Efeito coronavíirus: as pessoas precisam morar juntas e aprender a se suportarem

Charge O TEMPO 23/03/2020

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Carlos Newton

Naquela onda de que até nas tragédias sempre se pode extrair algo de positivo, é certo que essa pandemia do coronavirus está obrigando uma mudança de hábitos que pode melhorar as relações entre as pessoas, como sempre acontece nas economias de guerra, quando aumenta o índice de solidariedade humana.

A primeira fase é o pânico da morte, com a espera do abraço da eterna companheira, que nos aguarda desde o momento que nascemos. Porém, daqui a mais alguns dias desembarcaremos na segunda etapa a sinistra crise financeira que o presidente Jair Bolsonaro tanto procura evitar, na esperança de que o astrólogo terraplanista Olavo de Carvalho esteja certo na teoria de que se tratava apenas de mais uma “gripezinha”.

QUEM SABE? –  Nem tudo está perdido. Sabe-se que o coronavírus não  representa ameaça à sobrevivência da Humanidade. Não foi nem será a última pandemia, a não ser que os orientais e africanos abandonem o costume de frequentar mercados imundos, na ânsia de comprar animais vivos para transformá-los em requintes de estranhas gastronomias.

Não por mera coincidência, os quatro vírus mais recentes (Ebola, Sars, H1N1 e Covid 19) surgiram desses infectos mercados, que os turistas ocidentais adoram frequentar, por curiosidade mórbida.

O fato mais concreto é que  os efeitos econômicos serão arrasadores e o governo alemão já prevê uma recessão de 5% este ano.

SOFRIMENTO BRUTAL – Aqui na sucursal Brazil, que não receberá um cent de ajuda da matriz USA, o sofrimento será brutal, com pesada recessão e aumento do desemprego, o que pode significar novo crescimento da criminalidade, que vinha caindo progressivamente.

A pobreza se alastrará com maior velocidade do que a pandemia. Por isso, nessa economia de guerra, as pessoas terão de ser mais solidárias entre si, como já ocorre nas comunidades pobres. Muitos filhos terão de voltar a morar com os pais, abandonando os sonhos da casa própria e do carro novo. As famílias terão de se recompor.

Planos de saúde serão abandonados, os serviços do SUS ficarão ainda mais sobrecarregados e o mesmo fenômeno ocorrerá com o ensino particular.

SURREALISMO PURO – Diante desse quadro dantesco, será surrealista e revoltante que o Estado continue a remunerar generosamente as elites dos três podres Poderes, beneficiando-as com salários de Primeiro Mundo e extravagantes penduricalhos, com os auxílios moradia, alimentação, creche, educação, paletó, carros oficiais, combustível liberado, motoristas, planos de saúde extensivos a filhos até 33 anos, cartão corporativo, jatinhos da FAB e o tradicional “sabe com quem você está falando?”.

O exemplo tem de partir do presidente da República, que foi eleito para consertar essa bagunça institucional, mas faz olhar de paisagem, porque recebe duas aposentadorias como capitão reformado e ex-deputado, além do salário de presidente, e o total passa de R$ 70 mil, e ainda tem todas as despesas pagas e um cartão corporativo sem limites.

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P.S. 1 Na reforma da Previdência, essa desigualdade social deveria ter começado a ser discutida, mas o presidente preferiu deixar de fora a nomenklatura civil e militar, punindo apenas os servidores subalternos. Agora, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) enfim apresenta um projeto reduzindo salários, mas somente na fase da covid 19.   

P.S. 2 Não mais que de repente, diria Vinicius de Moraes, surge uma pandemia para lembrar aos governantes que eles têm obrigação de serem justos. É para isso que são eleitos. Mas quem se interessa? (C.N.)

