Em forma de poesia, o café-expresso de Cassiano Ricardo

O advogado, jornalista, ensaísta e poeta paulista Cassiano Ricardo Leite (1895-1974) é autor de uma obra poética tida como uma das mais sérias e importantes da literatura brasileira contemporânea, inclusive como representante das tendências nacionalistas. O poema “Café Expresso” é um exemplo clássico de sua obra, que propunha uma visão épica da história pátria, exaltava o bandeirismo, buscava a mitologia nacional, vinculava-se à civilização cafeeira e à civilização industrial.

O poema é uma viagem aos pensamentos no momento em que se recebe a tão merecida xícara de café expresso pela amanhã com olhos de quem viveu em 1928 (ano em que a obra fora escrita). Notamos que a rotina é quase a mesma em São Paulo, o que muda são apenas alguns detalhes. A moeda, por exemplo: no período em que um café custava 200 réis.

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CAFÉ-EXPRESSO

Cassiano Ricardo

Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo…
E pronto! parece um brinquedo…
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
apagada…

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
estrada…
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa…
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
sol que floriu no portão…
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão…

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim…

Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando…

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!

(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

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