Editorial de O Globo surpreende, ataca o STF e diz que Fachin alimentou briga com militares

Editorial significou uma mudança de posicionamento do jornal

Pedro do Coutto

Causou surpresa, acredito que para todos os leitores, o editorial da edição desta quarta-feira de O Globo, atacando posicionamentos do Supremo Tribunal Federal e, no caso das urnas eletrônicas, atribuindo ao ministro Edson Fachin, presidente do TSE, ter alimentado desavença que ele próprio criou com militares. O editorial cita também frase do ministro Gilmar Mendes dizendo que o Supremo não é partido de oposição ao governo.

O editorial significou uma mudança de posicionamento do jornal ao dizer, inclusive, que o STF vem promovendo uma politização quando a Corte deveria manter-se equidistante e alheia às paixões. Parece a cada dia (a Corte) mais contaminada pelo noticiário como se devesse prestar contas à opinião pública e não à lei e à Constituição.

PRAZO – O artigo focaliza também a atitude do ministro Luís Roberto Barroso que deu prazo ao governo quanto às buscas do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos na Amazônia. Aí, o editorial passa para o caso das urnas eletrônicas, afirmando que “o ministro Edson Fachin se esforça para desvencilhar-se da desavença insólita que ele próprio alimentou com os militares em torno das urnas eletrônicas”.

Quando presidente do TSE, o ministro Barroso solicitou ao ministro da Defesa a colaboração das Forças Armadas para integrar o sistema de fiscalização da votação e computação dos votos através das urnas que modernizaram as eleições brasileiras a partir de 1996.  Mas o editorial diz que Fachin, ao substituir Barroso, alimentou uma desavença insólita com os militares em torno das urnas eletrônicas.

O editorial, por coincidência, colide com os artigos ontem publicados na mesma edição pela colunista Vera Magalhães e pelo colunista Elio Gaspari. Mais diretamente por Vera Magalhães, cujo título do artigo foi “Temporada de caça ao Judiciário”, que na síntese acentua que “o ataque à Justiça é a antessala da agitação que Bolsonaro prepara para logo após o primeiro turno das eleições.

GOLPE – A discordância entre o editorial e o artigo é ampla, e também se evidencia com a comparação com o artigo de Elio Gaspari,  que se refere às articulações de bastidores do Planalto para um golpe contra a democracia e possível resultado das urnas de outubro.

Gaspari lembra passagens anteriores sobre articulações golpistas e a resposta que obteve por parte do governo Castello Branco, antes portanto do Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, decretado pelo presidente Costa e Silva.

É verdade que no governo Castello Branco foi praticada a cassação de Juscelino Kubitschek, favorito nas eleições que não ocorreram em 1965. Mas este é outro assunto. Fica para o quadro da história da política brasileira.

COLISÃO – A surpresa do editorial é que ele colide com o pensamento da maioria da opinião pública e também com a independência de seus jornalistas efetivos, como também é o caso de Bernardo Mello Franco.

Na edição de ontem, por exemplo, Bernardo Mello Franco, ataca a atuação do governo na Amazonia e sustenta que o presidente da República desfechou uma foiçada na Funai, significando que esvaziou o órgão, sendo preenchido pelo garimpo ilegal e por narcotraficantes. Temos assim, uma situação nova no jornalismo brasileiro e que deve ser motivo de análise.

CONFUSÃO NA BOVESPA –  Reportagem de Eduardo Cucolo, Folha de S. Paulo de ontem, destaca a confusão em São Paulo quando o presidente Jair Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes e Adolfo Sachsida compareceram à Bovespa para participar do lançamento das ações que marcam o início da privatização da Eletrobras. Entre os manifestantes estavam lideranças de movimentos de trabalhadores sem teto, atingidos por barragens e petroleiros.

A demanda por ações foi forte, com a participação de fundos de pensão das estatais, fundos de investimento e aplicadores do varejo.  No meio do tumulto, o ministro da Economia, Paulo Guedes, defensor da privatização e contra a interferência para segurar preços, tantos os da Petrobras como os dos supermercados, elogiou o “legado dos governos militares que fizeram uma extraordinária gestão do ponto de vista da Infraestrutura”, acentuando que esse legado está sendo perdido.

Mas pedido por quem? Pelo governo atual? Por governos anteriores? Se pelos governos anteriores, por que o governo atual não corrige a questão?

ARTICULAÇOES ESTADUAIS – Na edição de ontem deste site, eu fiz referência a uma declaração do presidente Jair Bolsonaro queixando-se de que o senador, Fernando Bezerra, ex-líder do governo no Senado, não citava o seu nome nos atos políticos em Pernambuco.

O filho do senador Fernando Bezerra Coelho é candidato a prefeito de Pernambuco e não deseja unir a sua imagem a de Bolsonaro, muito atrás nas pesquisas do Datafolha no estado. O motivo, portanto, é esse, o que comprova as dificuldades que candidatos a governos nos estados encontram, dependendo da região, de se unirem a Bolsonaro ou a Lula.

