Embaixatriz do Brasil era da CIA e contratou Juanita Castro em Havana

Pedro do Coutto

Já está nas livrarias do país um documento, Editora Planeta, que se reveste de importância histórica, e deve repercutir com intensidade no mundo político e diplomático. Trata-se das memórias de Juanita Castro, irmã de Fidel e Raul, totalmente rompida com ambos, e que a partir de certo momento da revolução cubana passou a trabalhar para a CIA. As memórias foram narradas em detalhes à jornalista mexicana Maria Antonieta Collins, que transformou o depoimento, dado no final de 2009, num livro primoroso.

Leitura leve e fácil, ordem direta, como são os textos dos profissionais de imprensa. Adversária ferrenha dos irmãos e principalmente de Che Guevara, que apresenta como homem impiedoso, mandante frio e cruel de centenas de execuções sumárias de prisioneiros, sabia-se no cenário internacional que Juanita trabalhava para o governo dos Estados Unidos. Mas não se sabia, sabe-se agora, que tal missão foi agenciada pela embaixatriz Virgínia Leitão da Cunha, mulher do embaixador Vasco Leitão da Cunha. Que, anos depois, foi ministro do governo Castelo Branco na primeira fase da ditadura militar que derrubou o presidente João Goulart, em 64.

Sob o prisma relacionado diretamente ao nosso país, o ponto de inflexão do dossiê Juanita Castro começa na página 254 e se estende ate a 271. Percorrendo o relato, estamos em 1961, após a fracassada invasão da Baía dos Porcos, coordenada pela CIA, autorizada pelo presidente John Kennedy. Um erro colossal, inclusive de concepção. Como forças civis recrutadas aqui e ali poderiam enfrentar militares num confronto convencional? Impossível. Mas a Casa Branca encaixou a ideia. Resultado: o fracasso fortaleceu Fidel Castro; Alan Dulles, diretor da Agência, foi demitido. Sob novo comando, a CIA iniciou um processo de cooptações. Uma delas a da irmã de Fidel Castro.

Virgínia Leitão da Cunha já era amiga de Juanita desde 58. Inclusive a asilou na embaixada contra a perseguição de Fulgêncio Batista meses antes da vitória de Sierra Maestra em 59.A embaixatriz, (era impossível que o embaixador não soubesse) pediu que Juanita a visitasse na embaixada, bairro de El Laguito. A conversa começou com a informação queo presidente João Goulart avisara a Leitão da Cunha que o nomearia para embaixador em Moscou. Foi seu primeiro ato após reatar relações diplomáticas com a União Soviética.

Vê-se pelo relato que, com Vasco Leitão da Cunha na capital russa, e com Roberto Campos em Washington, Jango estava perdido em matéria de política internacional. Não tinha noção de onde estava pisando.

Mas esta interpretação, historicamente importante é outra questão. Voltemos ao livro.
Juanita, disse Virgínia, você não vai se arrepender. Juanita acreditou. Virgínia ressaltou: Temos que nos encontrar com eles. Mas não pode ser aqui, em Havana. Vamos à cidade do México. Está na página 256. Foram.

Vasco e Virgínia estavam hospedados no Hotel Caminho Real. O encontro foi lá, sem a presença do embaixador. A embaixatriz apresentou Juanita Castro a um norte-americano chamado Enrique. Nome falso, acentua Juanita nas memórias. O verdadeiro era Tony Sforza, o homem para Havana, para adaptar à situação o título do romancista Graham Greene, que inspirou um filme muito bom: Nosso Homem em Havana.

Depois surgiu no circuito o personagem Frank Stevens, também americano, extremamente fluente em espanhol, que se passava em Cuba por um jogador de cassinos. Juanita não revela concretamente sua missão, o que fazia, quem subornava, quanto recebia.

Afirma que, na capital cubana, através de ondas curtas, a partir do momento em que uma rádio tocava a Valsa Fascinação, composição de F.D.Marchetti, sucesso na voz de Nat King Cole, ela tinha que começar a remeter suas mensagens. Que mensagens foram essas? Um enigma.

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