a justiça brasileira é extremamente lenta, exceto quanto à concessão de certos habeas corpus quando a velocidade é a da Fórmula 1. Veja-se este exemplo: o Diário Oficial de 16 de agosto deste ano, primeira página, publica finalmente a decisão do Supremo Tribunal Federal que garantiu a realização de pesquisas e o uso de células-tronco embrionárias para fins terapêuticos. Em que data a decisão definitiva foi tomada? Exatamente no dia 29 de maio de 2008. uma diferença superior a dois anos. Portanto, na realidade, só a partir de agora cientistas e médicos podem passar do pensamento à ação prática e concreta.

A questão fôra suscitada pela Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil que arguiu a inconstitucionalidade da lei de Biossegurança, lei 11.105 de 2005, especialmente artigo quinto. O STF demorou três anos para julgar a matéria e dois anos para simplesmente publicar a decisão final. Nesse espaço de tempo, faleceu o ministro Carlos Alberto Direito, que havia pedido vista e adiado ao Maximo o julgamento, e o ministro Eros Grau aposentou-se. Curioso o processo judicial. Muitas vezes as sentenças são publicadas com julgamentos feitos por juízes aposentados. É demais. Não há explicação lógica para a demora da publicação desse Evangelho da Corte Suprema.

A rigor, a arguição sequer deveria ter sido aceita, sobretudo porque tratava-se de exercer um papel de protelação. No caso, entretanto, quantas vidas deve ter custado tal expediente? As pessoas não deveriam ser julgadas somente pelo que fizeram. Mas também pelo que deixaram de fazer. Caso típico das células-tronco. E o que tinha a Igreja Católica a ver com um avanço científico desse porte? Nada. Absolutamente nada.

Ao longo da historia da humanidade, infelizmente, a Igreja de Roma sempre se coloca em posição contrária ao progresso. São inúmeros exemplos de Maria Madalena a Galileu, o mensageiro das estrelas, como ele próprio se apresentou, ao sustentar que a Terra era redonda. A Cúria Romana sempre contra a maré natural, a favor da estagnação e das trevas do passado. O Supremo quase embarca nessa onda passadista, com alguns mistérios resistindo à alvorada, preferindo a escuridão.

Escuridão sim. Porque ignorar os avanços da ciência e da vontade humana no sentido da modernização e remeter ao passado. O que, afinal, alguém poderá dizer contra as células-tronco? Nada. Elas podem reabilitar centenas de milhares de seres humanos para os quais elas, as células-tronco, tornam-se a derradeira esperança. Esperança que se move à base de uma luz no fim do túnel. Os passadistas, simplesmente, querem apagar essa chama que aquece perspectivas melhores de vida.

De tropeço em tropeço, de tentativa de retrocesso em tentativa, o catolicismo conservador vai perdendo seguidores. Daí porque projetam –se mais velozmente outras religiões e até mesmo investimentos à base de ilusões. Mas tal política religiosa ilusionista vem de um fato abordado diretamente pelo Papa João XXIII, na Encíclica Mater et Magistra, de 1959. Nela o grande Papa destacou uma verdade que se transformou num plano divisor entre o presente e o passado. Uma ruptura com o conservadorismo. Reconheceu que os seres humanos têm que se realizar tanto na Terra como no céu. Acenar só com a ida eterna não é suficiente. É preciso ir também ao encontro da existência, unindo a vida material à eternidade. Por falar em eternidade, o Supremo demorou quase uma eternidade apenas para publicar uma decisão importante que tomou. O tempo não pára. Não se pode conter os ponteiros do relógio.

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