E o poeta passeia sobre ti, suavemente, num fim de tarde de domingo

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Mauro Mota, sempre inspirado

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O advogado, jornalista, professor, memorialista, cronista, ensaísta e poeta pernambucano Mauro Ramos da Mota e Albuquerque(1911-1984), no poema “Rua Morta”, sente um cheiro não dos jardins abandonados, mas dos cabelos das moças de outras épocas.

RUA MORTA
Mauro Mota

Longa rua distante de subúrbio,
velha e comprida rua não violada pelos prefeitos,
passo sobre ti suavemente neste fim de tarde de domingo.

Sinto-te o coração pulsando oculto sob as areias.
O sangue circula na copa imensa dos flamboyants.

Tropeço nos passos perdidos há muito nestas areias,
onde as pedras não vieram ainda sepultá-los.
Passos de homens que jamais voltarão.

Ó velhos chalés de 1830,
eterniza-se entre as paredes o eco das vozes de invisíveis habitantes.
Mãos de sombras femininas abrem de leve janelas no oitão.

Há um cheiro de jasmins e resedás
que não vem dos jardins abandonados,
mas dos cabelos dos fantasmas das moças de outrora.

2 thoughts on “E o poeta passeia sobre ti, suavemente, num fim de tarde de domingo

  1. Qual pernambucano que não se emociona com estas lembranças de uma rua em que morou! Na poesia de Mauro Mota, é uma rua suburbana, velha, “não violada” pelos prefeitos, apesar de suas promessas durante as campanhas eleitorais. Ele passa suavemente por ela, sente o sangue circulando, comparando com os flamboyants com suas imensas copas vermelhas, Sente também o cheiro dos cabelos das moças de outras épocas! A gente sempre tem recordação de uma rua de nossa infância, de uma praia, como da de Olinda, onde a molecada jogava futebol de areia.
    Paulo Peres, amei você ter postado poesia desse pernambucano que honra a poesia brasileira.

  2. O pernambucano Mauro Mota nasceu em Recife, em 1912 e morreu em 1984. Formou-se em Direito, mas viveu como professor e pelas redações dos jornais, tornando-se nacionalmente conhecido, quando na década de cinquenta publicou seus primeiros livros de poesias. Seus poemas registram desde cenas do cotidiano de pequenas cidades até as desigualdades sociais.

    “DECLARAÇÃO DOS BENS DE FAMÍLIA

    Cadeiras e sofás, consolo e jarra,
    camas e bules, redes e bacias,
    a caixa de charão, o guarda-louça,
    tetéias, mesa, aparador, fruteira,

    a cesta de costura, o papagaio,
    a cafeteira, o cromo de parede,
    o jogo de gamão, as urupemas,
    o álbum, o espelho, o candeeiro belga,

    alguidares, baús de roupa, esteiras
    de pipiri, a tábua do engomado,
    pilão de milho, o tempo do relógio,

    quartinhas, almanaques, tamboretes,
    o santo de família, a lamparina,
    o carneiro Belém e o seu balido.”

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