6 thoughts on “Efeito coronavíirus: as pessoas precisam morar juntas e aprender a se suportarem

  1. É isso aí!
    Carlos Newton deixou pra dar o coup de grâce no final da palestra, hehehe.
    Entretanto nosso editor foi mais realista que os reis da Globo, lá na Loura Mercenária deu conta que um casal de amerinos tomou cloroquina, o male morreu e a female está internada em estado grave.
    Si que bons escritores tem a tal licença poética para cometer seus lapsos premeditados ou que lubrificam a roda da carruagem intelectual. Ocorre que: lá bem no finalzinho, quando a luzinha se apaga como uma velinha numa capela de mosteiro deixa entender que a cloroquina ingerida não era um medicamento e sim um preparado para desinfetar piscinas.
    Ou tomamos os medicamentos corretos ou nos desinfetaremos a todos em piscinas, já que no médio e longo prazos estaremos todos mortos.

  2. 1) Para convivermos com os diferentes e todos somos uns diferentes dos outros é preciso ter paciência…

    2) O filósofo Sidarta Gautama, o Buda, certa feita disse: “A paciência é a maior virtude”.

    3) Paciência = Aceitação = Sabedoria = Democracia.

  3. Tenho dito, se Bolsonaro fosse patriota daria o exemplo: abriria mão de dois dos seus 3 salários. Aí sim, teria apoio da população e moral para pedir a esse número enorme de pessoas que recebem mais de uma aposentadoria e pensões generosas.

  4. Uma matéria interessante do blog do Orlando Tambosi:

    Como o sentimentalismo tóxico contaminou a discussão sobre a COVID-19

    Escolhas fazem parte da vida. Somente um sentimental irresponsável imagina poder viver num mundo sem escolhas. R. R. Reno, via Gazeta do Povo:

    Na coletiva de imprensa de sexta-feira (20), na qual anunciava o isolamento de Nova York por causa do coronavírus, o governador Andrew Cuomo disse: “Quero poder dizer ao povo de Nova York que fiz tudo o que podia. E se tudo o que estamos fazendo salvar apenas uma vida, ficarei feliz”.

    Essa frase reflete um sentimentalismo desastroso. Tudo pelo bem da vida física? E quanto à justiça, beleza e honra? Há muitas coisas mais preciosas do que a vida. E ainda assim vivemos num frenesi tão grande em Nova York que muitos parentes abdicam de visitar os familiares doentes. Os clérigos não visitam os doentes nem consolam aqueles que estão de luto. A própria Eucaristia hoje está subordinada ao falso deus da “salvação”.

    A verdade é outra vítima do sentimentalismo. A imprensa bombardeia o público com alertas sobre os perigos do coronavírus, quando a verdade é que apenas uma porcentagem pequena da população de Nova York corre perigo. Num acordo tácito, líderes, autoridades de saúde pública e formadores de opinião conspiram para fomentar uma atmosfera de crise a fim de que obedeçamos a suas medidas radicais.

    Vários amigos discordam de mim. Eles apoiam as medidas atuais, insistindo no argumento de que cristãos devem defender a vida. Mas a causa pró-vida deles trata da batalha contra o assassinato, não uma cruzada malfadada contra a finitude humana e a realidade dolorosa da morte.

    Outros falam como se escolhas fossem um sinal de fracasso moral. Mentira. Estamos sempre fazendo escolhas. Somente a abundância extraordinária da nossa sociedade nos permite fingirmos que não. não gastamos 100% do PIB em saúde. Mesmo em tempos normais, escalonamos a saúde em termos de preço, tempo de espera e qualidade dos médicos. Não fazemos transplantes de órgãos a esmo. Nossa finitude sempre exige o duro esforço moral da escolha. Essa demanda é hoje ainda mais evidente porque o poderoso vírus exerce uma pressão enorme sobre nosso sistema imunológico e sistema de saúde. Mas a escolha sempre existe.

    Em outras palavras, somente um sentimental irresponsável imagina poder viver num mundo sem escolhas. Jamais devemos fazer o mal do que possa vir o bem. Neste sentido, São Paulo é bem claro. E temos sempre de decidir que bem podemos e devemos fazer, uma decisão que quase sempre exibe não fazer outro bem, não curar outra ferida e não salvar uma vida diferente.

    Há um lado demoníaco no sentimentalismo de salvar vidas a qualquer custo. O diabo governa um mundo no qual o poder da morde é alardeado pela manhã, tarde e noite. Mas o diabo não pode governar diretamente. Só Deus tem poder de vida e morte e, assim, o diabo só pode governar indiretamente. Para isso ele precisa contar com nosso medo da morte.

