Em Portugal, da Revolução dos Cravos à Capela dos Ossos

A Capela dos ossos nos obriga a fazer reflexões

Sandra Starling
O Tempo

Fui algumas vezes a Portugal, mas nunca havia visitado Portugal. Isto é, lá passava indo para outras terras. Dessa vez, quis mesmo ir a Portugal. E fiz o de sempre: li antes, li durante e perguntei bastante. Tive também a sorte de ter a companhia do sr. Joaquim Henriques, que, junto a seu filho Miguel, consegue fazer de uma viagem uma longa viagem história adentro.

Vou ter de contar muita coisa, mas preciso começar pelo que mais me emocionou. Cortei a visita habitual de peregrinos a Fátima e a substituí por uma visita a Grândola, Vila Morena, da canção de Zeca Afonso que serviu de senha na madrugada do dia 25 de abril de 1974 para que os capitães de várias unidades iniciassem o movimento que os conduziu a derrubar o sucessor de Salazar. Acorrendo aos milhares, lotando ruas e praças, o povo passou a saudar seus libertadores até que uma florista ofereceu um cravo a um soldado, e este o colocou na boca de sua espingarda. Em abril, florescem cravos em Portugal. A capital vestiu-se de cravos vermelhos, e aí nasceu a “Revolução dos Cravos”, que libertou um povo submetido até ali a 40 anos de um regime sanguinário e imperialista, colonizador de boa parte da África e Ásia.

Cada detalhe dessa saga daria mil narrativas. Ainda estou a devorar as intrincadas idas e vindas, opondo os capitães aos generais direitistas que teimavam em se agarrar ao poder centralizador e inquestionável do passado. Aos capitães, a autodeterminação dos povos deixara havia muito de ser uma questão militar para se transformar em questão política. A cada nova mudança na Constituição inicial, menos poderes se dava ao povo, contrariando a primeira estrofe de “Grândola, Vila Morena”: “Dentro de ti é o povo quem mais ordena”.

CORRUPÇÃO LÁ E CÁ

Os anos se passaram. Encontro hoje um país que vai muito bem em suas estradas, em seu aeroporto de Primeiro Mundo, nos arranjos dos ricos e na corrupção que grassa lá, como cá. Mas o povo vai mal. Como cá também. E lá os culpados são a “troica”, o FMI, a Comissão Europeia junto com o Banco Central Europeu e o governo. Por todos os lados, cartazes pedem o retorno ao escudo – a moeda portuguesa de antes –, em substituição ao euro. Os salários estão arrochados, e as aposentadorias, diminuídas. Muitos têm de dividir seus lares com turistas, que pagam pouco, mas que ajudam na manutenção do dia a dia. A esperança, ainda pequena, muito pequena, surge com o Bloco de Esquerda e o Livre/Tempo de Avançar, que substituem o velho PS e os comunistas – embora ainda tenham, ambos, muito apelo eleitoral.

De todos, lembrei-me da “troica”, do governo local, dos velhos partidos, das astutas lideranças políticas ao visitar em Évora um monumento arrepiante: a “Capela dos Ossos”. No antigo convento de são Francisco, há uma capela construída com ossadas, caveiras e restos mortais trazidos pelos frades do cemitério da cidade. Alguns desses ossos, muito pequenos, dizem, teriam pertencido a escravos subnutridos.

No frontispício, o que deveria ser meditado diariamente pelos poderosos do mundo: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos aguardamos”. Assim seja!

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