É preciso criticar Israel, mas considerá-lo o maior vilão internacional é exagero demais

É preciso analisar as guerras sem tomar partido

João Pereira Coutinho
Folha

Israel e o Hamas chegam a um cessar-fogo e eu suspiro de alívio. Mais uns dias de guerra e eu teria que escrever a respeito. Para repetir — ó miserável Coutinho! — que Israel não é obrigado a receber os rockets do Hamas de braços abertos.

Depois, nesse bailado mais ou menos previsível, lá viriam as críticas severas ao meu sionismo militante, com leitores ou colegas lembrando quem roubou a terra a quem, quem é genocida, quem deveria estar no inferno etc.

O cessar-fogo, obviamente temporário, é uma bênção para todas as partes: israelenses, palestinos e este vosso criado.

INTERESSE INUSITADO – Existe um ponto, porém, que não cessa de me espantar: por que motivo o conflito israelense-palestino desperta um interesse avassalador no auditório, absolutamente incomparável com qualquer outro conflito?

E, já agora, por que motivo Israel é visto por uma boa parte da “intelligentsia” progressista como o maior vilão internacional?

Faço essa pergunta com total boa fé. Não sei quantos conflitos territoriais estão atualmente em exibição. Mas era capaz de apostar que o conflito israelense-palestino não é o único. E, no entanto, até parece que é.

ATAQUE AOS CURDOS – Como lembra Brendan O’Neill na “Spectator”, a Turquia passou as últimas três semanas a bombardear os curdos no norte do Iraque. Houve mortos, feridos, deslocados. E silêncio, muito silêncio na mídia e nas redes. Os curdos não são gente?

Parece que não. Nem os curdos, nem os chechenos, nem os uigures. O que permite concluir que as brutalidades da Turquia, da Rússia ou da China são invisíveis quando comparadas com as ações de Israel.

Honestamente, nunca encontrei uma resposta satisfatória para essa discriminação. Exceto a mais óbvia: “antissemitismo secundário”. O conceito foi forjado pela Escola de Frankfurt e expressa a necessidade visceral de culpabilizar a vítima por um crime inominável.

AINDA O HOLOCAUSTO – Esse crime, claro, é o Holocausto — um golpe tão radical na consciência da Alemanha, e da Europa, e do Ocidente, que ainda não cicatrizou por completo.

A obsessão com o conflito israelo-palestino, uma obsessão desproporcional quando comparada com qualquer outro conflito, é apenas mais uma manifestação desse “antissemitismo secundário”.

Se conseguirmos ver os judeus como carrascos monstruosos (os novos nazistas, certo?), poderemos finalmente suspirar de alívio e mitigar a nossa culpa histórica. “Vejam só como eles são iguais a nós”, eis o sonho úmido do antissemita secundário.

CRITICAR É PRECISO – Sim, leitor, criticar Israel é legítimo e até necessário. A construção de assentamentos na Cisjordânia; a ambição lunática de reservar Jerusalém como capital exclusiva do estado judaico; e o descaso com o “status quo” dos palestinos e do próprio processo de paz são algumas dessas críticas possíveis.

Mas, antes de as proferir, tome cuidado. E pergunte primeiro quem está aos comandos da sua racionalidade.

7 thoughts on “É preciso criticar Israel, mas considerá-lo o maior vilão internacional é exagero demais

  1. A verdade é que na pré e na história humana a guerra é a regra, a paz a exceção. Sem falar na guerra interior que cada ser humano trava dentro de si, entre o Ego insaciável e o Eu divino.

  2. Para frear o sadismo e a furacidade de Israel contra as terras palestinas, sugiro uma saída exterminadora: que as nações muçulmanas, solidárias com a causa palestina, esqueçam Alah por um período e diligenciem, de forma sinérgica, na produção de armas de destruição em massa.
    Quanto ao interrese mundial, que o massacre desperta:
    1- O fato de Israel ter sido o berço das três grandes religiões da terra, pode ser uma explicação;
    2- Por ser um mortícinio que sai das mãos de um tirano, incomparavemente, mais bem armado que as suas cobaias;
    3- Logo pelos judeus, que não foram exterminados, durante a Segunda Guerra Mundial, graças à solidariedade internacional. Talvez muitos desses resgatadores tenham-se arrependido depois;
    4- E, finalmente, porque, naquela região, Israel seja a única nação que se disfarça sob uma máscara de democracia.

    • ((Ultimamente, programas e indústrias químicas, petrolíferas e nucleares do Irã viraram alvos frequentes de atentados, com indícios veementes de sabotagens e com um vínculo de interesse que interpõe Israel na autoria. Além da morte do general Qssem Soleimani e alguns cientistas de ponta.
      Ora, se eu faço de tudo para desarmar o meu potencial inimigo e, em contrapartda, armo-me até os dentes. Qual é a minha intenção?))

      A implacável guerra secreta contra o programa nuclear do Irã

      Arturo Wallace

      BBC News Mundo

      https://www.google.com/amp/s/www.bbc.com/portuguese/internacional-55485951.amp

  3. A media mainstream mudou o foco, até algum tempo atrás Israel não era o vilão que hoje é, mas Israel sempre foi vilã, pois retirar à força pessoas de sus casas para por outras no seu lugar é coisa de vilão.
    A ocupação do território da Cisjordânia por colonos israelenses na base da força, da violência até tempos atrás não tinha a importância de hoje, o que será que mudou, porque para o povo palestino nada mudou.

  4. O que me agrada nas batalhas ente Israel e a Palestina é o equilíbrio. Exemplo de uma batalha: de um lado, Israel com 1.000 soldados. Do outro, a Palestina com 100 Ao fim da batalha, o resultado do conflito: Número de mortos Palestinos: 99; número de mortos israelenses 8. Isso é que é uma guerra justa e equilibrada! TUDO CULPA DA ONU.

  5. Boa tarde , leitores (as):

    Mas é ” JUSTO E CORRETO ” tratar Israel como um Estado Terrorista , pois exporta o terrorismo de estado , para os quatro cantos do mundo , assim USA e os países-membros da OTAN .

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