Dois pesos e duas medidas

Carlos Chagas

Há alegria sempre que um réu é absolvido, presumindo-se ser inocente. O problema na absolvição de Duda Mendonça pelo Supremo Tribunal Federal é o reverso da medalha. A contradição. Porque se não foi considerado culpado por receber 10 milhões de reais do PT num paraíso fiscal, em conta por ele aberta, como punir Marcos Valério por haver enviado o dinheiro? O publicitário poderia até não saber da origem fajuta dos recursos, mesmo tornando-se difícil a presunção. Não prevaleceu a hipótese por falta de provas. Tudo bem, mas como justificar um pagamento lá fora por serviços prestados aqui dentro, a não ser pela intenção de sonegação fiscal? Impostos e multas só foram pagos depois de denunciada a operação.

Julgamento contraditório

Numa palavra, dois pesos e duas medidas na decisão quase unânime da mais alta corte nacional de justiça, de absolver um e condenar outro. Marcos Valério já estava arcabuzado por muitas falcatruas. Mais uma, menos uma, tanto faz para o cálculo de sua longa pena de prisão a ser cumprida, mas a verdade é que Duda e sua sócia viram-se beneficiados.

Fica para o esquecimento perguntar de quem foi a proposta de remessa dos recursos para um paraíso fiscal. Pode ter sido de um ou de outro. Ou de ambos, o que parece mais provável.

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O POVO UNIDO ESTÁ SENDO VENCIDO

A referência vai para Portugal, onde a multidão cantou o refrão internacional de que “o povo unido jamais será vencido”. Porque está sendo, fragorosamente, pela Alemanha, 67 anos depois de encerrada a Segunda Guerra com a derrota dos alemães. Berlim manda na economia européia e exigiu de Lisboa, para continuar mantendo o fluxo de euros, que aumentasse impostos, reduzisse salários, promovesse demissões em massa no serviço público e cortasse investimentos sociais. O governo português cedeu, ou talvez nem tivesse resistido, conservador que é.

O resultado aí está: o povo saiu às ruas da capital lusa num protesto para ninguém botar defeito. Porque é, o povo, o grande e maior prejudicado pela sucessão de erros na condução da economia no país de nossos avós. Durante décadas adotaram a política neoliberal de favorecer os bancos e o sistema financeiro, endividando-se e hipotecando o próprio futuro. Foi a Alemanha que cresceu, por conta de regras por ela impostas agora sem tanques e sem o nacional-socialismo. Na hora da conta, vai para quem? Para o cidadão comum português. Mil motivos para protestar ele tem, mas nenhum sinal de que será atendido.

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BATEU NA TRAVE

Quase que o Carlinhos Cachoeira saiu da cadeia. Ganhou um habeas-corpus, mas como tinha outras acusações, permanecerá onde está. Indaga-se até quando, porque, pelo jeito, alguma hora conseguirá. Seria importante que fosse logo condenado em definitivo, mas quem tem recursos para contratar os melhores advogados do país consegue protelar qualquer julgamento. E até escapulir, se tiver paciência.

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SEM REFORMA?

Ganha corpo na Esplanada dos Ministérios a impressão de que Dilma Rousseff não promoverá reformas ministeriais por conta do resultado das eleições municipais. Não existem vagas, ainda que a presidente da República detenha por todo o seu mandato a prerrogativa de trocar quem quiser. Reforma ampla, mesmo, só quando chegar o tempo de desincompatibilização dos ministros que disputarão eleições em 2014, quer dizer, em abril daquele ano.

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