Eleições e Copa, nada a ver

Carlos Chagas

O erro inicial ficou por conta  dos constituintes, que em 1988 estabeleceram para o  primeiro dia de janeiro a posse dos presidentes da República e dos governadores eleitos no outubro anterior.  Não  lembraram que a véspera, 31 de dezembro, há séculos é dia  de festa, de comemorações e, como  ninguém  parece  de ferro, até de excessos gastronômicos e etílicos. Levantar cedo no dia seguinte para comparecer a cerimônias cívicas pode não significar sacrifício algum para quem vai assumir, mas para os convidados,  fica difícil. Ainda mais se  visitantes especiais, como chefes de estado e de governo  estrangeiros, envolvidos com os próprios protocolos. Talvez por isso, desde a promulgação da nova Constituição que poucos presidentes e primeiros-ministros de nações amigas tenham comparecido às nossas posses.

Mas teve pior, cinco anos depois, quando se promoveu a  reforma constitucional. Com medo do  Lula, que momentaneamente  liderou  as pesquisas, reduziram de cinco para quatro  anos os mandatos presidenciais, e sem reeleição, golpe que só viria mais tarde. Deixaram, deputados e senadores, de perceber que a redução faria coincidir, como hoje ainda faz, as eleições presidenciais com as copas do mundo de futebol. Quer dizer, quando as campanhas começam a esquentar, sobrevém o valor  maior para a população, a disputa pelo caneco que já conquistamos cinco vezes.  Por mais que os candidatos se esforcem, entre junho  e julho ficam relegados a expressões diminuídas que devem recuperar até  outubro.

É precisamente o  que  já  vem acontecendo e mais acontecerá  de amanhã em diante, quando se inaugura a copa na África do Sul. A imensa maioria da voz rouca da ruas quer saber muito mais se o Brasil de   Kaká vencerá o Portugal de Cristiano Ronaldo, do que se  Dilma baterá Serra no conflito dos dossiês.

Numa palavra, a sucessão presidencial entra em recesso precisamente quando deveria estar prendendo as atenções gerais, mas uma tem muito a ver com a outra.  Como mesmo para os mais fanáticos da política fica difícil torcer para a desclassificação rápida de nosso selecionado, o remédio até para os candidatos é ceder lugar à  copa. Conseguir a  moratória imprescindível  para a  normalização das emoções nacionais.

Por isso Dilma Rousseff programa visitas à França, Alemanha e Portugal, ao tempo em que José Serra aproveitará para colocar  em dia a  leitura das mais recentes obras de economia.

Quem sabe ano que vem,  qualquer que venha a ser  o resultado eleitoral, o novo presidente se disponha a rever datas e duração de mandatos  futuros, no bojo da ansiada e jamais  concretizada reforma política. Por mais que o presidente Lula declare que eleições e copa nada tem em  comum, a verdade é que o país demonstra o contrário.

Juscelino foi campeão em 1958 e perdeu a eleição, em 1960.  Jango imaginou-se vitorioso em 1962 e acabou deposto  em 1964. Médici acertou o escore em  1970 mas passou à  História como o pior  dos ditadores. Itamar ganhou em 1994,  arrependendo-se logo depois por  haver indicado  Fernando Henrique,  que em 1998 perdeu no gramado e  reelegeu-se  nas urnas, para quatro anos depois, em 2002,  levantar o caneco do penta  mas obrigar-se a passar o poder para o Lula.

Com o atual presidente, nova inversão:  ganhou a segunda eleição em  2006, mas foi derrotado na copa. Quebraria a escrita, agora, elegendo  a  sucessora e comemorando o hexa? Pode ser, mas eleições  e copa, se  tem alguma coisa  a ver, não costumam privilegiar duas vezes os presidentes da República…

Uma sombra que ressurge

Às vésperas da convenção nacional  do  PMDB que consagrará a chapa Dilma Roussef-Michel Temer, voltam os companheiros a sentir um  frio na espinha.  Suponhamos, só para argumentar, que a dupla saia  vitoriosa nas eleições de outubro e que o maior partido nacional mantenha essa condição nas eleições parlamentares. Ficará claro que o novo governo dependerá umbelicalmente, para governar, da maioria capitaneada pelo PMDB. E quem controlará  o  Congresso senão o novo vice-presidente da República?

O eixo do poder será deslocado para o palácio do  Jaburu, ainda que de forma tão sutil quanto a personalidade de Michel Temer. Dilma não poderá manter com ele uma  relação de subordinação, como costuma acontecer entre os presidentes e seus substitutos. Precisará de muita paciência e tolerância para cumprir  seus objetivos. E o PT, pior ainda: passará a penduricalho do PMDB, salvo inusitadas conseqüências das eleições de outubro.

Não fica ninguém

Montes de ministros e ex-ministros  recentes estão de olho no futuro, caso Dilma Rousseff se eleja. Gostariam de continuar ou de retornar a Esplanada dos Ministérios, numa espécie de continuidade do governo Lula.

Podem   estar redondamente enganados. Não que a hoje candidata tenha contas a  ajustar com a maioria. Muito pelo contrário. Mas se ela quiser marcar seu suposto futuro governo com características próprias, precisará escalar a sua equipe, não o time que o Lula colocou em campo  por  oito  anos. Frustrações parecem em gestação, ainda que figuras como Antônio Palocci possam constituir exceção.

Sociólogos á margem

Raciocínio igual se faz do outro lado. Na hipótese da vitória de José Serra, ninguém imagine a volta dos neoliberais do sociólogo. Exceção poderá ser José Gregori, que,  aliás, de neoliberal  não tem nada. Mas imaginar o retorno dos ministros de Fernando  Henrique, nem  pensar. Muito menos  o próprio, que já  levou um “chega para lá” quando perguntaram a Serra qual seria o papel dele num suposto governo do PSDB. Com sutileza, o candidato declarou que ex-presidentes da República são pessoas tão especiais a ponto de precisarem permanecer em pedestais,  jamais pisando o terreno perigoso do futuro incerto.  É aquela velha história que se atribui  a Getúlio Vargas: “jamais se deve nomear quem não se pode demitir”…   

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