Em livro, Mandetta diz que negacionismo de Bolsonaro foi a sua maior dificuldade no combate à pandemia

Bolsonaro “sempre arranjava um jeito de não participar” de reuniões

Valmar Hupsel Filho
Estadão

Dos problemas enfrentados por sua gestão no Ministério da Saúde nas ações de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta aponta o que na sua opinião foi o principal deles: a postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo Mandetta, se o presidente liderasse a adoção de protocolos estabelecidos pela pasta para preparar o sistema público de Saúde e a população, o Brasil certamente não estaria entre os países com o maior número de vítimas da doença.“Poderia ter sido diferente, para melhor”, disse Mandetta, que lançou nesta sexta-feira, dia 25, o livro “Um paciente chamado Brasil”, no qual relata, em primeira pessoa, os últimos 87 dias de sua gestão na pasta.

ISOLAMENTO SOCIAL – No período, passou a ser a principal voz na defesa do isolamento social como forma de atenuar efeitos da pandemia, ao contrário do que defendia o presidente. Com isso, ganhou popularidade, provocou ciúme de Bolsonaro e deixou o governo credenciado para as discussões sobre eleições de 2022 em seu partido, o DEM.

O livro, segundo ele, foi escrito na quarentena de seis meses imposta a ministros que deixam o governo, “para que as pessoas entendam que, por mais bem-intencionadas que sejam seus trabalhos, a política é necessária.” Ao analisar as decisões políticas, faz mea-culpa e critica a Organização Mundial de Saúde (OMS) por relutar em classificar a covid-19 como emergência sanitária mundial.

O foco principal das críticas, no entanto, é Bolsonaro, descrito como alguém em negação diante do agravamento da doença. “Primeiro ele negou a gravidade da covid-19, falando que era só uma ‘gripezinha’. Depois ficou com raiva do médico, ou seja, de mim. Depois partiu para o milagre, que é acreditar na cloroquina”, escreve.

DESCULPAS – Mandetta relata que, antes mesmo do primeiro caso no País, tentou por diversas vezes apresentar dados, projeções e medidas de prevenção a serem tomadas. Mas, segundo ele, o presidente “sempre arranjava um jeito de não participar”. Nas reuniões ministeriais, afirma, não tinha espaço para falar.

Segundo o ex-ministro, Bolsonaro só viu os dados em uma ocasião, na reunião no Palácio do Alvorada, em 28 de março. Naquele dia, o País registrava 92 óbitos por covid-19. Mandetta diz que apresentou três projeções – que estimava de 30 mil a 180 mil óbitos por covid-19 no País.

Na ocasião, diante dos ministros militares, Mandetta chegou a perguntar se o presidente estava preparado para ver caminhões do Exército carregando cadáveres, como havia acontecido na Itália. “Depois de eu ter ficado por uma hora e meia oferecendo todos os elementos que provavam a gravidade do problema, ele mostrou que não estava nem um pouco convencido.”

AGLOMERAÇÃO – Naquele dia, Bolsonaro disse: “Infelizmente, algumas mortes terão. Paciência”. No dia seguinte, o presidente foi a Taguatinga e provocou aglomeração ao circular pelo comércio local. Mandetta diz que naquela reunião, os demais ministros já estavam convencidos de que o presidente não deveria seguir pelo caminho da negação.

Mas, como exemplo de que o governo negligenciou medidas de prevenção, relata que o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, participou da reunião 10 dias depois de ser diagnosticado com covid-19 – ignorando o protocolo que estabelece quarentena de 14 dias. O Brasil registrou na quinta-feira, 24, mais de 139 mil óbitos por covid – o que aproxima o País da estimativa mais pessimista feita pelo ministério da Saúde em março.

GRAVAÇÃO – No livro, Mandetta acusa o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, do que ele chamou de “pecado mortal” na política. Mandetta afirma que, em 2016, quando Onyx era deputado e relator das “10 medidas contra a corrupção”, ele lhe confessou ter gravado parlamentares durante uma reunião na casa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Segundo Mandetta, na ocasião Onyx era pressionado por parlamentares para alterar o texto original, proposto por procuradores da Lava Jato – e era este o teor das conversas supostamente gravadas. O clima era de articulação pela substituição de Onyx na relatoria. Mandetta escreveu que Onyx lhe mostrou a gravação e fez ameaças aos parlamentares de que, se a pressão continuasse, iria vazá-la para a imprensa.

Mandetta relata que contou isso a Maia, e o presidente da Câmara recuou de tirar Onyx da relatoria. Dias antes, Onyx havia sido flagrado em gravação articulando a saída de Mandetta do ministério. Procurado, Onyx não respondeu.

