É a vontade dos mercados

Paul Krugman
Folha
Na Idade Média, os apelos por uma cruzada para conquistar a Terra Santa eram atendidos por exclamações de “Deus vult!” –”é a vontade de Deus!”. Mas será que os cruzados realmente sabiam o que Deus desejava? Dados os resultados da empreitada, aparentemente não.

Bem, isso aconteceu muito tempo atrás e, nas áreas sobre as quais escrevo, as invocações à vontade de Deus são raras. Mas vemos muitas cruzadas de política econômica, e elas muitas vezes são justificadas por exclamações implícitas de “Mercatus vult!” –é a vontade dos mercados. Mas será que aqueles que invocam a vontade do mercado realmente sabem o que o mercado deseja? Uma vez mais, aparentemente não.

E o tumulto financeiro dos últimos dias alargou a distância entre aquilo que nos dizem precisa ser feito para apaziguar o mercado e aquilo que os mercados estão de fato pedindo.

Para ser mais específico: dizem-nos repetidamente que os governos precisam abandonar seus esforços para mitigar o sofrimento econômico, para que seu excesso de compaixão não seja punido pelos deuses das finanças, mas os mercados mesmos jamais pareceram concordar quanto a esses sacrifícios humanos serem necessários.

PAVOR DOS DÉFICITIS

Os investidores supostamente estavam mortos de pavor dos deficitis orçamentários, temendo que estivéssemos a ponto de nos tornar uma nova Grécia – Grécia, sim senhor! – mas ano após anos as taxas de juros se mantiveram baixas. Os esforços do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) para estimular a economia supostamente sairiam pela culatra, porque os mercados reagiriam diante da perspectiva de inflação descontrolada, mas os indicadores de mercado quanto a expectativas inflacionárias se mantiveram baixos, do mesmo modo.

E como os cruzados da política econômica responderam ao fracasso de suas sinistras previsões? No geral com negações, e ocasionalmente com exasperação. Alan Greenspan, por exemplo, em dado momento classificou como “lastimável, por estar gerando um senso de complacência”, o fato de que as taxas de juros e a inflação não tivessem disparado. Mas isso foi há mais de quatro anos; talvez o senso de complacência não fosse tão injustificado assim.

No geral, é difícil escapar à conclusão de que pessoas como Greenspan sabiam tanto sobre aquilo que os mercados desejavam quanto os cruzados medievais sabiam sobre a vontade de Deus –ou seja, nada. De fato, se você observar atentamente, a mensagem real do mercado parece ser a de que deveríamos estar operando com deficit mais altos e imprimindo mais dinheiro. E essa mensagem ganhou muita força nos últimos dias.

Não estou falando principalmente da queda nos preços das ações, embora isso certamente sirva para nos dizer alguma coisa (ainda que, como Paul Samuelson famosamente observou, as ações não sejam um indicador confiável das perspectivas econômicas: “Os índices de Wall Street previram nove das últimas cinco recessões”). Em lugar disso, estou falando sobre as taxas de juros, que estão lançando sinais de alerta –e não de crise fiscal e inflação, mas de depressão e deflação.

TAXAS DE JUROS

O que fica mais evidente é que as taxas de juros sobre os títulos de longo prazo do governo dos Estados Unidos –as taxas que os suspeitos usuais continuam a nos dizer que vão disparar qualquer dia desses a não ser que os gastos do governo sejam cortados – caíram acentuadamente. Isso nos informa que os mercados não estão preocupados com um calote, mas estão preocupados com a fraqueza persistente da economia, o que impedirá o Fed de elevar as taxas de juros de curto prazo que estão sob seu controle.

As taxas de juros sobre muitos dos títulos de dívida nacionais europeus são ainda mais baixas, porque as perspectivas econômicas europeias são muito desfavoráveis –e não estamos falando só da Alemanha. A França no momento está em conflito com a Comissão Europeia, que diz que o deficit orçamentário projetado pelos franceses é alto demais, mas os investidores- que continuam a comprar os títulos franceses de 10 anos apesar de o seu rendimento ser de apenas 1,26% –evidentemente estão muito mais preocupados com a estagnação da Europa do que com um calote francês.

Também é instrutivo observar as taxas de juros sobre os títulos indexados ou que portam correção monetária, porque elas nos revelam duas coisas: primeira, que os mercados estão praticamente implorando aos governos que tomem dinheiro emprestado e o gastem, por exemplo com infraestrutura.

POUCO ACIMA DO ZERO

As taxas de juros dos títulos com correção monetária estão pouquíssimo acima do zero, e por isso financiar a construção de pontes, rodovias e esgotos sairia praticamente de graça. Segundo, a diferença entre as taxas de juros dos títulos comuns e as dos títulos com correção monetária revelam a expectativa de inflação do mercado, e essa expectativa caiu muito nos últimos meses, e está bem abaixo da meta inflacionária do Fed.

Na prática, o mercado está dizendo que o Fed não está imprimindo dinheiro suficiente.

Uma questão que você pode perguntar é por que a mensagem pró-gastos e pedindo mais impressão de dinheiro ganhou tanto volume subitamente. Meu palpite é que isso se deve principalmente aos acontecimentos na Europa, onde a queda à deflação e a crescente reação contra a austeridade chegaram a um ponto crítico. E é muito razoável que nos preocupemos com a possibilidade de que os problemas da Europa venham a contaminar o resto do mundo.

De qualquer forma, da próxima vez que você ouvir algum comentarista de televisão opinando sobre o que precisamos fazer para satisfazer os mercados, é melhor se perguntar “e como ele sabe disso?” Pois a verdade é que quando as pessoas falam sobre o que os mercados exigem, o que estão realmente fazendo é nos intimidar para que ajamos da maneira que elas desejam.

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