Eleições: de Carnaval à Sexta-Feira da Paixão

Carlos Chagas

O castigo é que até a eleição do dia 26 ainda assistiremos a mais três debates entre Dilma e Aécio, depois do lamentável entrevero da noite de terça-feira, na TV-Bandeirantes, que entrou pela madrugada de ontem. Ninguém aguenta mais a troca de agressões em torno de temas já expostos há semanas. Além, é claro, dos xingamentos sobre uma ser leviana e outro, mentiroso.

O problema está em que os debates em nada contribuem para o esclarecimento do eleitorado. São repetições de antigas diatribes ou, no máximo, lembranças do que a candidata diz que fez, em seus quatro anos de mandato, e o candidato replica com iniciativas de seus dois governos em Minas. De novidade, de propósitos para o futuro, as mesmas promessas etéreas, não particularizadas.

Do perigo da volta da inflação ao medo pela supressão de programas sociais, Dilma e Aécio nada inovam. Como resultado, emerge a evidência de que nossa paciência poderá ser poupada se os debates no SBT, Record e Globo forem cancelados. Salvo engano, estão servindo para aumentar o número de abstenções, votos em branco ou votos nulos. Por certo que as empresas de comunicação aumentam o faturamento com a venda de espaços de intervalo aos anunciantes, mas uma pesquisa séria revelará seus baixos níveis de audiência.

As lições de mais uma eleição presidencial eivada de erros, chavões e frustrações conduzem à conclusão de que tudo precisa ser revisto. As campanhas, as pesquisas e os debates precisam ser revistos. Passar pelo crivo de uma Justiça Eleitoral mais atenta. Em tempos passados as eleições eram sinônimo de Carnaval, mas hoje aproximam-se da Sexta-Feira da Paixão.

AS PAUTAS OBRIGATÓRIAS

Todos os anos é a mesma coisa, desde o governo Sarney. O ministério das Minas e Energia anuncia a iminência de um novo horário de verão, sem que a população tenha sido consultada. O resultado é que a metade dos estados aceita a imposição e a outra metade dá de ombros. Da Bahia para cima os relógios não serão adiantados por uma hora. Para baixo, a meia-noite da véspera torna-se uma da madrugada do dia seguinte por um passe de mágica.

A desculpa é a economia de energia, agora da ordem de 2.595 megawatts.Diz o governo que ano passado foram poupados 400 milhões de reais. Este ano, menos: 278 milhões, por conta da falta de água nos reservatórios e a necessidade de serem ativadas as termoelétricas, mais dispendiosas do que as hidrelétricas.

O engôdo nessa mágica contra o relógio é que nas primeiras semanas o cidadão acostumado a dormir às 22 horas vai dormir às 23, vendo garfada uma hora de sono, que se refletirá ao acordar às 6 horas da manhã que na realidade serão 5 horas. Acresce que se na tarde-noite anterior ele ganhou mais uma hora de claridade, sem precisar acender a luz, mas essa poupança desaparecerá de manhã-madrugada, quando para escovar os dentes e tomar café, necessitará da luz acesa.

Imagine-se o constrangimento do infeliz que mora em Umburatiba, no Espírito Santo, e trabalha em Medeiros Neto, na Bahia. De manhã, ao atravessar a ponte sobre o rio Itanhaen, ele sai às sete horas mas chega no estado vizinho às seis. Fica uma hora perambulando, mas ao voltar para casa, sai do trabalho às cinco e um minuto depois chega em casa às seis. No mínimo, a mulher irá acusá-lo de ficar no botequim bebendo cachaça.

Mais uma maldade do poder público: quando depois de muitas semanas o cidadão estiver acostumado ao horário de verão, chegará a hora de atrasar outra vez o relógio. Quem se dará conta do prejuízo para o sono e a saúde dele? Ou ao menos para a sua paciência?

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