E Cora Coralina subiu nas pedras que surgiram em seu caminho…

Resultado de imagem para cora coralina frasesPaulo Peres
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Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1880-1985), nasceu em Goiás Velho. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, conforme o poema “Das Pedras”.

DAS PEDRAS
Cora Coralina

E no alto subi.

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

 

7 thoughts on “E Cora Coralina subiu nas pedras que surgiram em seu caminho…

  1. LUA-LUAR

    Escuto leve batida.
    Levanto descalça, abro a janela
    devagarinho.
    Alguém bateu?
    É a lua-luar que quer entrar.

    Entra lua poesia
    antes dos astronautas:
    Gagarin da terra azul,
    Apolo XI que primeiro passeou solo lunar.

    Lua que comanda os mares,
    a fúria dos vagalhões
    que vem morrer na praia.
    O banzeiro das pororocas.

    Lua dos namorados,
    das intrigas de amor,
    dos encontros clandestinos.
    Lua-luar que entra e sai.

    Lua nova, incompleta no seu meio arco.
    Lua crescente, velha enorme, fecunda.
    Lua de todos os povos
    de todos os quadrantes.

    Lua que enfurece o mar e em chumbo,
    acovarda barcos pesqueiros.
    O barqueiro se recolhe.

    O pescado volta às redes.
    O jangadeiro trava amarras.
    Gaivotas fogem dos rochedos.

    Lua cúmplice.
    Lésbica lua nascente,
    andrógina — lua-luar.
    Lua dos becos tristes
    das esquinas buliçosas.
    Luar dos velhos.
    Das velhas plantas sentenciadas.
    Do sopro morto
    dos bordões, rimas, violinos.

    Lua que manda
    na semeadura dos campos,
    na germinação das sementes,
    na abundância das colheitas.

    Lua boa.
    Lua ruim.
    Lua de chuva.
    Lua de sol.

    Lua das gestações do amor.
    Do acaso, do passatempo
    Irresistível,
    responsável, irresponsável.

    Lua grande. Lua genésica
    que marca a fertilidade da fêmea
    e traz o macho para a semeadura.
    O fruto aceito —
    mal aceito: repudiado, abandonado,
    A semente morta
    lançada no esgoto.
    A semente viva palpitante
    deixada em porta alheia.

    © CORA CORALINA
    In Meu livro de cordel, 1976

    http://mundovelhomundonovo.blogspot.com.br/2016/05/lua-luar.html

  2. Paulo Peres, com todo meu respeito, peço-lhe que cite a fonte dos versos acima, atribuidos à Cora Coralina. Sempre acompanhei no Orkut e agora no FACE, as páginas de falsas autorias. E esta assim vem informando: “DETALHE: Para quem anda seu utilizando do nome referida escritora, o texto é APÓCRIFO, nada consta nos livros e entrevistas de Cora Coralina, vide atribuídas https://pt.wikiquote.org/wiki/Cora_Coralina
    Amo Cora Coralina que começou a publicar suas poesias aos 76 anos. Não há idade para se fazer o que gosta.
    No site http://ju-avessodosponteiros.blogspot.com.br/2011/01/quebrando-pedras-e-plantando-flores.html está lá, como sendo de autoria dela.
    Paulo, por favor, me diga a fonte para que eu possa transmitir aos responsável “Afinal quem é o autor?!” Sempre que tenho o livro de um texto, procuro conferir

    A poesia postada é belissima , “Minha vida quebrando pedras”, como foi dificil, mas não impossivel viver plantando flores.Abs

    • Pedro Nava também tornou-se memorialista em idade avançada. Setenta talvez? Não tenho certeza. Mas acho que sim.

      O interessante é que não me lembrava de escritor ou poeta que não não falasse de amor. E ora veja, eis que Fernando Sabino, o grande escritor, me fez lembrar exatamente disto: ele não era de falar de amor ou em amor.

      Acho que ele amava, como amou a bela Lígia Marina. Mas não encontro falação sobre o tema.

      Confesso que quando li o título da crônica “A falta que ela me faz’, pensei logo em tratar-se de uma paixão. Não era. De paixão, Sabino, que me lembre, só contou a da Zélia.

      Preferiu falar sobre as férias da empregada, que permitiam a ele ‘falar sozinho sem passar por maluco’, sair do banheiro só de chinelos e outras coisinhas mais.

      Até que a ausência da empregada começou a fazer tanta falta que o escritor se viu a caminho do hotel.

