Em Brasília, diz a lenda que o piano do Palácio da Alvorada pode tocar sozinho à noite…  

Itamar Franco tinha medo de fantasmas do Alvorada - PressReader

Dona Sarah e Márcia foram receber Itamar no Alvorada

Sebastião Nery

Delicadeza, simplicidade e espontaneidade eram marcas do presidente Itamar Franco. Quem convivia com ele pode comprovar. Vejam esse belo relato de Silvestre Gorgulho, um dos mais importantes jornalistas de Brasília, que acaba de lançar mais um livro, desta vez sobre os 80 anos de Pelé. É um texto delicioso.

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ITAMAR, O PIANO FANTASMA E DONA SARAH  

Silvestre Gorgulho

Passava das 18 horas do dia 8 de junho de 1993. Uma terça-feira. Acabara de fechar minha coluna no jornal Correio Braziliense, quando a secretária da redação me chama:

– Silvestre Gorgulho, é do Palácio do Planalto.

Atendi. Era um velho amigo dos tempos da Embrapa, o advogado Mauro Durante, então Secretário-Geral da Presidência da República. Foi logo me perguntando se dona Sarah Kubitschek estava em Brasília. Disse que sim. Tinha estado com ela na casa da filha Márcia na véspera.

– Ótimo! Então aguarde um pouquinho que o Presidente quer lhe pedir um favor.

ITAMAR DE MUDANÇA – Foram dois ou três longuíssimos segundos. Um favor? Pensei comigo. Para o Presidente da República? Uma nota no jornal? O que será, meu Deus? Entra o Presidente na linha e depois de um afetuoso cumprimento e lembranças passadas, diz:

– Silvestre, tomei uma decisão. Estou morando aqui numa casa da Península dos Ministros, mas o Henrique (Hargreaves), a Ruth (Hargreaves) e o pessoal da segurança, todos estão pressionando muito para eu me mudar para o Palácio da Alvorada. O que você acha?

– Presidente…

– Presidente não! Itamar.

– Sim, sim Presidente Itamar… Acho uma sábia decisão. O senhor já devia ter feito isso há mais tempo. Lá é a residência oficial do Presidente da República. Vai lhe dar mais tranquilidade…

– É o que todos falam. Mas eu só vou numa condição. Não quero ser intruso. Preciso de energias positivas. Aquela foi a residência de um homem de bem, de um grande brasileiro e fico assim meio sem jeito de chegar lá no Alvorada assim sem mais nem menos.

– Como sem mais ou menos, Presidente… Itamar! O Palácio é a residência oficial…

UM AR DE MISTÉRIO – Eu sei. Mas isto tudo para mim tem um ar de mistério. A áurea do Presidente Juscelino domina o Palácio da Alvorada. Não que eu seja supersticioso. Dizem, mesmo, que no Alvorada até o piano toca sozinho à noite – afirmou Itamar.

Sem saber onde ia dar esta conversa, eu falava imaginando mil coisas. Lembrei-me da primeira frase de Mauro Durante: “A dona Sarah está em Brasília?”

– Presidente… Itamar. O que o senhor acha se eu conversar com Dona Sarah e contar desta sua intenção de ir para o Alvorada? Vou pedir para ela ligar para o senhor.

– Fale com ela. Se ela quiser me ligar é um prazer. Você sabe de minha admiração pelo Presidente Juscelino e por dona Sarah. JK me ajudou muito na eleição para o Senado em 1974. Quem sabe ela e Márcia passam toda a manhã comigo lá no Alvorada.