TROCA-TROCA –  Reportagem de Jussara Soares, Alice Cravo, Daniel Gullino e Camila Zarur , publicada no O Globo de ontem, revela que o presidente Jair Bolsonaro decidiu reabrir o debate sobre a escolha de seu candidato a vice em sua chapa,  que até hoje era Braga Netto, pela deputada Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, que sob a visão do Planalto acrescenta muito mais à sua candidatura.

Bolsonaro com a indicação de Tereza Cristina espera obter um crescimento substancial do voto feminina no país e combater a sua alta rejeição entre as mulheres. Segundo o jornalista Valdo Cruz, da GloboNews, Bolsonaro poderia reconduzir Braga Netto ao Ministério da Defesa.

15 thoughts on “Editorial de O Globo surpreende, ataca o STF e diz que Fachin alimentou briga com militares

  1. Fachin para mim lembra a grande farsa de invalidar condenações de duas instâncias para tornar o grande corrupto elegível. Foi um lambe-botismo abominável. Mas a gente sabe que em Roma há homens e Homens.

  2. Questionar as urnas eletrônica para criar dúvidas e desacredita-la, é o que Bolsonaro vem fazendo há muito tempo.
    Já que o ministro Barroso convidou os militares para participar das etapas de funcionamento das urnas eletrônicas, todas dúvidas deveriam ser questionadas internamente. e não tornar um
    discussão pública, que acaba lançando dúvida sobre a segurança da urnas eletrônicas.
    Esse questionamento público sobre as urnas eletrônicas é político, a pretexto de defender a transparência.

  3. Será que já começaram a sentir cheiro de queimado? Para mudar assim tão radicalmente de opinião, alguma coisa mudou.
    Dizem que contra a força, não há resistência, ou então a famosa senhora que aconselhou, relaxa e goza.
    Será que Vênus outrora platinada, resolveu seguir o conselho da Marta?
    A síndrome de abstinência causada pela falta de dinheiro público, faz coisa.

  4. Acho que houve um erro de avaliação quando houve um convite às FA para validar o processo de votação das urnas eletrônicas, confiando na equidistância dessa instituição às teses estapafúrdias do governo de plantão.

    É uma questão de bom senso, todos que forem convidados a dar sugestões podem fazê-lo, mas exigir que elas sejam implementadas é algo bem diferente.

    Parece que a Globo, com esse editorial citado por Pedro do Coutto , começa a ir ao encontro daqueles que admitem uma ditadura, tal qual aconteceu em 1964.

    É a Globo voltando às suas origens e alguns dando força a esse artigo adesista às ameaças não tão sutis de golpe..

  5. Errou Barroso colocando militar no TSE. Ele precisa explicar as razões e o levaram a fazer isso. Foi intimidado pelo partido militar na figura dos bananas de pijama do Clube Militar?

  6. https://www.metropoles.com/colunas/rodrigo-rangel/stf-se-prepara-para-7-de-setembro-inflamado-e-fux-ja-cogita-ate-glo

    Presidente do tribunal ordenou que equipes de segurança comecem desde já a se planejar para evitar ataques aos prédios do Judiciário

    Rodrigo Rangel
    15/06/2022 16:32,atualizado 15/06/2022 17:17

    Em conversa recente, o ministro afirmou que, caso haja violência, será preciso baixar um decreto de GLO, sigla para Garantia da Lei e da Ordem, medida excepcional que permite às Forças Armadas atuarem na contenção de distúrbios.

    A depender da situação, diz Fux, a medida pode ser decretada pelo próprio STF.

  7. Acho que o pessoal comenta as tais sugestões das FA, como se elas fossem ordens a ser seguidas.

    Pelo relatório disponibilizado pelo TSE, percebe-se que muitas das sugestões dadas, já haviam sido adotadas pelo tribunal. Uma foi rejeitada por desrespeitar a lei que protege os dados pessoais e outras virão a ser analisadas futuramente, como a exigência de biometria que demanda um tempo e que é bastante difícil de realizar, por condições técnicas.

    Duas ou três são repetidas.

    Eis o resumo do relatório: https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Quadro-resumo_Sugestoes-recebidas-da-Comissao-de-Transparencia-das-Eleicoes-1.pdf

  8. Porque o eleitor não preenche a cédula de votação, leva a um cartório, reconhece a firma e então não vai deposita-la na urna???!!!
    PS: Eu me pergunto se quem elogia esta democracia, com tanta corrupção, malversação de fundos públicos , a PF investiga, descobre, prende, e ninguém tem que devolver nada e ainda são soltos, não está em uma ‘bolha de vidro’ sendo sustentado por esta mesma democracia,

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