Eduardo Paes vai demolir o Elevado antes de fazer o Túnel?

Pedro do Coutto

Na edição de O Globo de 27, meu amigo Ancelmo Gois noticiou que o presidente Lula decidiu – muito mal – conceder um financiamento de 3 bilhões de reais ao prefeito Eduardo Paes, através da Caixa Econômica Federal, para demolir o viaduto da Avenida Rodrigues Alves. Como a população carioca vai pagar o empréstimo? Com aumento de impostos e taxas?

A destruição não faz sentido. Projeto do governo Carlos Lacerda, de 62, demorou dezessete anos para ser inaugurado, em 79, pelo governador Chagas Freitas. A obra foi – e é – de importância enorme para o Rio. Derrubando-a, o prefeito não só coloca em risco as redes de água e energia elétrica da área, mas também corta a principal via de acesso à ponte Rio-Niteroi, envolvendo carros de passeio, ônibus e caminhões de carga. Absurdo completo, um delírio ao ritmo de 25% do orçamento para a cidade este ano.

O desatino  não termina aí. No lugar do elevado, um túnel. Qual o custo desse túnel? Não se sabe. Vai piorar tudo. Além disso, o que será feito primeiro? A passagem subterrânea ou a destruição da linha do alto? O presidente Lula deveria avaliar melhor a questão. Na maquete, toda obra é perfeita. Na realidade, o panorama é outro. A esperança, agora, é que a presidente Dilma Roussef não dê sequência a uma devastação urbana do centro do Rio.

Repórter do Correio da Manhã, jornal que mergulhou no passado, acompanhei os lances iniciais do projeto e da construção. O projeto partiu da Secretaria de Planejamento de Lacerda, elaborado a seis mãos: Hélio Beltrão, Rafael de Almeida Magalhães, Eurico Siqueira. Mas mesmo com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, por influência do presidente John Kennedy, cujo projeto, através do embaixador Lincoln Gordon, era fortalecer o governador que fazia cerrada oposição ao presidente João Goulart, o governo da Guanabara dependia de Brasília, portanto de Jango, para efetivar o investimento, já que havia áreas federais a serem percorridos, uma delas, próximo à Praça Mauá, sobre depósitos de armamentos da Marinha.

A situação de Carlos Lacerda não era confortável, pois em 1952 seu candidato a vice estadual, Lopo Coelho, enfrentava o candidato do PTB, apoiado pelo ex-presidente Juscelino e por Leonel Brizola, Eloi Dutra, que saiu vencedor.

Mas Lacerda levou o projeto ao ministro dos Transportes, Virgílio Távora, da UDN. Esperava receber um não. Mas recebeu um sim. Na ocasião, lembro como se fosse hoje, Virgílio, ao assinar o convênio, destacou o espírito público de Goulart aprovando o projeto de seu maior inimigo político. Carlos Lacerda agradeceu a Virgílio e Jango (poucos conhecem o episódio), acentuando que era um homem que não agradecia com facilidade, mas no momento sentia-se emocionado com a decisão federal.

As obras foram iniciadas e se arrastaram durante os dezessete anos a que me referi. No dia em que Chagas Freitas inaugurou o elevado, eu era diretor da antiga LBA, e, retornando do programa O Povo na TV, de Wilton Franco, no SBT, fui um dos primeiros a encontrar espaço livre para cobrir o trajeto de São Cristóvão à Avenida General Justo. Me lembrei então dos discursos de Virgílio Távora e Carlos Lacerda e verifiquei como demoram a ser realizadas as obras públicas no país.

Ela agora completou 31 anos de serviços fundamentais. Mas o prefeito Eduardo Paes, tomado pela obsessão de revitalizar áreas públicas no Caias do  Porto, prepara-se para desferir o golpe fatal, explodindo o elevado. Talvez junto com ele – se conseguir fazê-lo – estará detonando seu próprio conceito de administrador. Mas aí será tarde demais para o Rio.

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