E se for um brasileiro?

Carlos Chagas

Mais importante do que pesquisar os motivos da renúncia de Bento XVI, aliás, óbvios por conta da fragilidade de sua saúde, será especular sobre quem o sucederá. Um italiano, depois das surpresas vindas da Polônia e da Alemanha? Alguém do Terceiro Mundo, majoritário no Colégio de Cardeais? Um argentino? Um caribenho, peruano ou chileno? Filipino ou africano?

Senão apenas para o Espírito Santo, seria bom deixar a decisão para as naturais formações de grupos, partidos e tendências que sempre existirão na Igreja. Mas se a escolha recair num brasileiro, por imperscrutáveis motivos?

Dois cardeais despontam: D. Odilo Scherer, de São Paulo, e D. Raimundo Damasceno, de Aparecida do Norte. Ambos com passagem marcante na CNBB. O primeiro com estampa indiscutível e perfil conservador, muito a gosto da cúpula atual do Vaticano. O outro sem características físicas de realce, progressista identificado com a necessidade de acelerar mudanças mais urgentes nas estruturas eclesiásticas. Ambos capazes de exprimir ventos renovadores da instituição, mesmo em ritmos distintos.

A ninguém será dado dizer que é cedo para ilações. Há algum tempo, entre os cardeais do mundo inteiro, raciocinava-se a respeito dos desígnios da Divina Providência. Ninguém desejava apressar a decisão, aliás, surpreendente desta vez pelo inusitado da renúncia. Mas não haverá um só dos Príncipes da Igreja que, faz muito, não tenha pensado na sucessão de Bento XVI. E quem pensa costuma formular. Projetar, para não ser ultrapassado. Por conta disso, a partir de ontem, entraram em nova fase diversos projetos essencialmente humanos.

COMISSÃO DA VERDADE NÃO FUNCIONA

Cláudio Fontelles e Paulo Sérgio Pinheiro carregam o piano e executam a partitura a um só tempo, mas não dá para ignorar que a Comissão da Verdade, como um todo, vai resultando em nada. Quando se reúnem, ou se reuniram, desde sua criação? Que testemunhas ouviram, a que conclusões preliminares chegaram?

Dos trabalhos do grupo que tantas esperanças despertou ao ser anunciado, sabe-se apenas pela voz do ex-Procurador Geral da República que o deputado Rubem Paiva foi torturado e assassinado, preso pela Aeronáutica e entregue ao Exército, para desaparecer sem que até hoje sua família tenha tido condições de preparar-lhe o funeral, tantas décadas depois. Mas quem o foi buscar em casa, quem infligiu-lhe horrores, quem o matou e quem ocultou seu corpo, ninguém sabe. Ou se a Comissão da Verdade sabe, nenhuma informação divulga.

Os crimes praticados por agentes do estado, durante o regime militar, permanecem restritos à literatura publicada a respeito, elaborada por associações particulares, pela Igreja ou por vítimas isoladas. A contestação surge bissextamente em algumas publicações preparadas à sombra de relatórios e de lembranças compiladas nos arquivos de órgãos oficiais já extintos, denunciando a ação de grupos terroristas e subversivos em atividade naqueles tempos bicudos.

Do que seria, senão a palavra final, ao menos a recuperação ordenada da memória nacional, nada feito. A Comissão da Verdade dá a impressão de não funcionar, exceção de dois de seus abnegados integrantes, incapazes de agir por todos. Estão devendo. Passado tanto tempo, nem sequer sabemos onde e como trabalham.

DÚVIDAS

A lei é feita pelos mais fortes para dominar os mais fracos. E a ética é a resposta dos mais fracos para conter os mais fortes. Esses dois enunciados acompanham o mundo desde que nossos avós desceram das árvores.

Por que referi-los? Porque não esta semana, é claro, mas na outra, ou qualquer dia desses, o Legislativo começa a trabalhar. Poucas leis poderão ser debatidas e votadas. Quanto à ética, caberá ao Judiciário zelar por ela.

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