Em trama cativante, Zuenir Ventura mistura romance de costumes e História Mundial

Júlia de Aquino
Instagram literário @juentreestantes

“A cada momento eu era acordado pela perturbadora cena que presenciara no fundo da farmácia” – diz Zuenir Ventura em Sagrada família, que é uma quase-autobiografia do autor. O livro, lançado em 2012, é uma excelente opção para quem deseja ler uma obra nacional leve e agradável. E Zuenir já adianta na epígrafe: “Só dez por cento é mentira. O resto é invenção”.

A leitura é muito boa. Comecei a ler sem saber o que esperar, mas sem dúvidas, por enquanto, é um dos meus favoritos de 2020.

CONTEXTO – Ele narra a história de uma família de forma cômica e repleta de encontros e segredos, numa pequena cidade nos anos 1940. Com maestria e bom-humor, o autor nos apresenta Florida, cidade fictícia extremamente conservadora e com hábitos característicos de cidades pequenas.

Quem gosta de História do Brasil e do Mundo, vai gostar ainda mais da narrativa. Isso porque ela se passa em plena II Guerra, e a história mostra um pouco o “clima” do país nessa época, com Getúlio Vargas no poder e diversas questões políticas permeando todos os relacionamentos sociais.

É sempre interessante ver como a mulher era vista na sociedade. E como Florida, o cenário principal, tem esse aspecto tradicionalista, tudo fica ainda mais “intenso” nesse sentido – a maneira como os personagens masculinos analisam as situações, a forma como as mulheres se comportam etc. Abaixo, alguns trechos do livro ilustram esse aspecto.

PERSONAGENS – O primeiro capítulo já começa muito bem. O jovem narrador, Manuéu (sim, com U, devido a um erro no registro do nascimento), torna-se muito querido ao longo do livro.

Mas não apenas o narrador é cativante dessa forma. Todos os personagens nos deixam completamente absorvidos pela trama, numa época em que o carisma contava para ascensão social. E o “emaranhado familiar” construído pelo autor e manifestado pelos personagens, é excepcional.

A hipocrisia é um aspecto marcante no livro, tanto nas atitudes das pessoas e das histórias narradas, como na cidade de modo geral. Ela permeia todos os acontecimentos, direta ou indiretamente. A leitura com um olhar mais crítico deixa o leitor, no mínimo, reflexivo em relação a algumas situações.

ELEMENTOS DA NARRATIVA – Quem curte finais inesperados vai adorar esse livro! Em resumo: trama bem construída, narrativa ótima, diálogos divertidos, desfecho surpreendente. Leitura que vale muito a pena! Confira alguns trechos:

  • “Por muito tempo escondi – até de mim mesmo – o que reluto em contar agora”.
  • “Eu me sentia importante participando daquele jogo secreto, sendo cúmplice de uma trama que eu não sabia qual era, mas que tinha um confuso sabor clandestino.”.
  • “O marido, como muitos dessa época, dividia sua vida com outra, com quem tinha um filho pequeno, mas de vez em quando dormia em casa. Assim, mantinham o que era importante: as aparências”.
  • “- Leninha, o Douglas me deu um beijo! – falou baixinho, com medo de que a mãe escutasse.- E como é que você deixou ele fazer isso? – Deixei porque hoje completa um ano que começamos a namorar. Quis dar a ele esse presente. – Mas mesmo sem saber se ele vai se casar com você?”.
  • “O jornal me fez sentir orgulho da minha sagrada família. A realidade, porém, guardava outra revelação, ainda mais chocante”.
  • “Minha tia tinha opiniões tão firmes quanto seu andar. Seu rigoroso código moral se aplicava não só às filhas, mas também às irmãs, cunhadas, vizinhas e conhecidas. Só ela sabia como devia se comportar uma moça de família. Estava sempre com a língua em riste para derrubar reputações femininas”.

Livro: Sagrada família
Autor: Zuenir Ventura
Editora: Alfaguara
Páginas: 233

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