Dunga, Globo e Brahma: o meio não é a mensagem

A forte hostilidade do treinador Dunga para com repórteres da Rede Globo, segundo revelaram o Caderno de Esportes da Folha de São Paulo de segunda-feira e a comunicação do leitor Jim Inácio Muller ao editor deste site, Carlos Newton, que a colocou na tela no mesmo dia, teve, no fundo, origem em dois fatos que se passaram na concentração brasileira de Johannesburg.

A repórter e apresentadora do Jornal Nacional, Fátima Bernardes, após autorização do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, procurou o técnico para uma entrevista exclusiva para a Rede Globo. Alguns jogadores participariam também. Além de a matéria possuir importância jornalística, funcionaria também como um suporte a mais, indireto, à publicidade contratada pela Brahma com a emissora que lidera a comunicação no país.

Dunga, entretanto, recusou-se a dar entrevista exclusiva e no seu estilo rude disse que todas as televisões recebem dele tratamento igual, não vendo razão para o privilégio. Sem entrar no mérito da questão, mas focalizando os fatos, segundo Ignácio Muller, Fátima Bernardes persistiu e se comunicou com Ricardo Teixeira. Este determinou a Dunga que atendesse à Globo. Mas o treinador ficou firme em sua negativa. Pelo telefone, colocou seu cargo à disposição se a pressão continuasse e acrescentou, ainda segundo Muller: o senhor (Ricardo Teixeira) então escale a Fátima Bernardes em meu lugar. Esta a primeira parte da história, que não explica, muito menos justifica, a reação de Dunga com Alex Escobar e Marcos Uchoa durante a entrevista coletiva após a vitória sobre a Costa do Marfim.

O técnico descontrolou-se e, deseducadamente, partiu para uma série de agressões verbais contra os que nada lhe fizeram, tampouco foram responsáveis pela pressão contra ele. Vem fazendo deste comportamento uma constante, assinalando não compreender o papel dos jornalistas. A imprensa, seja ela escrita, falada ou televisada, é um canal de comunicação – o único, aliás – entre a fonte das informações e a sociedade em geral. Agredindo os encarregados deste transporte factual e analítico, Dunga está se distanciando da opinião pública. Pois sem a mídia, não pode haver afirmação humana nem visão analítica dos acontecimentos. Não existirá, sem trocadilho, comunicação globalizada. Isso de um lado.

De outro, segundo a coluna Painel, Caderno de Esportes da FSP, o comportamento de Dunga vem desagradando profundamente os patrocinadores da TV Globo e da CBF, especialmente a Brahma. Por que isso? Simplesmente porque nenhuma empresa deseja unir sua imagem e sua mensagem a quem não se identifica com o mercado a ser atingido. Como está se verificando uma condenação às atitudes do técnico, em conseqüência os consumidores tendem a bloquear a mensagem que ele sintetiza: a garra pela vitória da Seleção de Ouro.

A questão, entretanto, não termina aí neste ponto. Ela vem também negar que seja totalmente positivo o conceito de Macluhan, autor do belo título “A Galáxia de Gutenberg”, para quem o meio é a mensagem, outro título aliás, o mais conhecido de sua obra.

Nem sempre o meio é a mensagem, sustento eu. Se fosse, a Brahma, veiculada pela Globo, independeria do comportamento de quem encarna a mensagem que se propõe a transmitir para ampliar sua presença no consumo. O meio é a mensagem, sim. Mas até certo ponto. O meio, no caso a Rede Globo, não pode dispensar o caráter do conteúdo. Este, no fundo, é que predomina, pois o substantivo pesa mais que o adjetivo.

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