Duas vacas, cem galinhas e Al-Qaeda: bem-vindos à “granja Bin Laden”

Carlos Newton

Quando a Al-Qaeda enfim resolve se manifestar e denuncia que a foto de Bin Laden assistindo à televisão é falsa, (como muita coisa sobre esse eletrizante caso também é falsa), um dos melhores artigos publicados na imprensa internacional a respeito da morte do terrorista levou o singelo título de “Duas vacas, cem galinhas e Al-Qaeda: bem-vindos à “granja Bin Laden”.

Escrito por Emmanuel Duparcq e distribuído pela agência de notícias France Press, o texto exibe a verdade sobre Osama Bin Laden e seu dia a dia, mostrando que o perigoso terrorista (trucidado pelos militares norte-americanos com tamanha violência que nem as fotos podem ser exibidas) não passava de um guerrilheiro aposentado, que já não representava perigo algum.

Duparcq se baseia nas imagens de um video feito por um soldado paquistanês e nos chama atenção para a realidade da vida de um ancião doente e decrépito, um tigre desdentado que já não tinha forças para nada. Na realidade, a única força de que Bin Laden ainda dispunha era a imagem do passado, que agora está sendo usada para reeleger o presidente Barack Obama.

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Cercado por três mulheres, uma dezena de crianças, uma centena de galinhas, duas vacas e coelhos, o chefe da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, desfrutava de uma vida tranquila, ritmada pelas colheitas de sua pequena granja paquistanesa em Abbottabad.

Em um vídeo gravado com a câmera de um celular por um soldado paquistanês, é possível ver uma dúzia de ovos em cima da pia da cozinha, possivelmente recém-chegados do galinheiro mantido pela família Bin Laden em sua casa, situada no sopé do Himalaia paquistanês.

Na casa branca de três andares, cerca de 20 pessoas viviam em torno do homem mais procurado do mundo.

Cinco delas morreram durante o ataque das forças americanas do último domingo: Bin Laden, um de seus filhos, seus dois guarda-costas – apelidados de “kwuaitianos” – e uma mulher, segundo fontes da segurança paquistanesa.

Os sobreviventes, as três mulheres de Bin Laden e seus filhos, foram detidos pelo exército paquistanês. Durante o interrogatório, Amal Ahmed Adbulfata, uma iemenita de 29 anos, esposa mais jovem do terrorista, afirmou que seu marido vivia naquela casa há cinco anos.

Segundo Washington, os documentos apreendidos na residência de Bin Laden durante a operação que o matou mostram que ele era “o líder ativo da Al-Qaeda”.

O vídeo do soldado paquistanês, gravado na última terça-feira antes que o exército paquistanês esvaziasse por completo a casa, dão uma ideia do dia-a-dia da família e seus agregados, cuja organização ficava a cargo de “Tariq” e “Arshad”, dois irmãos paquistaneses nascidos no Kwuait (daí o apelido), onde seu pai conheceu e tornou-se amigo de Bin Laden.

Ao contrário do que dizem os americanos, a casa de três andares não era luxuosa; mais que uma mansão, o lugar parece uma pequena clínica, um tanto sinistra.

Seu interior é espartano: azulejos cinza, paredes e escadas de concreto nu, móveis rústicos de madeira, colchões de espuma e televisões velhas. O quarto do chefe da Al-Qaeda, cuja família ocupava os dois andares superiores, não é uma exceção.

No jardim, à sombra de altos muros de concreto e grandes choupos, os Bin Laden tinham “duas vacas, dois cachorros e mais de cem galinhas”, enumera Qasim Mohamad, que mora na casa vizinha.

O jovem Zarar, de 14 anos, que também vive ali perto, afirma ter entrado na casa uma vez.

“Vi duas mulheres que falavam em árabe e me deram de presente dois coelhos”, conta.

Apenas um homem era autorizado a entrar de vez em quando nos jardins: Shamrez Mohamad, pai de Qasim, um agricultor que dava de comer aos animais e ajudava a plantar batatas, couve-flor e feijões.

Preso pelo exército paquistanês depois do ataque americano, Mohamad – considerado uma testemunha crucial – foi libertado na sexta-feira. Segundo seu filho, ele deixou Abbottabad.

As vacas, por outro lado, foram levadas pelo exército, e provavelmente acabarão servindo aos soldados de algum quartel.

Na manhã de segunda-feira, Mohammad Kareem, um agente imobiliário, contou ter visto “soldados correndo atrás de galinhas” ao redor da casa.

“Certamente vão comê-las com suas famílias”, comentou.

O que aconteceu com os coelhos, entretanto, ainda é um mistério.

                                                                                                Emmanuel Duparcq | AFP

 

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