  1. SARA ACEITA – Em vez de ligar, fui ao Memorial JK. Encontrei dona Sarah com o coronel Affonso Heliodoro e a Cirlene. Contei-lhes toda história. Muito feliz e um pouco surpresa, dona Sarah foi logo dizendo que fazia o que Presidente Itamar quisesse. Era muito importante ele ir para o Palácio da Alvorada. Depois de alguns outros comentários, concluiu:

– Silvestre, conheço bem o presidente Itamar Franco. Ele é uma pessoa simples, mas muito atento aos simbolismos. Ele não quer chegar ao Alvorada sozinho. Vamos fazer o seguinte, vou lá recebê-lo com “honras de Chefe de Estado e espírito de Minas Gerais”.

Diante da aprovação e incentivo do Cel. Heliodoro, liguei para Mauro Durante ali mesmo do Memorial:

– Ministro, estou aqui no Memorial com dona Sarah Kubitschek e ela ficou muito feliz com a decisão do Presidente Itamar em se mudar para o Alvorada. Ela vai lhe falar.

UM ENCONTRO EMOCIONANTE – Conversaram e acertaram dia e hora para ela e Márcia irem ao Palácio da Alvorada receber o Presidente Itamar.

Assim, dia 10 de junho de 1993, uma quinta-feira, seis meses depois de ser efetivado Presidente da República, Itamar Franco se muda para o Palácio da Alvorada.

Além de receber “as Honras de Estado e o espírito de Minas”, Itamar proporcionou uma das maiores emoções à dona Sarah: a eterna Primeira-Dama do Brasil havia deixado o Palácio da Alvorada pela última vez em 30 de janeiro de 1961. Há 32 anos ela não voltava à sua primeira residência em Brasília.

O PIANO TOCA… – Numa entrevista coletiva, Itamar e dona Sarah falam para o jornalistas. Lembro-me da primeira pergunta de uma repórter de tevê:

– Dona Sarah, é verdade que aqui no Palácio da Alvorada o piano toca sozinho?

– Olha, minha filha – respondeu dona Sarah. – Este Palácio traz energias extras aos presidentes. Se à noite o piano toca sozinho, está provado o alto astral do Palácio da Alvorada. Há coisa melhor do que uma boa música neste ermo encantado do Cerrado?

Aplausos!

Antes de se despedir de Itamar, dona Sarah agradeceu:

– Vivi um sonho, Presidente. São 32 anos sem contemplar as colunas de Niemeyer, sem entrar na Capelinha do Alvorada e sem colher uma flor deste jardim abençoado.

8 thoughts on “Em Brasília, diz a lenda que o piano do Palácio da Alvorada pode tocar sozinho à noite…  

  1. Há muitos relatos afirmando que Itamar Franco teria nascido a bordo de um navio, enquanto margeava o litoral baiano.
    Em caso assertivo, Itamar seria o único baiano que nascera na BaHia sem H = baía. Para compensar, conheço dois mineiros que nasceram em Minas de Esmeraldas, na Bahia.

  2. Vou ser bem sincero sem medo de ser criticado e demonizado: não vejo beleza no Palácio do Planalto – nenhuma. A impressão que ele me dá é de um barraco bem tratado, especialmente quando a TV mostra a sua parte superior, a laje. Paris, Roma, Washington DC têm prédios belíssimos – um visto recentemente em todo o mundo é o Capitolio. Esse tipo de arquitetura é belo para sempre; Brasília foi arquitetada na base do modernismo, uma tendência (moda) efêmera. É o que sinto.

  3. ITA eram os navios da costa brasileira na primeira metade do seculo 20. Faziam o transporte de mercadoria e passageiros. Foi a bordo de um desses navios, que Itamar Franco nasceu, daí o nome ITAMAR. Seu pai era natural de Juiz de Fora e sua mãe de Sao João Nepomuceno, cidade, também, da zona da mata mineira. Era o que se contava em JFA. à epoca. (nesta cidade passei a maior parte da minha infância, adolescência e parte da juventude.)

  4. Itamar, que junto com os cobras da economia, acabou com anos de inflação de 40% a.m…pena que na época não tinha reeleição, acho que o Brasil seria outro…Presidente honesto faz uma enorme diferença….

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