Dois exemplos, duas lições

Sebastião Nery

O grande genio da política, da literatura e da oratoria da Paraíba, criador do romance nordestino com “A Bagaceira” em 1928, José Américo de Almeida, interventor na revolução de 1930, ministro de Obras Publicas de 1931 a 34 e de 1953 a 54. senador em 1935 e 47, candidato a presidente da Republica em 37, foi eleito governador em 1950 pelo PSD.

Nomeou o tenente Luís de Barros delegado em Espírito Santo, onde mandava a poderosa família Ribeiro Coutinho, da UDN, seus adversários. O comando da Polícia Militar considerou o ato “uma ofensa aos brios da corporação”. E

Escolheram uma comissão (o comandante e três coronéis) para ir ao governador manifestar “o desgosto e a inconformidade” da polícia. José Américo os recebeu sentado, eles todos de pé em sua frente.

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JOSÉ AMERICO

Falou o comandante, coronel Ivo Borges:

– Governador, o ato de V. Excia repercutiu muito mal no alto comando, porque o tenente Luís Barros é execrado na Polícia Militar da Paraíba. A nomeação não foi bem recebida e não poderá ser executada.

José Américo levantou-se:

– Coronel, mande formar a polícia diante do palácio em farda de gala.

– Pois não, governador. Para quê?

– É que eu quero, com um decreto, dissolver esta polícia de merda.

A comissão saiu e o tenente ficou delegado.

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PETRONIO

Em abril de 1977, Brasília era um cemitério cívico reinado pelo presidente Geisel, que poucos dias antes lançara o “Pacote de Abril”, fechara o Congresso, rasgara até a Constituição da Junta Militar e passara a legislar como um Nero em sua Roma tropical. Como sempre fazia em Brasília, fui ao Senado conversar com Petrônio, o presidente.

– Ótimo. Vamos conversar. Passe amanhã cedo lá em casa.

Fui. Gravador em cima do sofá, quatro horas de um interminável, direta, vibrante conversa. De quando em quando, ele mesmo punha o dedo no stop, desligava e dizia coisas dos bastidores, impublicáveis, apenas para meu conhecimento.

Lembro-me, por exemplo, de uma defesa calorosa da candidatura do general Figueiredo (era abril de 1977, quase dois anos antes da escolha e ele não tinha a menor idéia do que Geisel pensava) e uma análise crua, dura, agressiva, sobre o “despenhadeiro” (a expressão foi dele) que seria a chegada do general Sylvio Frota ao Planalto.

Saí e no dia seguinte publiquei no “Correio Braziliense”, em duas paginas, a conversa inteira, sob uma manchete de Oliveira Bastos:

“Petrônio, o Bedel do Sistema: por que não aceito a Presidência”.

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POLICIAS

São as mais abertas confissões que li dele. Para um homem que falava muito sobre tudo e todos, mas o mínimo sobre si mesmo, aquele papo espichado que saiu no Correio Braziliense  virou um documento histórico (a conversa toda está, na integra, em meu livro “Pais e Padrastos da Pátria”, prefacio de Pelopidas da Silveira – Editora Guararapes, Recife, 1980).

– “Em 1962, eu me elegi governador. Meu governo foi marcado de muitos acidentes. Encontrei o funcionalismo com três meses de atraso. Minha preocupação era deixar uma obra administrativa em um Estado cujos governantes eram obrigados a mergulhar numa rotina de nomear professores e delegados. Fiz um plano de austeridade com o objetivo de no primeiro ano sanear as finanças e me valeu uma impopularidade terrível”.

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ULYSSES

– “Logo a Polícia Militar foi me pedir aumento, o que foi negado, com o fundamento de que não era possível aumentar os vencimentos deles, quando não havia recursos para aumentar o de todo o funcionalismo. Misturado à política partidária, criou-se uma situação de sublevação no Estado, ameaçadora à própria segurança pessoal do governador”.

“As ameaças se multiplicavam, o quartel da PM se transformou em parque de comícios da oposição. A Associação Comercial mandou uma comissão ao meu gabinete oferecendo apoio para aumentar os impostos e dar o aumento da PM. A minha resposta foi não. Absolutamente não. O problema era de resguardar a autoridade. E a polícia não teria privilégios”.

– “A coisa tomou um aspecto belicoso tal, que fui obrigado a solicitar força federal ao ministro da Guerra e ao ministro da Justiça para garantir o governo ameaçado. Vinte e quatro horas depois, a tropa federal cercou o quartel da Polícia Militar e acabou a sublevação. Isto foi em agosto de 1963, o presidente da Republica era João Goulart, o ministro da Guerra o general Jair Dantas Ribeiro e o da Justiça o deputado Abelardo Jurema”.

Dois exemplos, duas lições. O Brasil viveu na semana passada o pesadelo de policias armadas sublevadas na Bahia e no Rio. Ulysses Guimarães dizia:

– “A primeira virtude de um homem publico é a coragem. Só depois virão as outras. Sem coragem, ele jamais conseguirá cumprir seu dever”.

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