Dossiê que teria sido feito pelo ex-diretor da Saúde assombra civis e militares do governo

Ilustração BC (Blog Carlos Lima)

Malu Gaspar
O Globo

Tanto os lances finais da sessão da CPI da Covid que ouviu o ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, como a reação dos comandantes militares às declarações de Omar Aziz (PSD-AM) sobre a existência de um “lado podre” nas Forças Armadas têm que ser interpretadas à luz de um fato novo: a crença de que está escondido na Europa um dossiê que Dias preparou enquanto estava no Ministério da Saúde para se blindar de acusações.

Depois que o cabo da PM Luiz Paulo Dominghetti declarou à CPI ter recebido de Dias um pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina e teve o celular apreendido, o ex-diretor de logística foi demitido e percebeu que não teria alívio na CPI.

DOSSIÊ DA CORRUPÇÃO – Logo, começaram a circular nos bastidores de Brasilia informações de que o afilhado político de Ricardo Barros (PP-PR)  tinha feito um dossiê sobre casos de corrupção no ministério e iria à comissão disposto a entregar todo mundo.

O recado chegou à CPI por meio de gente próxima a Dias e mesmo de jornalistas, configurando a guerra de nervos que se deu antes do depoimento.

Quando Dias se sentou diante dos senadores, a expectativa dos membros do G7, o grupo de oposição e independente que comanda a comissão, era de que ele fizesse como o deputado Luis Miranda ou o PM Dominghetti e, cedo ou tarde, fizesse alguma revelação bombástica. Não foi bem o que aconteceu.

SEM REVELAÇÕES – Embora a toda hora alguém perguntasse se era verdade que ele havia e-mails da Casa Civil de Bolsonaro pedindo para “atender pessoas” – tipo de informação que segundo os senadores estaria disposto a dar na CPI –, Dias negou.

Mas, quando Aziz o pressionou para dizer se tinha feito mesmo um dossiê, o ex-diretor do Ministério da Saúde não confirmou, nem negou, criando um suspense que só aumentou a tensão.

Renan Calheiros (MDB-AL) ainda apertou Roberto Dias para dizer quem era Ronaldo Dias, seu primo que é dono do laboratório Bahiafarma – e que, segundo disseram à CPI, estaria com o tal dossiê. O ex-diretor apenas confirmou o laço entre eles e não disse mais nada.

CASA CIVIL OU MILITAR? – E aí entram os militares. No governo Bolsonaro, o ministério da Casa Civil, citado nas perguntas dos senadores, tem sido ocupado por generais. Hoje, o general Luis Carlos Ramos. Antes, o general Walter Braga Neto, que agora está no ministério da Defesa, e que coordenou o comitê de esforços contra a Covid montado pelo presidente Jair Bolsonaro. Portanto, citar a Casa Civil num dossiê, como sugeriu Omar Aziz, não seria trivial.

De imediato, porém, quem saiu chamuscado do depoimento foi um coronel. Segundo Dias, era Elcio Franco, o secretário-executivo do ministério, quem concentrava todas as negociações de vacina.

A todo momento, Dias empurrava as responsabilidades para o 02 de Pazuello.  O diretor de logística contou ainda que teve os principais subordinados substituídos por militares assim que Pazuello assumiu o ministério, deixando claro que havia uma rixa entre ele e os militares.

TERRITÓRIO OCUPADO – Nas palavras de um membro da CPI bastante experiente em ocupação de espaços no governo, “os militares chegaram ao ministério da Saúde e constataram que o território já estava ocupado pelo Centrão”.

Foi nesse clima que, durante a sessão, o presidente da CPI Omar Aziz  sapecou ao microfone que “membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua dentro do governo”.

E foi essa declaração que, pelo menos oficialmente, motivou a nota dos comandantes militares, dizendo que “as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro.”

TURMA DO DEIXA DISSO – O saldo final da crise ainda está por ser medido. Ao longo da noite, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e vários outros senadores, se esforçaram para diminuir a temperatura do conflito com os militares, expressando respeito às Forças Armadas. A preocupação, porém, continua.

Até porque Roberto Dias saiu do plenário preso, acusado de mentir à CPI, e foi solto horas depois, sob fiança. Mas, mesmo sem ter dito nada, deixou no ar seco de Brasília a crença de que ele ainda tem guardado, em algum lugar, um dossiê que pode explodir a República, levando junto a imagem dos militares no governo.

5 thoughts on “Dossiê que teria sido feito pelo ex-diretor da Saúde assombra civis e militares do governo

  1. O problema das FFAA brasileiras é que se acham verdadeiras vestais do Olimpo. Nunca admitiram que como em todas as organizações sempre tem uma ou mais “laranjas podres”.
    O por não corrigirem exemplarmente os maus militares, como por exemplo, o ex tenente Bolsonaro, cada vez mais se contaminam.

  2. Por mais que a imprensa prostituída se policie, para disfarçar as narrativas criminosas que inventa, sempre escapa algo. É o caso deste texto, num ato falho a jornalista de aluguel revela o que realmente deseja o G7 (Gangue dos 7), da CPI do Lulu:

    “a expectativa dos membros do G7 … era de que … fizesse alguma revelação bombástica. Não foi bem o que aconteceu.”

    Por isso o pedófilo e ladrão Omar “260 Milhões” abusou da sua autoridade e, ilegalmente, prendeu o depoente.

    Como a treta do Dias não deu certo, o jornalismo de aluguel inventa outra narrativa … “a do dossiê”. Isso confirma o que venho escrendo aqui: a grande imprensa brasileira é criminosa.

    Antes que eu me esqueça, jornalistas venais: qual o valor desviado dos cofres públicos por conta da corrupção na compra das vacinas pelo MS?

  3. Kkk… agora o servidor tem um dossiê contra civis e militares do governo? Kkk… o desespero é grande. Tem dossiê mesmo? Mostra aí, pó!

    “ô dossiê, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver”

  4. À medida que a nação brasileira foi-se convertendo numa sociedade de corruptos e/ou corruptores, aquelas classes mais acortinadas, corporativas, autodefensivas e capazes de hostilizar;  as suas degradações morais se aceleraram mais rápidamente dada a autoconfiança, se comparadas às que são passivas de punição, porque não contam com garantia de impunidade. Atualmente, de tão volumosas as sujeiras, para uma entidade tida como puritana outrora, ficou impossível mantê-las invisíveis debaixo do tapete.
    Desse modo, a corrupção, no Brasil, virou uma olimpíada: os atletas que contarem com os potencializadores químicos e outros handicaps, indetectáveis pelo exame antidoping, por exemplo, eles serão fortes candidatos a vincituros.
    Um caso corrente: o PMMG que fez a denuncia de uma das  compras suspeitas de vacinas, Dominguetti Pereira, responde a 37 processos. Ele sendo um cabo PM, nem sei se tem a mesma equivalência funcional de um vereador (no poder legislativo). Será se um edil, desarmado, transitório e sob o escrutínio popular, sobreviveria com tamanho rol de broncas?
    PS: os militares só não são mais perigosos, porque são quadrúpedes amalocados em récua que não recua!

    • À medida que a nação brasileira foi-se convertendo numa sociedade de corruptos e/ou corruptores.

      Perfeito,Sr. Paulo, essa frase diz tudo sobre nosso Páis atualmente.
      Boa parte da população está contaminada pelo Tucavírus-Petralha-Bolsomerdis da Corrupção.

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