Eleita, Dilma pedirá contas?

Carlos Chagas

Complacente, tolerante, leniente? Talvez a razão lhe pertença. Falamos do presidente Lula. Afinal, o Brasil é assim, como ele, faz muito tempo. Do que a  Constituição mais cuida senão dos direitos do cidadão? De deveres, nem pensar.

Só que agora estouraram todos os limites. Exige medidas cirúrgicas a  lambança encenada pela Receita Federal nos  episódios de quebra do sigilo fiscal de um bando de tucanos, incluída a filha do candidato José Serra. Para começar, a demissão do  secretario, até do ministro da Fazenda, seu chefe. Mais ainda, há que identificar os interessados nessa inadmissível  intromissão na vida privada dos adversários, envolvendo falsificação de documentos e de assinaturas.   Se forem do PT, como  os antigos “aloprados”, paciência. Pau neles. O que não dá é ver o governo tergiversando, inventando versões fantasiosas como a de que tudo não passa de uma briga interna no PSDB. Ou a de que ninguém sabia de nada.

Desde a primeira posse que o Lula hesita em punir auxiliares flagrados  em ilícitos variados. Até nisso segue o exemplo do antecessor, Fernando Henrique, levando o país a ter saudades do Itamar Franco, aquele que primeiro demitia para mandar ministros e altos funcionários se defenderem, depois.  Para o atual  presidente, o mensalão jamais aconteceu, como agora a Receita Federal merece toda a sua confiança porque é séria.

Gol contra

Trata-se de monumental exagero acusar Dilma Rousseff e seus chefes de campanha de envolvimento  no escândalo da quebra dos sigilos fiscais,  mas a pergunta surge de imediato: eleita, ela manterá a mesma postura leniente, tolerante e complacente do seu chefe?

Quando um jogador de futebol faz gol contra, é vaiado e marcado pela  torcida. Se ficar comprovado que agiu de má-fé, comprado pelo adversário, acaba expulso do clube. Por que nada acontece com advogados que trabalham contra o cliente? Quando prejudicam deliberadamente aquele que o constituiu?

É o caso dos advogados da coligação “O Brasil Pode Mais”, que esta semana protocolaram no Tribunal Superior Eleitoral representação contra Dilma Rousseff, argüindo sua inelegibilidade sob alegação de envolvimento no escândalo da quebra do  sigilo  fiscal de tucanos ligados à campanha de José Serra.

Seria cômico se não fosse trágico assistir profissionais de reconhecida competência pleitearem tamanho absurdo. Serra, se tivesse tido  conhecimento  antecipado da representação,  certamente mandaria demiti-los. Porque expuseram o candidato  ao ridículo.  Nenhum estudante de Direito acataria o pedido, quanto  mais os ministros da mais alta corte eleitoral do país.

Pelo contrário, quantos eleitores antes propensos a votar no candidato do PSDB terão mudado de opinião ao verificar os extremos a que chega o desespero político. Se José Serra  quer derrotar a adversária, tem que ser  nas urnas, jamais no tapetão…

O que não se faz para ganhar a vida

Nesse festival de absurdos encenado em torno da quebra de sigilos fiscais o troféu vai para o líder do governo  no Senado, Romero Jucá.  Ele negou que a Receita Federal tivesse violado documentos de adversários políticos, afirmando que o sistema é seguro e foi apenas “acessado, não violado”. Para isso usou-se uma senha da própria Receita…

Jucá tem oferecido sua lealdade ao governo, mas, convenhamos, assim é demais. Para manter sua liderança no Senado, faz malabarismos incríveis, mesmo saltar de avião sem paraquedas. Como sua reeleição parece assegurada em Roraima, continuará à disposição do futuro governo.

O eixo São Paulo-Minas-Goiás

Um inusitado eleitoral ameaça acontecer nos dois maiores colégios eleitorais do país: Dilma Rousseff ser eleita presidente da República e, para os governos estaduais, Geraldo Alckmin e Antônio Anastasia. Uma demonstração de sabedoria do eleitorado ou uma contradição dos diabos?

Caso se configure essa hipótese, como Brasília se comportará, cercada por adversários? Acresce que Marconi Perilo, outro tucano, parece a um passo de eleger-se em Goiás.

Mais uma vez, o PMDB precisará vir em socorro do governo federal. Dominando o Congresso, o maior partido nacional buscará opor a política à  geografia.  Com a natural fatura apresentada na portaria do palácio do Planalto. O PT poderá fazer barulho nos três estados referidos, mas levar seus novos  governadores à defensiva, só mesmo o PMDB, atuando na Câmara, no Senado e nas Assembléias Legislativas.

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