Eike Batista, o último personagem do grande Rene Clair

Pedro do Coutto

Francamente, ao ler a excelente reportagem de Bernardo Mello Franco, Folha de São Paulo de 26 de junho, sobre as doações do empresário Eike Batista ao governo do Rio de Janeiro e ao governador Sérgio Cabral, no montante de 139 milhões de reais, ao sentir o fino humor com que o jornalista perfumou o texto, me veio à lembrança filme famoso do grande cineasta francês René Clair. De 1934, chama-se Le Dernier Milliardaire, O Último Milionário, um homem excêntrico que tinha por hábito distribuir dinheiro à população de uma cidade francesa da janela de sua mansão.

Claro, Eike Batista, sem dúvida uma figura simpática, mas igualmente excêntrica do universo econômico, e não apenas do society, não é o último milionário. Tampouco o será porque, além de jovem de 54 anos, é acompanhado na lista por muitos outros. Há quase 155 mil, revela Érica Fraga na edição de 27 da mesma FSP, que possuem contas no exterior. Entre elas, evidente, as ocultas e as aparentes. Eike Batista não é o último, mas certamente é o mais inesperado e surpreendente capitalista do Brasil.
Suas ações, verdadeiras manobras de flanco de sedução, parecem partir de impulsos espontâneos, o que não seria novidade. Entretanto, a meu ver, a diferença que ele assinala em relação aos comportamentos tradicionais está no fato de não esperar a mensagem cifrada e sim antecipar-se a ela, deixando assim os amigos e aliados em posições mais confortáveis.

Ele faz da amizade sincera – acredito – sua arma nada secreta, porém sem o amargor que inevitavelmente envolve os movimentos que se desenvolvem nos bastidores do túnel que liga a política aos empreendimentos. Eike, para mim, é um grande ator no palco dos acontecimentos. Ele mobiliza, sem dúvida. E investe pesado nessa mobilização. Não se pode culpá-lo de nada. Afinal de contas, não pode ser responsabilizado pelos créditos que obtém junto ao BNDES, tampouco pelos incentivos fiscais que lhe são destinados pelo governo do Rio de Janeiro.

O que me intriga, e gostaria de saber, é se seus investimentos modernos, digamos assim, apresentam rentabilidade igual ou maior do que aqueles praticados por outras empresas e empresários sem o manto diáfano da fantasia a que se referiu Eça de Queiróz. Pode ser que sim, pode ser que não.
Mas de qualquer forma, Eike Batista vai se tornando um mito, já considerado o homem mais rico do Brasil e o oitavo do mundo. Portanto, seu nome deve constar da lista dos 155 mil brasileiros ou residentes no país que possuem contas no exterior.

A propósito, circular do Banco Central – número 3543/2011, publicada no DO de segunda feira – estabelece que os titulares desses créditos ou de bens de valor superior a 100 mil dólares devem informar ao BACEN e à Receita Federal as suas posses até o final do próximo mês de Julho. Todos os anos o Banco Central renova a exigência. Será ela cumprida corretamente? O deputado Paulo Maluf informará o montante de seu saldo confirmado pelo Citibank de Caymã?  Não é provável. E o que acontece? Nada. Mas esta é outra questão.

O tema deste artigo é o Monsieur Banco, nome do personagem de René Clair. Quer me parecer que Eike Batista desempenha um papel que vai do sedutor financeiro ao empreendedor correto. Está aí a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, a campanha para o Brasil sediar a Copa e o Rio os Jogos Olímpicos. Criação de UPPS. Com tudo isso, ele próprio talvez se sinta como um personagem de si mesmo.

Um enigma. Uma personalidade dupla cujas faces às vezes se encontram, outras não. Diante do espelho, é possível que suas feições transformem-se de um momento para outro. Porém imagem alguma se torna agressiva. Ao contrário. Está sempre pronto a recomeçar o jogo em que se empenha. Felicidade para ele.

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