    Na imagem simples que fazemos da situação, imaginamos que o medo da morte surge apenas por causa da brutalidade de ditadores cruéis e carrascos sedentos de sangue. Mas a verdade é que o diabo prefere humanistas sentimentais. Não gostamos de sentir o coturno da opressão em nossos pescoços e, quando temos a oportunidade, a maioria de nós resiste. É muito melhor, então, disseminar o medo da morte sob pretextos moralistas.

    Isso é o que está acontecendo em Nova York enquanto escrevo. A imprensa continua com seus alertas. E a mensagem não é apenas a de que eu ou você podemos acabar numa sala de emergência, buscando o ar. Ela nos diz mais que podemos transmitir o vírus aos outros e provocar a morte deles.

    Assim, o isolamento em massa da sociedade para enfrentar a disseminação da Covid-19 gera uma atmosfera demoníaca de perversidade. O governador Cuomo e outras autoridades insistem em dizer que o poder da morte deve orientar nossas ações. Líderes religiosos obedeceram a esse decreto, interrompendo a proclamação do Evangelho e a distribuição do Pão da Vida. Assim eles sinalizam que também aceitam o domínio da morte.

    O homem é feito de vida, não de morte

    Há mais de cem anos, os norte-americanos enfrentaram uma pandemia terrível de gripe que afetou todo o mundo. A reação deles foi bem diferente da nossa. Eles continuaram a ir aos cultos e apresentações musicais, a disputarem partidas de futebol americanos e a se reunir com os amigos.

    Interpretamos essa reação como se ela fosse um conto de fadas: aquelas pessoas de antigamente eram supersticiosas e não conheciam a ciência médica. Eles abandonaram os fracos para que eles fossem exterminados pela doença sem motivo. Nós, ao contrário, somos científicos e proativos, enfrentando a ameaça da morte com mais inteligência e retidão moral. Interrompemos os cultos religiosos e adiamos os shows. Tenho certeza de que cancelaremos reuniões familiares também. Sabemos o que é mais importante — salvar vidas!

    Os antigos que enfrentaram a Gripe Espanhola, há muito mortos, não eram mal informados. As pessoas daquela época eram atendidas por médicos que entendiam bem a disseminação da doença e os métodos de quarentena. Ao contrário de nós, contudo, aquela geração optou por não viver sob o domínio da morte. Eles insistiam em dizer que o homem era feito de vida, não de morte. Eles abaixaram a cabeça diante da tempestade e enfrentaram suas rajadas, mas se mantiveram firmes e continuaram a trabalhar, rezar e brincar, insistindo em mostrar que o medo da morte não determinaria a sociedade e suas vidas.

    De nós, ao contrário, exigem que nos acovardemos no medo de que morremos, redobrado pelo medo de que provocaremos a morte dos outros. Tiram de nós a coragem. Se eu desse um jantar hoje à noite para resistir à paranoia e histeria, seria denunciado. Ontem, o governador Cuomo viu alguns jovens jogando basquete num parque de Nova York. “Isso tem que acabar – e para já!”, ordenou ele. Todos têm de viver sob o domínio da morte.

    Alexander Solzhenitsyn rejeitava o princípio materialista da “sobrevivência a qualquer preço”. Isso tira de nós nosso caráter humano. Isso serve para analisarmos tanto o destino dos outros quanto o nosso. Temos de rejeitar o moralismo excepcional que considera o medo da morte o centro da vida.

    O medo de morrer e causar mortes é onipresente – alimentado por uma ideia materialista de sobrevivência a qualquer preço que líderes cristãos aceitam sem contestar, provavelmente porque eles provavelmente aceitam em segredo as ideias materialistas de nossa época. Enquanto permitirmos que o medo reine, ele fará com que os fiéis deixem de seguir o que Cristo orienta em Mateus 25. Já está acontecendo.

    https://otambosi.blogspot.com/2020/03/como-o-sentimentalismo-toxico.html

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