É impossível o futebol perder a Globo e a Globo perder o futebol

Pedro do Coutto

O Caderno de Esportes de O Globo, edição de quinta-feira, 24, publicou excelente reportagem de Carol Roploch focalizando a aparente divisão ocorrida no Clube dos Treze diante das propostas de transmissão dos campeonatos brasileiros de 2012, 2013 e 2014. São duas: a da Globo que detém os direitos atuais, e a Record que luta para obtê-los, especialmente os que se referem à televisão aberta. Para este ano, os direitos de transmissão custam à Rede Globo 600 milhões de reais.

Há clubes que desejam o dobro, outros que acham que a solução se encontra na sua cessão à Rede do Bispo Edir Macedo. Presumo que por uma falha grave do departamento comercial da Globo, a emissora perdeu para a Record o direito de transmitir direto as Olimpíadas de Londres. Está tentando recuperá-los, mas já garantiu o sucesso do Sport TV e da ESPN. Mas esta é outra questão.

A televisão a cabo encontra uma dificuldade identificada em recente pesquisa do IBOPE. Ela só se encontra instalada em 10 milhões de residências correspondendo a 15% do total do país. Não pode, portanto, produzir o mesmo alcance publicitário. Assegurar a transmissão por cabo, evidente, é melhor que não obter nada. Porém o grande mercado logicamente situa-se na transmissão aberta. Não através dos canais por assinatura. Tenho a impressão que tanto os clubes quanto a Globo chegarão a um acordo, pois um lado não pode prescindir do outro. Passar a bola para a Record será um erro, tanto da Globo quanto dos clubes. Daqui a pouco explico por quê.

Mas falei há pouco em erro de avaliação comercial da Globo no caso das Olimpíadas de Londres. Não foi o primeiro de sua história. No carnaval de 84, o superintendente  geral era o Bonifácio Sobrinho. Não se interessou pela transmissão do desfile das escolas de samba, na inauguração do Sambódromo de Niemeyer. Achou que a Globo era mais importante do que a notícia, iludindo-se com o equívoco cometido por Mc Luhan de que o meio é a mensagem. Nem sempre, digo eu. Há 27 anos isso ficou provado. A Globo exibindo filmes ficou 7% de sua audiência. A Rede Manchete atingiu 47, me disse na ocasião meu saudoso amigo Paulo Montenegro.

A mensagem é mais importante do que o meio. O adjetivo não pode substituir o substantivo. Acompanhando este artigo, alguns leitores poderão indagar por que não me referi à Rede TV, que aparece na disputa, segundo Carol Knoploch. Não tem cacife para enfrentar a Globo, nem a Record. Nem audiência. Seu maior pique no IBOPE é o Pânico, só aos domingos, que registra entre 8 e 9 pontos. A Record tem média – todos os dias – de 12%. A globo, em torno de 30, atingindo 48, como alcançou no final da novela Passione.

Este aspecto é essencial. Pois uma coisa é divulgar chamadas com base numa média de 30 outra repousando sobre o índice 12. Quanto à Rede TV, há sócios desejando vender sua participação na empresa. Não é preciso dizer mais nada. Mas os argumentos não terminam aí. Não estou a serviço da Globo, nada tenho com isso.

Meu compromisso é com a lógica. Colocando frente à frente Globo e Record, a primeira possui uma estrutura muito mais sólida que lhe garante maior audiência, inclusive nos segmentos de renda mais alta, fundamental para o volume da publicidade. O futebol na Record não será a mesma coisa que na Globo. Quantas afiliadas a Globo tem? Várias vezes mais do que a Record. Logo, a audiência da Record, neste esquema, jamais poderá superar a da Vênus Platinada. Basta somar os pontos por região. Se a qualidade da imagem fosse igual. Não é.

A audiência é essencial. Não só em função da publicidade direta. Mas também na indireta. Por que empresas de diversas áreas pagam para colocar seus nomes e marcas nas camisas dos times? É porque as marcas e os nomes são transmitidos pela TV. Quanto maior a audiência, claro, maior a publicidade. No caso, de graça. Como digo sempre: se vale Freud vale Marx.
O futebol não vai sair da Globo. Não interessa a ninguém.

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