EM VEZ DE ANULAR, LEMBRAR SEMPRE

Carlos Chagas

Coincidindo com as homenagens prestadas pelo governo memria de Joo Goulart, o Congresso decidiu anular a sesso realizada no dia 2 de abril de 1964, quando o senador Auro de Moura Andrade considerou vaga a presidncia da Repblica. Tratou-se de uma violncia monumental, primeiro porque a Constituio no previa essa figura, depois porque Jango encontrava-se em territrio brasileiro, no Rio Grande do Sul.

Coisas de um pas poca ainda despreparado para a democracia. Ao das elites organizadas em torno de seus privilgios, assustadas com a possibilidade de reformas de base capazes de mudar nosso perfil.

Lavou a alma nacional a cerimnia realizada dias atrs, com as foras armadas batendo continncia para os restos mortais do presidente que preferiu o exlio ao derramamento de sangue brasileiro.

S no d para entender o exagero fantasioso dos deputados e senadores de hoje, tentando apagar o passado. Deveriam ser distribudos no Congresso centenas de exemplares do magistral 1984, de George Orwell. No livro, conta-se o drama de um cidado ingls cujo trabalho era reescrever a histria de seu pas de acordo com as convenincias polticas do momento. Mudava-se as edies anteriores do Times conforme o Grande Irmo estava em guerra com outras naes. Os inimigos de ontem passavam a aliados de hoje e os textos eram refeitos quase todos os dias.

preciso recordar para sempre o horror que foi a deposio de um presidente da Repblica atravs de um golpe militar. Como imaginar que no tenha acontecido aquela sesso do Congresso? Lembr-la obrigao de todos para que jamais se repita. Consider-la nula, uma fantasia. Algum j escreveu ser o passado o nosso maior tesouro, no porque nos dir o que fazer, mas precisamente pelo contrrio: o passado sempre nos diz o que evitar…

O ESPRITO DAS MASSAS

Est para ser desenvolvido um estudo a respeito do esprito das massas, no Brasil. Do povo. Uma anlise aprofundada de como e porque formam-se tendncias e tomam-se as decises na maior parcela da sociedade.

Por exemplo: ningum prestou mais servios democracia e ao futuro do pas do que o dr. Ulysses Guimares, o grande artfice da Constituio de 1988. Era aplaudido onde quer que fosse. Um ano depois, candidato presidncia da Repblica pelo ento maior partido nacional, o PMDB, chegou em stimo lugar, atrs at do dr. Enas.

Se quiserem exemplo mais antigo, inverso, tome-se Getlio Vargas. Durante o perodo em que foi ditador, de 1937 a 1945, aconteceram horrores, desde a tortura praticada nas delegacias de ordem poltica e social at a censura imprensa, a submisso dos tribunais e a inexistncia do Congresso. Pois bem: candidatou-se em 1950 e foi eleito com espetacular votao.

Nos dois casos, o povo decidiu. Rejeitou Ulysses, aclamou Getlio. Diro muitos que um perdeu por ser velho, ao menos na aparncia, ou porque o bem feito por ele era retrico, no papel. O outro ganhou, uma explicao, porque havia concretizado reformas sociais ligadas vida de cada um, do tipo salrio mnimo, jornada de oito horas, frias remuneradas, penses, aposentadorias e muita coisa a mais.

Conclui-se que o sentimento do povo forma-se atravs de fatos concretos, realizaes palpveis? Pode ser. Nessa hiptese, emerge na relao dos candidatos presidenciais uma figura muitas vezes considerada mas ainda no formalizada: o ministro Joaquim Barbosa. Em sua bagagem ele trs a condenao dos mensaleiros,

3 thoughts on “EM VEZ DE ANULAR, LEMBRAR SEMPRE

  1. “Um pas se faz com homens e livros- M. Lobato”
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    Incluo uma complementao: a histria de “Um pas se faz com homens e livros”.
    Sem conotao tica de bem ou de mal fcil perceber que a internet carrega consigo um aspecto negativo: a fluidez que leva a uma assustadora superficialidade e consequente irresponsabilidade. Nas relaes humanas, o exemplo extremo de anttese constitudo pelo conflito; mas a lgica dicotmica, por outro lado no estranha prpria viso tradicional, religiosa ou metafsica, inclusive do mundo natural (luz-trevas, ordem-caos e, no limite, Deus-demnio) N. Bobbio
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    A curta informao sobre a palhaada da anulao da vacncia do cargo Presidencial ento ocupado em 1964 por Jango bem retrata o infeliz momento que nossas instituies polticas atravessam nas mos de despreparados, oportunistas e aproveitadores. Muitos deles criminosos contumazes e sentenciados.
    Sequer o mrito dessa anulao pode ser analisado. Qual? Mudar a histria sem homens e livros e com condutas figuradas deve envergonhar at mesmo um homem da estatura poltica de Jango que a prpria histria o desenha com uma raridade nos dias presentes: seriedade ideolgica. Envergonha, in extremis, a nao brasileira submetendo-a ao escrnio do mundo civilizado e desacredita o Estado Constitucional e tripudia sobre a lei e a ordem solapando princpios e valores culturais da alma nacional.
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    Mais do que uma sandice de marginais da representao poltica, uma abusada e desnecessria provocao tolerncia de um povo e desmoralizao das Foras Armadas instituio que lhe garante a to banalizada soberania estranha a ideia totalitria.

  2. H uma explicao bem mais simples para se comparar a eleio de Getlio Vargas e o escorraamento pelo voto popular de Ulisses Guimares;
    Para sorte do 1 a televiso mal existia na epoca de sua eleio. J o 2 que mesmo lembrando na campanha a figura do velhinho mal conseguiu passar do 7 lugar. Como produtos de marketing tanto Getlio como Ulisses realmente no tinham a menor chance perante o gal “Collor”.

    Mas na minha humilde opinio Ulisses pagou caro pela sua ambio, porque mesmo reconhecendo tempos depois a superioridade do regime parlamentarista, como presidente da constituinte fez com que fosse aprovado o mal fadado presidencialismo, que est a at hoje infernizando o pas.Diga-se de passagem que a existencia de mensalo e outros escandalos um produto tipico desse PRESIDENCIALISMO DE COALIZO, onde temos um presidente ou “PRESIDANTA” que pensa que manda e um congresso pronto a fazer qualquer negcio para se locupletar e se manter mamando no poder sob o partido que for.

  3. Posso estar enganado, mas, at onde sei, Ulysses apoiou o golpe de 1964. Quanto s eleies de 1989, realmente, ficou atrs de muita gente, mas no do candidato do PRONA. Quem ficou atrs de Enas foi o Brizola, em 1994.

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