Dossiê Marina Mantega, quase um thriller 007

Pedro do Coutto

A excelente reportagem de Tatiana Farah, O Globo de 4 de agosto, sobre o dossiê anônimo publicado simultaneamente pela Folha de São Paulo e pelo Valor envolvendo ao mesmo tempo setores do PT, a atriz e modelo Marina Mantega, além de empresários brasileiros e dos Emirados Árabes, tem quase todas as conotações de mistério e ação que assemelham o episódio aos filmes de 007. Exceto as lutas e tentativas de assassinato que se movimentam em torno de James Bond, a narrativa é dinâmica, as indagações são muitas, as sombras maiores ainda. Personagens enigmáticos passam pelo foco das câmeras e dos textos do script. O diretor do espetáculo ainda não apareceu. Bota mistério nisso.

A filha do ministro da Fazenda, segundo ela própria revelou, opera uma base em Dubai, outra em São Paulo. Viaja com freqüência entre o Brasil e o Oriente Médio. Lá, ou aqui, tornou-se representante do Al Ahli Group e pessoa de confiança do dirigente do conglomerado, Mohamed Kammas. Ao mesmo tempo, passou a ser amiga do empresário Ricardo Staub, controlador da Gradiente. Marina Mantega, ao que parece, deixou as luzes do palco, trocando-as por consultorias econômicas.

Entre os refletores da Folha de São Paulo, do Valor e agora também do Globo e as sombras do mundo de negócios, as ações se desenrolam. Marina – diz Tatiana Farah – procurou Paulo Caffarelli, vice-presidente do Banco do Brasil, departamento de Cartões de Crédito, para solicitar algo, ou para a empresa árabe de Mohamed Kamas, ou para a Gradiente. Ela nega os encontros. Caffarelli confirma. Pelos sintomas clássicos colocados nas páginas, as solicitações não foram atendidas. Mohamed Kamas a teria designado representante do Al Ahli Group em vão. Sem dúvida uma tentativa ousada em matéria de consultoria econômica.

Mas este fato não cortou o thriller. Pelo contrário. Paulo Caffarelli, depois de convidado pelo ministro Mantega para assumir a Previ, Fundo de Aposentadoria Complementar do Banco do Brasil, foi desconvidado pelo titular da Fazenda,. Caffarelli substituiria Sérgio Rosa cujo mandato terminara. Nem Rosa nem Caffarelli, o designado agora é Joilson Ferreira. A que setor do PT pertence? Especula-se, mas não se sabe direito. Porém, seguindo a intuição de Sherlock Holmes, não só a de Ian Fleming, a quem interessaria a divulgação do dossiê ou da carta anônima, como a candidata Dilma Roussef qualificou o documento apócrifo produzido nas sombras? Produzido nas sombras de onde e de quem? E aí, de 007 e Connan Doyle, passamos a Hitchcock, à semelhança de Intriga Internacional com Cary Grant, Eve Marie Saint e James Mason.

Sim. Porque a matéria foi produzida no sentido nítido de abalar a posição do atual ministro da Fazenda, pai de Marina. Como os redatores anônimos podiam saber das representações atribuídas à jovem modelo? Quais as fontes de informação? Da própria área da Fazenda, pouco provável. Do Banco do Brasil, de um informante cujo interesse teria sido contrariado? Do Banco Central que possui o controle dos relacionamentos financeiros internacionais? Não são muitas as alternativas. Enigma.

A vida real, como é chamada, mais uma vez ao mesmo tempo abastece e desafia a ficção das tramas policiais. A volumosa literatura criminal, no caso do dossiê Marina, recebe a adição de mais um capítulo de mistério ao qual, como quase sempre, não faltam detalhes de puro humor. Só resta o autor do dossiê ser o mordomo.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *