Em meio ao desmatamento e queimadas, Salles passa mais dias a trabalho em SP do que no Pantanal e na Amaznia

Charge do Nani (nanihumor.com)

Danielle Brant e Renato Machado
Folha

Em um ano marcado por aumento no desmatamento e nas queimadas na Amaznia e no Pantanal e pela consequente presso internacional sobre o pas, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passou mais dias em compromissos de trabalho em So Paulo do que em todas as outras viagens feitas em 2020.

Desde o incio do ano, as chamas j consumiram 21% do Pantanal. Na Amaznia, o desmatamento cresceu 34% de agosto de 2019 a julho de 2020, perodo considerado como referncia pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

EVENTOS E REUNIES – At setembro, Salles esteve em eventos e reunies na capital paulista pelo menos em 25 dias. Na regio da Amaznia, foram quatro dias, e no Pantanal, outros dois. Ou seja, o ministro passou quatro dias em So Paulo para cada dia em uma rea afetada por queimadas ou desmatamentos.

O levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo na agenda disponibilizada no site do Ministrio do Meio Ambiente levou em conta apenas os compromissos oficiais. No foram consideradas viagens pessoais, uma vez que o ministro natural de So Paulo.

PANDEMIA – Como esperado, a pandemia afetou o ritmo de viagens do ministro. Em maio, Salles manteve agendas pblicas apenas em Braslia. Em junho, houve uma viagem para Florianpolis (SC), onde esteve para participar da assinatura de renovao de concesso do uso do parque ecolgico de Crrego Grande.

Em seus compromissos em So Paulo, ele concedeu entrevistas, acompanhou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em eventos, encontrou-se com religiosos e manteve agenda na superintendncia local do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renovveis). Houve compromissos frequentes com representantes do mercado imobilirio. Apenas nos ltimos trs meses, Salles manteve seis agendas com o setor, entre almoo, reunies e participao em eventos.

Na segunda-feira, dia 28, o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) aprovou uma resoluo que na prtica eliminou outras legislaes e reduziu a proteo para reas de restingas, em regies litorneas, e tambm em torno de reservatrios de gua. As medidas beneficiam o mercado imobilirio, que tem interesse em construir empreendimentos nessas regies.

S UM LADO – “A atividade econmica, o dilogo com o setor empresarial legtimo. O problema que a situao est desbalanceada, porque o ministrio est ouvindo um lado s”, afirma Carlos Bocuhy, presidente do Proam (Instituto Brasileiro de Proteo Ambiental).

“Mas a lgica da atual gesto justamente neutralizar o controle social, no atender a demanda da sociedade civil. O Conama seria o espao para dilogo, mas foi destrudo pela atual gesto”, completa. Bocuhy se refere ao decreto de maio de 2019 que reduziu o nmero de conselheiros, principalmente de representantes da sociedade civil. Na prtica, o novo formato do conselho deu amplo poder para o ministrio aprovar medidas de seu interesse.

Representantes de entidades ligadas Amaznia defendem que o ministro visite mais a regio. “Isso essencial para que o ministro possa compreender a complexidade da realidade amaznica, incluindo os vetores e agentes envolvidos no desmatamento, incndios florestais, garimpo e extrao ilegal de madeira, bem como as solues para a grave crise que vivemos na Amaznia”, diz Virgilio Viana, superintendente-geral da FAS (Fundao Amazonas Sustentvel).

CRTICAS – As viagens a So Paulo so criticadas pelo Legislativo. “A agenda de Salles a prova objetiva do quanto despreza a Amaznia e o Pantanal”, afirma o deputado Alessandro Molon (RJ), lder do PSB na Cmara dos Deputados. “Enquanto os dois biomas so devastados, o ministro do Meio Ambiente ainda planeja o desmonte do Ibama e do ICMBio, demonstrando que sua prioridade o enfraquecimento dos rgos de proteo e a flexibilizao das normas ambientais. um antiministro do Meio Ambiente.”

O Ministrio do Meio Ambiente afirma que parte das agendas do ministro em So Paulo se deve ao fato de ele ser natural da capital paulista. Por isso, ao saberem que estar na cidade, interessados buscam marcar audincias. “Nossa agenda supervariada, procuramos receber todos os setores. Se o terceiro setor reclama que eu no os recebo, talvez seja porque eles no pedem para serem recebidos”, afirma Salles.

LEVANTAMENTO - O Ministrio encaminhou um levantamento de toda a agenda presencial do ministro -incluindo os compromissos em Braslia e no apenas nas viagens, foco desta reportagem. Os dados mostram que Salles manteve, em 2020, 63 compromissos com autoridades, 29 encontros com o terceiro setor, 24 entrevistas para a imprensa, 13 com representantes do agronegcio e dez encontros com o setor industrial.

Contrariando ONGs que relatam falta de dilogo com o ministrio, a Associao Novo Encanto de Desenvolvimento Ecolgico manteve audincias com Salles no ltimo ano. “Pedimos audincias para esclarecimentos a respeito das manchas de leo no Nordeste, sobre desmatamento e sobre a continuidade da agenda do Conama”, afirma Carcius Azevedo dos Santos, diretor executivo.

Santos diz que o ministro sempre se mostrou disponvel e que sua ONG mantm postura independente votou, por exemplo, contra a proposta que reduziu proteo nas reas de restingas. “Em um dos encontros, eu fiz crticas fala da boiada”, disse, sobre declarao de Salles, em reunio ministerial, de que aproveitaria a pandemia do novo coronavrus para “passar a boiada” na legislao ambiental.

8 thoughts on “Em meio ao desmatamento e queimadas, Salles passa mais dias a trabalho em SP do que no Pantanal e na Amaznia

  1. A Imprensa – temos no Brasil o SJPRJ em Niteroi – Rio, uma entidade de riqueza, seriedade, credibilidade e qualidade para todos da Imprensa – pode ser para o sudeste e ate nacional – s agradecemos na Hora Certa – 2020 – e tem apia.

  2. O Tarcisio, a Teresa, o Marinho, o Guedes e alguns outros ministros, graas ao Ricardo Salles, podero ajudar no to esperado desenvolvimento da regio amaznica. o MMA merece um trofu pelo seu emprenho em prol dos 20 milhes de brasileiros que vivem na regio.

  3. O ttulo da matria j comea errado, o ministro no trabalha ele s atrapalha. Talvez se no trabalhasse, ficasse sem fazer nada seria bem mais til ao Brasil e ao meio-ambiente.

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