      Sabino faz uma falta… Como faz falta…
      Só o vi pessoalmente uma vez. Estava acompanhado de Lígia Marina, na Bienal do Rio. Os dois faziam o tipo do casal tudo a ver. E com certeza eram, foram.

      De amor qualquer um escreve. Viver o AMOR não é pra todo mundo.

  3. Sobre “Vintem de cobre” Carlos Drummond escreveu:
    “Minha querida amiga Cora Coralina: Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( …).”

    VINTÉM DE COBRE
    (Freudiana)

    Eu vestia um antigo mandrião
    de uma saia velha de minha bisavó.
    Eu vestia um timão feio
    de pedaços, de restos de baeta.

    Vintém de cobre:
    ainda o vejo
    ainda o sinto
    ainda o tenho
    na mão fechada.

    Vintém de cobre:
    dinheiro antigo.
    Moeda escura,
    recolhida, desusada.
    Feia, triste, pesada.

    Corenta. Vintém. Derréis.
    Dinheiro curto, escasso.
    Parco. Parcimonioso
    de gente pobre,
    da minha terra,
    da minha casa,
    da minha infância.

    Vintém de cobre:
    Economia. Poupança.
    A casa pobre.

    Mandrião de saias velhas.
    Timão de restos de baeta.
    Colchas de retalhos desbotados.
    Panos grosseiros, encardidos, remendados.
    Vida sedentária.
    Velhos preconceitos.
    Orgulho e grandeza do passado.

    Pé-de-meia sempre vazio.
    E o sonho de ajuntar.
    Melhorar de vida, prosperar,
    num esforço inútil e tardio.

    Corenta, vintém, derréis…
    Eu ajuntando.
    Mudando de caixinha, mudando de lugar,
    Diziam, caçoando, as meninas da escola:
    “- Muda de lugar que ele aumenta…”
    Eu acreditava.
    Guardava cinquinho a cinquinho
    na esperança irrealizada
    de inteirar quinhentos réis.

    Fui criança do tempo do cinquinho,
    do tempo do vintém.
    Do antigo mandrião
    de saias velhas da vovó.
    De cobertas de retalho,
    de panos grosseiros encardidos,
    remendados.
    De velhos preconceitos
    – orgulho e grandeza do passado.
    Opulência. Posição social.
    Sesmarias. Escravatura.
    Caixas de lavrado.
    Parentes emproados.
    Brigadeiros. Comendadores,
    visitando a Corte,
    recebidos no Paço.
    Decadência…
    Tempos anacrônicos, superados.

    Fui menina do tempo do vintém.
    Do timão de restos de baeta.
    Fiquei sempre no tempo do cinquinho.

    No tempo dos adágios que os velhos
    sentenciavam
    enfáticos e solenes:
    “- Quem nasce pra derréis não chega a vintém.”
    Pessimismo recalcando
    aquele que pensava evoluir.

    “Vintém poupado, vintém ganhado.”
    Estatuto econômico. Mote gravado
    no corpo de algumas emissões.
    “Na pataca da miséria o diabo tem sempre um vintém.”
    Isto se dizia, quando moça pobre se perdia.
    “Quem compra o extraordinário
    vê-se obrigado a vender o necessário.”
    Doía… impressionava.
    Era a Sabedoria que falava.

    E a gente sentia até uma lagrimazinha de remorso
    no canto do olho.
    E se via mesmo de trouxinha na cabeça,
    andando de déu em déu,
    perseguida dos credores.
    A casinha penhorada.
    Os trenzinhos dados à praça.
    Tudo irrecuperado, perdido,
    porque tinha comprado o extraordinário:
    um vestido de chita cor-de-rosa
    pintadinho de azul.

    O tempo foi passando, foi levando:
    minha bisavó, meu avô, minha mãe, minhas irmãs.
    A velha casa.
    Os velhos preconceitos
    de cor, de classe, de família.
    O tempo, velho tempo que passou,
    nivelou muros e monturos.
    Remarcou dentro de mim
    a menina magricela, amarela,
    inassimilada,
    do tempo do cinquinho.

    Eu tinha um timão de restos de baeta.
    Eu tinha um mandrião de uma saia velha
    de minha bisavó.

    Vintém de cobre:
    Ainda o vejo
    ainda o sinto
    ainda o tenho
    na mão fechada.
    Moeda triste,
    escura, pesada,
    da minha infância,
    da casa pobre.

    ©CORA CORALINA
    In Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais, 1965

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