Dolarização da economia brasileira

Prezado Jornalista Hélio Fernandes:

Antes de tudo, agradeço pelo espaço e a oportunidade que o senhor tem me dado para expor livremente meu pensamento. Por outro lado, peço desculpas por lhe enviar cartas a todo o momento, mas são tantos os temas relevantes para o País (com alguns absurdos que passam despercebidos), que não podemos deixar de registrar, resistir e aguardar sua opinião, sempre esclarecedora dos fatos.

É o caso do O Globo, de sábado, 31-10-09, que em sua página 21 destacou: “No extrato, saldo em dólar. Para conter câmbio, BC estuda permitir abertura de contas em moeda estrangeira no País”.

No ginasial aprendi que um dos símbolos de uma nação soberana é sua moeda forte. Mas no Brasil, tanto os que estão à frente da Administração das Finanças Públicas quanto os que se dedicam à gestão de negócios, pregam que a nossa moeda (o Real) não pode se valorizar diante do dólar americano. Será que esta é a realidade atual?

Como o senhor por diversas vezes nos explicou, os americanos, depois de assinado o acordo de Bretton Woods, em 1944, instauraram um sistema monetário internacional totalmente favorável à sua moeda, que passou a ser vendida para todo  o mundo.

Inteligente a postura americana: quem tem dólar jamais vai querer que ele se desvalorize, caso contrário perderá um ativo. Com isto, a moeda americana tornou diversos países dependentes da economia dos Estados Unidos da América do Norte.

Por conta da sua gigantesca máquina de guerra e uma sociedade extremada no consumo, a economia americana aumentou o seu déficit publico, exigindo cada vez mais emissão de um papel moeda que nada vale e transferindo para si recursos estratégicos de todo o mundo.

A esse respeito, registro parte de uma reflexão de Fidel Castro (Granma de 09\10\09), entitulada “Os sinos dobram pelo dólar”: “O dólar já deixou de ser a reserva em divisas de todos os Estados, realmente seus possuidores desejam afastar-se dele, embora evitando sempre que for possível que se desvalorize antes que possam desligar-se deles. O euro da União Européia, o yuan chinês, o franco suíço, o iene japonês — apesar das dívidas desse país —, até a libra esterlina, junto a outras divisas, passaram a ocupar o lugar do dólar no comércio internacional. O ouro metálico volta a se tornar importante moeda de reserva internacional.” (Nossos grifos)

Como podem jornalistas e financistas brasileiros defender o fortalecimento da moeda americana, inclusive fazendo pressão para a livre movimentação bancária em nosso País , quando outras economias estão tentando se desvincular daquela moeda?

Às vezes, tenho o sentimento de que há muito brasileiros que gostariam de ser americanos, pois defendem demais os interesses do País do Norte ao invés do desenvolvimento de nossa gente.

Um forte abraço.

Jorge Rubem Folena de Oliveira
Presidente da Comissão Permanente de Direito Constitucional do IAB – Instituto dos Advogados Brasileiros

Comentário de Helio Fernandes
Pode usar o espaço à vontade, como muitos outros está sempre atento na defesa do interesse nacional. Já escrevi tanto sobre o assunto, e sobre a valorização da moeda do país, que receio que a memória me encaminhe para fatos já comentados. Só que escrevo desde Bretton Woods, em 1944, quando pela primeira vez a moeda de um país se transformou em objeto de troca no mundo. Há 65 anos, o dólar subia ao podium, se tornava insubstituível. E não era medida exigida pelo bom senso, pela necessidade, pelo progresso dos mais diversos países.

Era apenas “articulação suja”, como todas que se transformam em realidade para proteger os interesses dos ricos, bilionários (na época), tidos e havidos como os empresários que “carregam o mundo nas costas”, fazendo o consumo aumentar e “favorecendo” os mais pobres. A miserável falácia do “sistema” que já existia, era o porta-bandeira, o porta-voz e o porta-sujeira das elites encasacadas e endinheiradas.

Quem comandava tudo? O economista inglês John Maynard Keynes. Era tido como gênio, já escolhera o nome da moeda que circularia pelo mundo, seria BANCOR. O OURO, que vigorara até então, foi chamado de “HERANÇA MACABRA”, voltou a se valorizar como você mesmo comprovou e registrou.

Os homens que dominavam a economia dos EUA tiveram com Lord Keynes, conversa demorada e bem sucedida, assassinaram as moedas antigas e esse BANCOR, que seria o novo. A partir dessa conversa vitoriosa, os EUA montaram no estado de Omaha, formidáveis máquinas de impressão que rodam 24 horas por dia. Esse dólar caixeiro viajante tem duas faces. O VERDADEIRO, que é guardado em Fort Knox, para circulação interna. E o FALSO, dólar papel pintado, cuidadosamente mantido em Omaha, para não haver confusão e dali mesmo despejado pelo mundo.

(Lord Keynes teve sua “recompensa” logo a seguir, em ganhos fabulosos nas Bolsas, ele que jamais jogara. Só que não pôde aproveitar, pouco anos depois morreria de câncer, este, invencível e que não admite nenhuma troca).

Há algum tempo, os americanos sentem a ameaça da desvalorização do dólar. Vai acabar, vai mudar, desaparecer, deixar de dominar o comércio mundial, as exportações e  importações. Mas não é fácil.

Essa transformação não pode ser feita de uma hora para outra. Principalmente por causa da contradição: os principais países que querem O FIM DO DÓLAR, TÊM TRILHÕES DE DÓLARES INVESTIDOS OU GUARDADOS NOS EUA.

Alguns países que têm montanhas de dólares ensacados nos EUA: países árabes, Rússia, Índia, Paquistão, e para não ir muito longe, a China, sim senhor. Não sabem como fazer, mas têm certeza de que precisa ser feito. Além dos formidáveis DEPÓSITOS, os dirigentes dos EUA ficam em pânico, com dois fatos que na certa acontecerão, ninguém pode limitar ou calcular o tempo.

1-  O que ocorrerá nos EUA se a moeda DÓLAR deixar de ser o centro do mundo? Desabará o consumo interno do país, quando até os economistas sabem que é o consumo interno que alavanca o progresso e contribui para o retrocesso?

2- Ao meio dia em ponto, com a batida das 12 badaladas do Big Ben, num prédio caindo de velho do centro de Londres, (longe da Old Bond Street, centro financeiro da capital inglesa) é anunciado o preço do barril de petróleo. Em dólar, naturalmente.

Os EUA se apavoram só em admitir que esse anúncio do preço do petróleo, seja feito em EURO, ou outra moeda qualquer. (Por enquanto o EURO é o favorito, a Inglaterra não pode ficar por muito tempo fora da UE – União Européia).

Quanto aos insensatos (só isso?) internos, que afirmam, “com o Real valorizado perdemos competitividade nas exportações”, não podem ser levados a sério. Como exportadores e importadores são praticamente os mesmos, ganham sempre e cada vez mais.

***

PS- Um fato que não é noticiado nunca: os exportadores têm 210 dias (7 meses) para entregarem ao governo, o que receberam dos compradores. Mas sempre arranjam desculpas para “esticar” esses 210 dias.

PS2- Além dos lucros com esses VOLUMOSOS recursos, outro fato sobre o qual ninguém quer escrever, falar ou até mesmo ouvir: o SUPER e o SUB faturamento, centenas e centenas de BILHÕES, por enquanto de dólares. Este é um assunto que merece debate esclarecedor, com os parabéns a Jorge Folena por ter levantado a bola e pelos que se aproveitarem dela para se manifestar.

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