Em plena crise nuclear, o ministro de Minas e Energia irresponsavelmente defende a construção de mais 4 usinas no Brasil. Por que não te calas, Lobão?

Carlos Newton

Até o acidente de Chernobyl, na Ucrânia, a energia nuclear era considerada o método de geração mais seguro, na comparação com hidrelétricas e termoelétricas. Os defensores do uso da opção nuclear apresentavam dados impressionantes, mostrando os milhares de mortes por rompimento de represas de hidrelétricas e a poluição causada pelas termoelétricas, movidas por queima de óleo combustível, carvão, madeira e outros materiais. Chegavam a argumentar que uma usina nuclear seria tão segura quanto um avião que não levantasse vôo, vejam só o exagero.

Houve outros acidentes antes de Chernobyl, mas nenhum de expressiva gravidade. O primeiro caso preocupante, em 28 de março de 1979, ocorreu na usina nuclear de Three Mile Island, nos Estados Unidos. Foi causado por falha do equipamento devido o mau estado do sistema técnico, agravada por erro operacional, com decisões e ações erradas tomadas por funcionários despreparados. Mas nao morreu ninguém.

Chernobyl, em 26 de abril de 1986, foi um fato concreto. Um relatório das Nações Unidas, divulgado em 2005, atribuiu 56 mortes até aquela data – 47 trabalhadores acidentados e nove crianças ucranianas que tiveram câncer da tireóide – e estimou que cerca de 4 mil pessoas também teriam morrido de doenças relacionadas com o acidente. Foram muito mais, mas ficaram ocultas pela censura à imprensa soviética. Além disso, a nuvem radioativa atingiu a Europa, ninguém sabe quantas pessoas foram atingidas em outros países e tiveram sequelas.

Mas os defensores da energia nuclear insistiram, argumentando que o acidente era fruto da desorganização e da corrupção da antiga União Soviética, o que não deixava de ser verdade. Criou-se então um mito – as usinas soviéticas e da Cortina de Ferro não eram confiáveis, mas no resto do mundo a energia nuclear continuava sendo a mais segura e econômica, já que os geradores podem ser instalados junto ao centro consumidor, sem maiores gastos em linhas de transmissão, como é caso de Angra dos Reis, que abastece Rio e São Paulo.

Mas agora, com o acidente no Japão, um país mais do que acostumado com terremotos, o cenário muda completamente, mostrando a fragilidade do sistema. E o uso da energia nuclear passa a ser praticamente indefensável, diante do risco em potencial. Países como Japão, França ou Alemanha não têm alternativa. Estão condenados ao uso da energia nuclear, o que envolve não somente os riscos de acidentes nucleares, mas também a questão do lixo atômico, que vai se acumulando inexoravelmente, deixando o gravíssimo problema para as próximas gerações resolverem.

Mas países como o Brasil têm de colocar o pé no freio e repensar sua política energética. E o que acontece? O ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, com aquela irresponsabilidade que Deus lhe deu, se apressa em dizer que o Brasil vai construir mais quatro usinas nucleares. Por que não te calas, Lobão?

Será que o pai do Lobinho sabe que, em termos de geração de energia, o Brasil é um dos países com mais alternativas? O potencial hidrelétrico de grandes aproveitamentos está longe se esgotar, sem falar do que pode ser gerado em termos de médias e pequenas usinas. Existe também potencial termoelétrico com uso de bagaço de cana e rejeitos de madeira, as possibilidades são múltiplas, mas nestes casos é necessário instalar filtros de poluição.

Há, por fim, excelentes alternativas limpas, como a energia eólica, que começa a ser bem aproveitada no Nordeste e no Sul, e a própria energia solar, cujo uso pode se ampliar expressivamente, de forma secundária, como fonte auxiliar de captação e geração. Tudo é uma questão de interligação de sistemas, uma prática na qual o Brasil já tem grande especialidade.

Angra dos Reis, um dos locais mais aprazíveis do mundo, corre riscos, não há dúvida. Em caso de acidente nuclear (que Deus nos livre), não há sequer um plano confiável de evacuação da cidade, cuja única saída é a rodovia Rio-Santos. As possibilidades de acidente em Angra são bem menores, não só devido à praticamente inexistirem terremotos, mas também devido à excelência da tecnologia das usinas, mas quem pode dar garantias totais?

Vamos manter o Brasil fora disso, mesmo que saia mais caro construir novas hidrelétricas e utilizar fontes alternativas. Vamos nos livrar das novas usinas nucleares. E se for possível, vamos nos livrar do próprio Lobão. Embora isso seja extremamente difícil, dado o prestigio de seu padrinho José Sarney.

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