Dunga passou seu descontrole para a seleção

Pedro do Coutto

Esfriada a cabeça depois da derrota para a Holanda, analisando-se de forma serena o desempenho de nossa Seleção, inevitavelmente vamos concluir por uma evidência que a paixão não deixa perceber quando somos parte da questão e partimos, cento e noventa milhões de brasileiros, em busca da vitória e da conquista inédita do hexa que eternizaria nosso país na história do futebol mundial.

A evidência, que, passada a tormenta, emerge das sombras do pensamento, é a de que o treinador Dunga, descontrolando-se, passou seu descontrole emocional aos jogadores de nossa equipe. É um homem hostil, agressivo, permanentemente nervoso e irritado. Tem-se a impressão que equivocadamente coloca-se como centro do universo e tudo o desagrada. Nem a classificação em primeiro lugar nas eliminatórias da América do Sul, as belas conquistas da Copa das Américas e da Taça das Confederações conseguiram acalmá-lo e relaxá-lo.

Como jogador, inclusive, Já era assim. Quem não se lembra do quase grave incidente que, como capitão em 94, ia provocando com o atacante Bebeto? Já era uma prova de sua hostilidade e temperamento agressivo. São respostas em tom desagradável nas entrevistas, seu olhar sempre desconfiado como se todos tramassem alguma armadilha para ele. Não consegue conviver sem tensão negativa.

Inevitavelmente passaria isso aos atletas. Foi o que aconteceu. Fechou demasiadamente a concentração, como se o poder arbitrário fosse capaz de resolver os problemas que cruzam as estradas da vida. Assim agindo, em vez de transmitir entusiasmo construtivo, passou inibição e temor da derrota que acabou por vir. Os jogadores, sob seu comando, claro, não se sentiram à vontade. Sabendo das relações críticas que mantinham com os meios de comunicação, passaram a encarar a missão de vencer não como algo eufórico, mas uma provação. Achavam que, na hipótese de perder, as conseqüências desabariam sobre Dunga – como desabaram – , mas admitiram que fossem tragados pelo redemoinho da frustração. A disputa, dessa forma, passou a pesar em dobro. Uma atmosfera péssima. Isso fora de campo.

Em campo, começou por fazer convocações equivocadas. Escalações ainda piores. Michel Bastos na lateral esquerda foi quase inacreditável. Improvisado na posição, é jogador de meio campo. Num artigo magnífico sobre a nossa derrota na Folha de São Paulo, edição de 3 de julho, Tostão traçou nitidamente o perfil da impropriedade. Além da improvisação, não havia cobertura para ele. Havia cobertura para Maicon, não para Michel Bastos. A equipe atuava de modo torto. Uma formação oblíqua entre a asa direita e a asa esquerda. Felipe Melo foi outro erro, este gravíssimo. Expulso duas vezes na Copa de 2010, revelou mão ter serenidade. Não consegue enfrentar a pressão do futebol.

Inspirou-se no próprio Dunga. No primeiro tempo, quando vencíamos e parecia que o segundo gol está iminente, o treinador exasperava-se, insultava o juiz, dava ponta-pés no espaço e na divisória que separa a entrada do túnel do gramado. Descontrolado e desarvorado passou sua instabilidade à equipe. Por causa dessa atmosfera a seleção, ao tomar um gol contra de Felipe Melo, não conseguiu se reestruturar e reagir. Levou o segundo e aí a fisionomia de alguns craques, como Kaká, por exemplo, adquiriu a expressão do próprio Dunga. Pessoas negativas terminam sempre lançando sua negatividade sobre os que estão por perto. O sonho fica para 2014.

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