Em forma de poesia, a impressionante perplexidade de Drummond perante o mundo

Carlos Drummond de Andrade | Palavras legais, Frases inspiracionais,  Mensagens reflexivasPaulo Peres
Poemas & Canes

O bacharel em Farmcia, funcionrio pblico, escritor e poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), um dos mestres da poesia brasileira, no poema Rola Mundo, afirma ter visto tantas coisas na vida que chegou concluso que melhor deixar o mundo existir.

ROLA MUNDO
Carlos Drummond de Andrade

Vi moas gritando
numa tempestade.
O que elas diziam
o vento largava,
logo devolvia.
Pvido escutava,
no compreendia.
Talvez avisassem:
mocidade morta.
Mas a chuva, mas o choro,
mas a cascata caindo,
tudo me atormentava
sob a escureza do dia,
e vendo,
eu pobre de mim no via.

Vi moas danando
num baile de ar.
Vi os corpos brandos
tornarem-se violentos
e o vento os tangia.
Eu corria ao vento,
era s umidade,
era s passagem
e gosto de sal.
A brisa na boca
me entristecia
como poucos idlios
jamais o lograram;
e passando,
por dentro me desfazia.

Vi o sapo saltando
uma altura de morro;
consigo levava
o que mais me valia.
Era algo hediondo
e meigo: veludo,
na mole algidez
parecia roubar
para devolver-me
j tarde e corrupta,
de to babujada,
uma velha medalha
em que dorme teu eco.

Vi outros enigmas
feio de flores
abertas no vcuo.
Vi saias errantes
demandando corpos
que em gs se perdiam,
e assim desprovidas
mais esvoaavam,
tornando-se roxo,
azul de longa espera,
negro de mar negro.
Ainda se dispersam.
Em calma, longo tempo,
nenhum tempo, no me lembra.

Vi o corao de moa
esquecido numa jaula.
Excremento de leo,
apenas. E o circo distante.
Vi os tempos defendidos.
Eram de ontem e de sempre,
e em cada pas havia
um muro de pedra e espanto,
e nesse muro pousada
uma pomba cega.

Como pois interpretar
o que os heris no contam?
Como vencer o oceano
se livre a navegao
mas proibido fazer barcos?
Fazer muros, fazer versos,
cunhar moedas de chuva,
inspecionar os faris
para evitar que se acendam,
e devolver os cadveres
ao mar, se acaso protestam,
eu vi: j no quero ver.

E vi minha vida toda
contrair-se num inseto.
Seu complicado instrumento
de vo e de hibernao,
sua clera zumbidora,
seu frgil bater de litros,
seu brilho de pr de tarde
e suas imundas patas
Joguei tudo no bueiro.
Fragmentos de borracha
e cheiro de rolha queimada:
eis quanto me liga ao mundo.
Outras riquezas ocultas,
adeus, se despedaaram.

Depois de tantas vises
j no vale concluir
se o melhor deitar fora
a um tempo os olhos e os culos.
E se a vontade de ver
tambm cabe ser extinta,
se as vises, interceptadas,
e tudo mais abolido.
Pois deixa o mundo existir!
Irredutvel ao canto,
superior poesia,
rola, mundo, rola, mundo,
rola o drama, rola o corpo,
rola o milho de palavras
na extrema velocidade,
rola-me, rola meu peito,
rolam os deuses, os pases,
desintegra-te, explode, acaba!

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