11 thoughts on “Em livro, Mandetta diz que negacionismo de Bolsonaro foi a sua maior dificuldade no combate à pandemia

  1. Parece que o Bozonaro vai escrever um livro sobre seu governo ao sair em 2022. O Queiroz já foi convidado para escrever o prefácio. Deve ser autobiográfico. O título ainda não foi escolhido mas há tende a ser “Um Idiota na Intimidade”.

  2. Esse aí, que aproveitou a pandemia para tirar proveito político dando uma de estrela, foi atropelado pelo instinto patriótico do Presidente, preocupado com o bem-estar do povo brasileiro. Pode ser que se eleja vereador no reduto eleitoral controlado pela sua família.
    Enquanto a caravana do Bolsonaro segue impassível para a consagração, Mandetta fala da vida alheia e joga a culpa dos seus erros nos outros.

  3. Os dois “líderes” das nações que divulgavam a Cloroquina como salvadora, além de resolver unha encravada, mau olhado, más intenções, amor perdido, Estados Unidos e Brasil, registram o maior número de óbitos no mundo!

    Americanos com 205 mil vítimas fatais;
    brasileiros somam 141 mil mortos.

    A Índia está perto de 100 mil e o México tem 75 mil óbitos.
    Até domingo, certamente, o planeta terá um milhão de pessoas que morreram vítimas do coronavírus!
    Hoje, 985 mil vítimas fatais.

    O presidente foi irresponsável ao tratar da pandemia, pois desde o início a desprezou na sua gravidade e mortes, em consequência.
    Aliás, não preciso ir longe, basta a gente ver a cara de idiota que estampa a sua declaração, que muitos morreram usando máscaras até para dormir.

    Inconsequente, instável emocionalmente, sintomas de paranoia porque vive se queixando de perseguição, Mandetta foi claro ao revelar Bolsonaro nos bastidores, uma pessoa perdida entre seus próprios pensamentos.

    Não sei se atingiremos 200 mil mortos, como os americanos já os contabilizam; penso que chegaremos a 170/180 mil óbitos até dezembro, que, convenhamos, trata-se de uma tragédia imensurável!

    Talvez quem ultrapasse os Estados Unidos seja a Índia.
    Ela rapidamente ultrapassou o México e deve atingir 100 mil até domingo.
    Pela quantidade de habitantes, e uma nação com graves problemas de poluição, os indianos poderão sofrer uma tragédia incomparável na sua história.

    Lamento muito, pois tenho um apreço especial pela Índia, um país forjado na luta, que ainda convive com as castas, com o politeísmo – não que a religião seja problema -, com a falta de saneamento básico, independente do seu nível educacional excelente.

    “A composição étnica da Índia é bastante heterogênea, existindo um grande número de agrupamentos culturais, o que caracteriza a grande diversidade e miscigenação existente nesse país. A única região do mundo com uma diversidade étnico-cultural maior do que a dos indianos é o continente africano.

    Apesar dessa pluralidade, há três principais denominações culturais que fazem parte do território desse país: os Hindus (com mais de 70% da população), os Drávidas (com 25%) e os Mongóis (que juntamente a outras etnias compõem 3% dos habitantes).

    Como resultado dessa miscigenação, existem no país 18 idiomas oficiais, dos quais os principais são o Inglês (utilizado para negócios comerciais e burocráticos) e o Hindi (falado por 30% da população).”

    (https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/populacao-India.htm#:~:text=A%20composi%C3%A7%C3%A3o%20%C3%A9tnica%20da%20%C3%8Dndia,indianos%20%C3%A9%20o%20continente%20africano.)

    Enfim, já não bastam os problemas que temos, ainda nós nos presenteamos com um Bolsonaro.

    Lá pelas tantas, sabe-se lá, se não somos parte da reencarnação dos gregos, então somos os autores do “presente de grego”, que ocasiona prejuízos incalculáveis para quem o recebe!

    Ou, os gregos são os petistas, que nos deram esse cavalo porque somos os troianos, razão pela qual até agora acham graça da eleição que colocou Bolsonaro no Planalto.

  4. O “tosco” renega até sua formação militar; pois não tem disciplina seja por que motivo for.
    Não respeitou as orientações médicas e até as de “bom senso” durante sua recuperação pós cirúrgica; não respeitou as recomendações dos especialistas mundiais e nacionais no caso da pandemia; mesmo discordando; tinha a OBRIGAÇÃO de usar os epi’s indicados pelo seu ministério da saúde e por aí vai.
    Votei no ‘tosco’ e o pior é que olhando para trás e vendo o quadro; teria que votar nele novamente.

  5. Gostei da postura do Mandetta como ministro. Mas, lançar livro, agora, relatando episódios da sua gestão, na tentativa de merecer votos em algum tipo de eleição, creio ser tolice. Pouco adiantará depender do livro se pretende võos maiores na politica.

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