Em 1961, com Jânio, uma crise que veio do nada; e 60 anos depois, tudo de novo

Jair Bolsonaro se 'transforma' em Jânio QuadrosElio Gaspari Folha/O Globo  –  Ilustração de André Mello

No próximo dia 25 completam-se 60 anos do início da crise provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros. Em 1996, lendo o livro-reportagem do jornalista Carlos Castello Branco, que havia sido assessor de imprensa do tatarana, Fernando Henrique Cardoso comentou:

“O Brasil esteve perto de uma guerra civil sem que houvesse crise econômica, crise social ou até mesmo uma crise política séria. Era tudo futrica.” Isso e mais um presidente pensando em dar um golpe.

TUDO FUTRICA – Passaram-se 60 anos, uma pandemia matou mais de 560 mil pessoas, há 14,8 milhões de desempregados, e o país está novamente numa encrenca institucional. Blindados desfilam por Brasília, e o presidente ameaça sair dos limites da Constituição. A crise sanitária existe, e a econômica agravou-se. Mesmo assim, espremendo a encrenca institucional, voltou-se ao ponto de partida: tudo futrica e enunciados golpistas.

Na crise sanitária valsam vigaristas em torno da cloroquina e de golpes com imunizantes. Na crise econômica, o ministro Paulo Guedes enfrenta as estatísticas do desemprego brigando com o IBGE. A crise política girou em torno do voto impresso contra as urnas eletrônicas. Atrás desse biombo está um presidente que já anunciou sua disposição de rejeitar o resultado da eleição do ano que vem.

Os blindados que se moveram em Brasília ecoam a cena em que o presidente americano Donald Trump pretendia comemorar a data nacional de 4 de Julho de 2020 (quatro meses antes da eleição) com uma parada militar de aviões sobrevoando grandes cidades e tanques no gramado da Casa Branca.

DISSE O GENERAL – O plano encolheu quando o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Mark Milley, entrou na discussão: “Vocês não aprendem? Não é assim que fazemos. Isso é o que faz a Coreia do Norte, o que fazia Stálin. Nós não fazemos paradas desse tipo. Isso não é a América”. No caso brasileiro, Bolsonaro conseguiu seu desfile.

Em 1961 Jânio Quadros armava o golpe da renúncia. Era o truque da moda. Em julho de 1959, o chefe revolucionário Fidel Castro havia renunciado ao cargo de primeiro-ministro de Cuba e voltou cinco dias depois, nos braços do povo, livrando-se do presidente Manuel Urrutia.

Jânio sentia-se desconfortável dentro das quatro linhas da Constituição, mas fingia respeitá-las. Não se pode dizer o mesmo de Bolsonaro.

FUTRICAS E PIRRAÇAS – Em 1961 as futricas alimentaram a crise. Hoje as crises são convertidas em futricas e pirraças. Piorou-se. Aqui, como nos Estados Unidos de Trump, o presidente transformou o que deveria ser uma discussão em torno das medidas para enfrentar a pandemia num debate sobre a cloroquina.

O ministro da Economia tinha um amigo inglês que poderia remeter para o Brasil 40 milhões de kits de testes para o coronavírus por mês. Felizmente. Coube a Paulo Guedes o papel de exterminador da marquetagem de um “Plano Marshall” para a economia nacional.

PLANO MARSHALL – A bizarrice saiu da Casa Civil do general Braga Netto e durou poucas semanas, até que o ministro ensinou: “Não chamem de Plano Marshall porque revela um despreparo enorme”. A girafa virou “Pró-Brasil” e sumiu do mapa.

Em 1961, muito além das futricas, havia o projeto golpista de Jânio. Nas palavras tardias de um coronel que em 1961 estava disposto a ir para o pau: “Naquela manhã de 25 de agosto, o que faltou foi alguém que trancasse o Jânio no banheiro do palácio”.

9 thoughts on “Em 1961, com Jânio, uma crise que veio do nada; e 60 anos depois, tudo de novo

  1. O mestre Elio Gáspari, na sua abordagem histórica, como não poderia deixar de ser, da crise, para não chamar de bagunça, institucional que nos aflige, dá um recado subliminar para os nossos condecorados generais, que eu me atrevo a interpretar: Já que os senhores, que historicamente se guiaram e admiraram as práticas e ideais militares norte americanos, exercendo, inclusive, fluido intercâmbio profissional, por que não imitar a atitude do general Mark Milley, botando o presidente no seu lugar e condição?

    • Me atrevo, com esta minha próclise, a listar alguns dados do general americano:

      Alma mater:
      Princeton University (BA)
      Columbia University (MA)
      Naval War College (MA)
      Todas top universities.

      Battles/wars
      Operation Just Cause
      Operation Uphold Democracy
      Operation Joint Endeavor
      Iraq War
      War in Afghanistan

      E com mesóclise encerro: dar-me-ia por feliz se nossos heróis pusessem o interesse da nação acima das suas ambições (refiro-me aos velhinhos da reserva).

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