Em rio de piranha, jacaré nada de costas

Carlos Chagas 

O ex-presidente Lula exortou os políticos acusados de atos de corrupção a se apresentarem de casco duro. Presume-se que tenha falado para políticos injustamente acusados, não propriamente para Antônio Palocci, Alfredo Nascimento, Pedro Novais e Wagner Rossi, para começar. Foi infeliz a lição do primeiro-companheiro, ministrada em Salvador, Bahia. Porque casco duro não evita perfurações, ainda que possa protelá-las. Precisamente como aconteceu com os referidos e indigitados ex-ministros. Eles deveriam ter presente a lição do saudoso senador Vitorino Freire, mestre em imagens populares, para quem “em rio de piranha, jacaré nada de costas”.

Quase sempre os políticos corruptos, como, também, os corruptos sem ser políticos, conseguem escapar das malhas da lei. Não vão parar na cadeia. Mas ficam com o couro marcado, por mais duro que seja. Podem poupar a barriga mole, nadando de costas, e por isso custam a chegar à outra margem. Fica fácil identificá-los, ainda que não puni-los. O que não dá para entender é o Lula sair em sua defesa. Parece estar defendendo seus dois mandatos, quando muita gente meteu a mão.

À exceção de Pedro Novais, os demais catapultados pela opinião pública, mais do que pela presidente Dilma, serviram ao governo Lula. As irregularidades de que são acusados começaram bem antes. Resistiram por conta do casco duro, ainda que no fim tivessem suas entranhas abertas. Não haverá que comparar a imprensa responsável pelas denúncias a um bando de piranhas, segundo a imagem do ex-senador pelo Maranhão. Melhor seria admitir que os meios de comunicação cumprem o seu dever.

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MAIS UMA

Outro exemplo da distorção das greves que nos assolam. Esta semana, depois dos ônibus em Brasília, dos professores em Belo Horizonte, dos carteiros em todo o país, e dos policiais civis no Nordeste, são os médicos contratados pelos Planos de Saúde que paralisam suas atividades. Nem haverá que discutir a razão dos grevistas. Tem toda. São explorados, seja pelas empresas, seja pelo patrão-mor, o governo. Carecem de imaginação. Entram em greve contra o povo. Prejudicam os menos favorecidos e raramente abalam os interesses dos responsáveis por suas agruras. O povão é o maior atingido, pois fica sem transporte, escola para os filhos, correspondência e segurança, mas nem por isso a classe média permanece imune.

No caso dos médicos, salta aos olhos a distorção. O sujeito paga uma fábula para os Planos de Saúde, é explorado por eles, submete-se a regras e a exigências descabidas e, quando vai atrás da compensação, bate com o nariz na porta dos consultórios. Falta, nessa equação abominável, que o Estado cumpra o seu dever. Que intervenha nas relações entre empregado e empregador, mesmo sendo ele, muitas vezes. Se os Planos de Saúde exorbitam, cobrando muito dos usuários e pagando pouco aos médicos, pau neles. O que não dá é assistir a falência do sistema criado precisamente para suprir as deficiências da estrutura pública.

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CAPACIDADE LIMITADA

No discurso de ontem, pela abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, Dilma Rousseff foi extremamente realista. Elogiou o bom momento que o Brasil atravessa, na economia, mas falou que nossa capacidade de resistência diante da crise internacional não é ilimitada. Deixou claro que os responsáveis são os países ricos, ainda que preferindo olhar para a frente, sem acusá-los de per si.

Também foi corajosa ao defender a quebra de patentes de remédios de primeira necessidade para baratear o seu preço. Quando voltar, deveria prestar atenção na venda de remédios no Brasil, produzidos em maioria por laboratórios estrangeiros. Estão aumentando muito mais do que a inflação. A viagem da presidente brasileira vem obtendo sucesso na medida em que ela se expõe e expõe o país, ainda que resultados práticos pareçam pequenos. O auditório não entende muita coisa, apesar das traduções simultâneas, e a imprensa americana não está nem aí. Apesar de a Newsweek ter apresentado Dilma na capa, poucos jornais dedicaram mais do que uma notinha ao pronunciamento de ontem.

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ESQUECIMENTO?

Que a imprensa americana e a mundial tenham dado pouca atenção à fala da presidente Dilma nas Nações Unidas, compreende-se. O que não dá para entender, porém, é porque a TV Brasil, estatal com cabeça de rede em Brasília e ramificações nas principais capitais, tenha solenamente ignorado a participação da presidente brasileira na sessão de abertura da Assembléia Geral. As emissoras comerciais ainda deram mínimos flashes do início do discurso, aproveitando depois espaços maiores em seus telejornais. Só que a televisão criada para tornar-se a voz do poder público nacional preferiu transmitir desenhos animados e sucedâneos. Esquecimento?

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