Duas histórias. Duas?

Jacques Gruman

Perdoem a cara amarrada,/Perdoem a falta de abraço,/
Perdoem a falta de espaço,/Os dias eram assim
(da música “Aos nossos filhos”, composta por Ivan Lins e Vitor Martins)

Nestes dias de lembranças dolorosas, nesta fase de desencanto, nestes momentos de travo amargo, começo a contar duas histórias brasileiras. Melhor: de duas mulheres brasileiras. Nenhuma das duas mereceu manchetes, nenhuma das duas mereceu sequer um fiapo da repercussão dos 7 a 1, e, no entanto, são alma e sangue do que é o nosso país. Seus rostos vincados pela dor carregam olhos cansados pela indiferença dos outros, seus cabelos, prematuramente embranquecidos, gritam o horror abafado pela invisibilidade.

MARIA AUXILIADORA ARANTES      

Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes é psicóloga e psicanalista. Muito jovem, engajou-se na luta contra a ditadura militar. Acabou presa em Maceió por quatro meses, junto com os filhos André e Priscila. André tinha três anos, a irmã pouco mais de dois. É isso mesmo. Os militares deviam achar que as crianças eram grande ameaça à segurança nacional. Entre os vários cárceres por onde passaram, um foi o Hospital da Polícia Militar. Lá, ficaram trancados num quarto reservado para os portadores de doenças infectocontagiosas. André e Priscila adoeceram, com furunculose e diarreia. Priscila estava com a boquinha tão cheia de aftas que só conseguia se alimentar por contagotas. Em nenhum momento receberam cuidados médicos.

Filhos de presos políticos, não importa a idade, foram tratados com absoluta impiedade. Muitos assistiram os pais serem torturados. Submetidos a severa clandestinidade, os militantes não revelavam seus verdadeiros nomes. André, por exemplo, não sabia que o nome de seu pai era Aldo. Maria viveu na carne a experiência de muitos companheiros de luta. Seus filhos perderam parte da infância e atris3011imagina.jpgacumularam fantasmas difíceis de exorcizar. A ausência fez faltar o afago calmo das noites silenciosas. Fez desaparecer o sorriso que solucionava problemas impossíveis. Fez sufocar o grito de gol nas peladas vadias. Sequestrou os cheiros e os sussurros que constroem o afeto comum. Esvaziou de imagens os álbuns da memória. Nada disso é contabilizado pela História oficial.

LUTO SEM CORPOS?

O Menino descobriu como é difícil falar sobre estes sentimentos. Conheceu gente que fugiu da Europa para não ser trucidada pelos nazistas. Os parentes que não saíram foram assassinados. Como falar do inclassificável ? Como elaborar o luto na falta dos corpos ? Como suportar a dor ? O resultado é que poucos se abriam. Tudo fica mais difícil e delicado quando as vítimas são crianças. Já crescida, Priscila desabafou com Maria: “Mãe, acho que finalmente estou saindo debaixo da mesa”. Maria olhou a filha com cara de paisagem. Daí, Priscila removeu o entulho e explicou. Na casa da família, em Belo Horizonte, havia uma mesa redonda de oito lugares, coberta por uma longa toalha, que ia até o chão. Estava escondida debaixo da mesa quando agentes da repressão invadiram a casa, em busca de Maria. Pressionaram a avó, detalhando as torturas sofridas por Aldo, ameaçando fazer o mesmo com Maria. Desesperada, ela fugiu e se enroscou nas pernas dos adultos. Na vida real, levou mais de 20 anos para sair do refúgio. Muitos e tortuosos são os caminhos da liberdade. (artigo enviado por Mário Assis)

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