Duas fantasias: a restrição ao crédito e a nova classe média

Pedro do Coutto

O templo da tecnocracia – espécie de “Alfaville” de Jean Luc Godard – vez por outra produz fantasias que pouco têm a ver com a realidade. Na versão 2011, uma delas a que o aumento da taxa Selic vai forçar a restrição do crédito pelos bancos. Falso. Os bancos, como acentuo mais uma vez, não são devedores dessa taxa, agora para 12% a/a. São credores. Como a dívida interna passa de 2,2 trilhões de reais, reportagem de Sérgio Lamucci, Valor de 19 de Abril, sintetizando a questão, 0,5% a mais sobre o montante produz uma receita adicional de 10 bilhões por ano à rede bancária. Portanto não há motivo algum para que ela reduza o volume de crédito. Pelo contrário. Com mais dinheiro em caixa, o impulso natural é colocá-lo no mercado.

Inclusive porque os juros cobrados nesse mercado são de 40% ao ano. Para uma inflação de 6%, calculada pelo IBGE para os últimos doze meses. A taxa Selic nada tem a ver com os juros cobrados nas operações de crédito. Fantasia total dizer-se o contrário. Essa não. Não adianta brigar com os fatos. Pois se alguém apenas com a caneta mágica pudesse mudar para melhor a realidade, não haveria problemas no mundo. Mas até hoje, 1978 anos de pois da morte de Cristo, como dizia Antonio Houaiss, não existe um sequer resolvido.
A começar pelo da fome, origem de uma sequência enorme de outros. Vinte por cento da população do planeta – sustenta a própria ONU – vão dormir com fome todos os dias, por que não têm o que comer. Não por falta de alimentos, mas em face do analfabetismo, do não emprego, do desemprego, dos baixos salários. E da falta de estudo que gera o conformismo e, por sua vez, a inércia crônica imobilizadora da evolução humana e do progresso dos povos.

Falei da primeira fantasia e, como se estivéssemos no universo de OZ, vou falar na segunda, a partir de excelente reportagem de Bernardo Mello Franco, Folha de São Paulo de sexta-feira 22, a respeito do avanço do PT sobre o que o economista Marcelo Nery, Fundação Getúlio Vargas, chamou de nova classe média. Com base em pesquisa do Datafolha, Melo Franco focaliza o tema e conclui que o PT, e não o PSDB, cresce muito politicamente no segmento.

Em primeiro lugar, incluir-se na classe média aqueles que ganham por mês três salários mínimos é boa vontade demais. Não é fato. Quem percebe mensalmente 1 mil e 635 reais não ingressa nesse elenco de consumo. Muito pouco. Além do mais, tem que contribuir para o INSS, pode estar isento do Imposto de Renda, mas paga indiretamente o ICMS, IPI, ISS. Não sobra nada. Mas esta é outra questão.

Não abala a ótima matéria que FSP publicou. Ao contrário. Ela cresce por si, sobretudo na medida em que se projeta sobre a área política. Abala, isso sim, a recente afirmação do ex-presidente Fernando Henrique, de que os tucanos devem alçar vôo sobre a nova classe média, que emergiu em consequência da política salarial do governo Lula.

Bernardo Mello Franco, neto do embaixador Arinos Filho e bisneto do senador Afonso Arinos de Mello Franco, desenvolve as comparações indispensáveis e definitivas. Vamos a elas.
Junto às famílias (não apenas pessoas) que têm salário até 2 mínimos, o PT alcança 23%. O PSDB apenas 4. Em relação aos que ganham de 2 a 3 pisos, o PT obtém 28, o PSDB 6%. Quanto àquelas cujos vencimentos vão de 3 a 5 SM, o PT atinge 32, o PSDB fica nos 6%. Relativamente às famílias com renda de 5 a 10 pisos, o PT 29, PSDB 8 pontos. Na última faixa, mais de 10 SM, o PT fica com 16, o PSDB mantém os 8%. O ex-presidente FHC deve ler ou ter lido a matéria.

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