Eleições: renovam-se as promessas; eternizam-se as realizações

Pedro do Coutto
Num belo e importante artigo na edição de O Globo, quarta-feira 10, sob o título “Candidatos, Pedintes e Profetas”, o antropólogo Roberto DaMatta sintetizou, com seu brilho intelectual, o que se pode considerar como principal problema das campanhas eleitorais. De um lado as promessas de sempre, numerosas e até fascinantes, de outro as parcas realizações concretas do que foi prometido. Mas como política, no fundo, é esperança, na definição de Juscelino Kubitschek, elas se renovam a cada convocação para as urnas.
Roberto DaMatta focaliza as imagens das cidades do país mostradas nas sequências produzidas pelo sistema de marquetagem, que se chocam com as oferecidas pela realidade do cotidiano. Na lista, os transportes, o saneamento, os serviços de saúde pública, a segurança nas ruas e nas praças. Um confronto inevitável entre a fantasia e a verdade. Não quero dizer com isso que os poderes públicos não tenham resultados a exibir. Mas apenas que constitui uma diferença enorme entre o que foi prometido há quatro anos e o panorama de hoje. Até porque existem compromissos esboçados cujo cumprimento é impossível.
Nesta escala encontram-se o que candidatos ao Poder Legislativo prometem, omitindo que a execução de obras públicas e melhorias de serviços pertencem aos poderes executivo federal e estaduais. Isso agora, em 2014. Em 2016 a tarefa de realizar passa às mãos dos quase seis mil prefeitos do país. Seja como for, prometer para conquistar votos é algo intoxicante na medida em que vemos, como viu DaMatta, o tempo passar e as soluções não passarem da promessa para o tempo presente. Isso de um lado.
FANTASIA E VERDADE
De outro lado, há candidatos que se utilizam da capacidade de convencer prometendo, tendo consciência plena de que estão anestesiando e, dessa forma, iludindo eleitores. Mas que podem fazer diante do dilema proposto?
Praticamente nada. A não ser votar e, implicitamente, aceitar as regras do jogo. A esperança de uma vida melhor renasce, a esperança rejuvenesce o ânimo popular. Tanto assim que os índices de abstenção são mínimos. Não se pode apresentar como explicação do comparecimento maciço ser o voto obrigatório. Ele, no fundo da questão, é obrigatório para os servidores públicos de todos os níveis. Mas, concretamente, não para os empregados particulares. Qual o empregador que exige de seus empregados a comprovação de terem votado? Poucos, muito  poucos. Quais as empresas, grandes ou médias que condicionam o pagamento mensal dos salários à prova de que seus funcionários foram às urnas? Especialmente neste ano de 2014 quando as eleições presidenciais vão ser decididas no segundo turno?
No caso do Rio de Janeiro, o desfecho final de 26 de outubro, depois do primeiro embate no próximo dia 5, também será definido no segundo turno. Assim, na realidade, o que leva os eleitores às urnas é a esperança: de vários tipos e de motivações diversas.
                  Universitários: diminui o número dos que se formam
Reportagem de Dandara Tinoco, Demétrio Weber e Leonardo Vieira, O Globo, edição do dia 10, revela que, de acordo com o Censo de Educação Superior de 2013, divulgado há poucos dias pelo MEC, o número de estudantes universitários que concluíram seus cursos, 981 mil, foi 5,7% menor do que o registrado em 2012. Apesar de o total de matriculados nas faculdades ter atingido 7,3 milhões de alunos, no ano passado, ter sido 3,8% maior do que em 2012. Que terá ocorrido? Qual a explicação? Importante o Ministério da Educação esclarecer para, inclusive, ele próprio corrigir algum problema existente, algum obstáculo que esteja travando a conclusão dos cursos.
O Censo revela também que do total dos que se graduaram, 761 mil estudaram em faculdades particulares. Praticamente 80% dos estudantes universitários. Assim, o ensino público superior corresponde apenas a 20% do total de estudantes. Já vai longe, portanto, o tempo em que a maioria do ensino universitário era efetivamente estatal em sua maioria. Hoje, a realidade é outra. Eis um tema a ser debatido com mais atenção por parte dos governantes. Promessas só não resolvem nada. Promessas, o vento leva.

     

    3 thoughts on “Eleições: renovam-se as promessas; eternizam-se as realizações

    1. Bom artigo, Sr. Pedro do Coutto, como sempre.

      Dá tristeza de ver como os governos tratam o ensino público em nosso país.

      Como o Brasil é uma Federação assimétrica, isto é, olhando pelo lado da arrecadação, a União detém 70% da receita tributária, enquanto para Estados sobram 25% e para os 5.570 Municípios, apenas 5%; há de se esperar que uma solução para este que é o principal entrave para o desenvolvimento do nosso país, seja dada, justamente pela União, que possui maior quantidade de recursos.

      E é, justamente de Universidades Federais que trata o seu artigo.

      Penso que é alternando o poder do executivo federal que haveremos de dar chances para que algum governante altere esta realidade.

      Além do mais, a democracia exige isso.

      Grande abraço!

    2. Concordo em parte com a Dorothy. Não precisa paredão. É só colocá-los em prisão perpétua, com trabalhos forçados, confisco dos bens familiares. Claro, mudaremos a Constituição, o Código Penal e Afins, fecharemos o Congresso, as Casas Legislativas e Municipais. Podemos fazer uma cidade prisional, sugiro o nome “Nova Sibéria” na Amazônia a beira de um rio com piranhas, quem fugir vai ter que atravessar o rio a nado. Caso contrário… vai ser sempre ad eternum essa bandalheira que presenciamos há mais de meio milênio.

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