EmPAEStelados no Rio de Janeiro

Jacques Gruman
 
 As pautas, demandas e reivindicações presentes nas manifestações não são ouvidas nem respondidas porque exigiriam reformas (urbana, política, social, entre outras reformas estruturais) que nenhuma força política no país hoje é capaz de encarar e liderar (Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista

Durante muitos anos, alimentei uma certeza definitiva, siderúrgica: jamais poderia viver em outra cidade que não fosse o Rio de Janeiro. Aqui nasci, aqui repousam minhas memórias afetiva e visual, aqui dou meus passos cansados em calçadas amigas. Apesar da descaracterização galopante dos espaços comuns, apesar da velha trilha sonora “cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”, balanço mas não caio. Mas que tá difícil, parceiro, ah, isso tá.

Para piorar, o balneário, que já foi a grande caixa de ressonância cultural e política do país, agora hospeda esbirros com forte odor fascista. De que modo classificar um grupo autodenominado Reage Flamengo, Queremos Nosso Bairro de Volta, que convocou manifestação para o Aterro ? São “justiceiros”, Ku Klux Klan sem capuzes pontudos, gente que está sempre à beira de um ataque de violência. Sob o pretexto perigoso e suspeito de perseguir bandidos, estes filhotes irados da classe média colocam p’ra fora seus preconceitos, seu mais absoluto desprezo pela construção da democracia (que não é fácil, mas não tem alternativa razoável), suas neuroses guerreiras.
O que acho assustador é que, desconfio, eles têm um apoio nada desprezível dos vizinhos. Por ora é velado, mas temo que linchamentos se naturalizem com a indiferença geral. Da mesma forma que o pagamento de propina para o guarda de trânsito ou o uso de bicicletas em espaços privativos de pedestres. Essa é a nossa cultura, o jeitinho que não faz mal a ninguém, alegarão os cínicos. O tempora, o mores.
LIVRARIA SÃO JOSÉ

Depois de saber que a livraria São José, uma espécie de patriarca dos sebos cariocas, está para fechar, resolvi dar uma volta pelo centro da cidade. Com a cabeça quente pelo iminente falecimento de uma instituição de quase oito décadas, acabei caindo na mais perfeita tradução do caos. Para deslanchar as obras do chamado Porto Maravilha, a prefeitura deu um nó nas principais vias centrais, infernizando a vida de centenas de milhares de cariocas. O que choca é o improviso da medida. Bastava olhar para perceber que os agentes de trânsito estavam completamente perdidos.

Os semáforos não foram adaptados para as mudanças. Não se providenciaram vias alternativas para escoar a maré de veículos. No meio da balbúrdia, o prefeito “descobriu” que há excesso de linhas de ônibus circulando em trajetos idênticos. Caramba ! Mais um pouco lhe soprarão nos ouvidos que há um poderoso lobby das companhias de viação (que devem ter desovado generosos recursos para sua eleição) e, com um pouco de sorte, descobrirá que a Curupira é uma lenda brasileira.

Alguns alegarão que não é possível fazer omelete sem quebrar os ovos, que os benefícios futuros compensarão os transtornos ocasionais, e outros trololós. Não acho que a revitalização de uma região degradada seja, em si, criticável. Cidades como Barcelona e Buenos Aires tomaram iniciativas semelhantes, com bons resultados. Minha questão é bem outra. O tecnocrata salvacionista, o populista engomado, quer entrar para a História como um segundo Pereira Passos. Ora, se quisesse o apoio da população, deveria ao menos debater em profundidade o que está por vir, socializar o conhecimento sobre os projetos, os custos e as vantagens, demonstrar que os lucros privados seriam compensados por ganhos expressivos para o povo (demonstração altamente duvidosa). Não basta o discursinho pré-fabricado para o telejornal.

DEBATER PRIORIDADES

Com transportes coletivos sucateados, educação pública em crise endêmica, saúde pública em estado de coma, um administrador democrático deveria debater prioridades e admitir eventuais equívocos. Adesão por convencimento é melhor do que caixas pretas. Sendo realista, seria pedir demais para uma administração que segue a escola Sérgio Cabral de governar, com pós-graduação em pirotecnia. Que o diga o secretário estadual de Transportes Júlio Lopes, que criou uma das imagens icônicas deste século: a gargalhada durante um dos incontáveis colapsos da rede ferroviária. Aqueles dentes expostos são o crachá da impunidade e do desrespeito.

O prefeito Paes apela para que a população deixe os carros em casa. Pelas barbas do profeta ! Por um lado, temos uma cidade planejada para veículos. Compare-se, por exemplo, a largura das calçadas de Montevidéu com as do Rio. Numas, o respeito pelos pedestres. Noutras, o arrocho que denuncia a prioridade para o transporte individual e todo o cortejo de irregularidades que ele incentiva (como o estacionamento em cima de calçadas exíguas). Por outro, o governo federal incentiva a demanda por automóveis, criando linhas de crédito e, com isso, afagando os delírios consumistas e, claro, cultivando potenciais eleitores.

O resultado: estudo da COPPE/UFRJ estima que a frota de carros do Rio deve ultrapassar 3 milhões até 2020, cerca de 50% acima dos números de hoje. Entre 2001 e 2010, o número de veículos, incluindo carros, motos, caminhões e ônibus, aumentou quase 30% na cidade. No mesmo período, as ruas ficaram com a mesma largura, o que só podia dar no que deu: engarrafamentos monstruosos, neurotização crescente no trânsito. Pedir aos proprietários que deixem seus carros na garagem, depois de bombardeá-los com estímulos ao consumo, é, no mínimo, cínico. Joguinho barato de estica e puxa.

Esses luminares da administração pública do Rio seguem, como disse antes, a escola Cabral, o autocrata viajante que fez a dancinha do lenço em Paris, usa helicóptero para se locomover na cidade que ele ajuda a destruir, é acusado de se locupletar do cargo para beneficiar empresários amigos, comanda uma polícia truculenta que barbariza as manifestações populares. Com o projeto das UPP fazendo água (poderia ser diferente, ficando apenas na espuma vistosa do policiamento, sem ações sociais complementares ?), ratos gordos que acompanham o Cabralzinho desde o início começam a pular fora do barco. Não demora e vão aparecer, de cara lavada, para os eleitores. Como se não tivessem sido cúmplices do descalabro por duas gestões seguidas. Como sempre, dando um Pezão no traseiro das nossas memórias.

Estão fazendo uma força danada para eu dar o fora. Resisto. Mas que tá difícil, parceiro, ah, isso tá.

3 thoughts on “EmPAEStelados no Rio de Janeiro

  1. Parabenizo, primeiramente, a elegância do articulista.

    Esta gente prova que o MP existe, mesmo, para o pobre e eventuais inimigos viscerais dos poderosos.

    E é de se ter em conta o poder de modo geral, sempre envolvento “Muitos pesos e muitas médias” como intitulei alhures (http://www.luisnassif.com/forum/topics/muitos-pesos-e-muitas-medias).

    O caso é de polícia, entretanto, generalisadamente, tanto que sugere aquelas figuras psicodélicas de autofagia.

    Saudações libertárias e cariocas enlutadas.

  2. Não existe espirito público,preocupação com o bem comum,nada! basta dizer que recentemente o ministro da justiça,numa reunião governamental dava risadas em face do quebra quebra no metrô
    de São Paulo,isso porque o estado é governado por partido da oposição.

  3. Você diz: estes filhotes irados da classe média …. Você está mal informado ou coisa pior. Os justiceiros que o Brasil assiste é pobre, de saco cheio com a impunidade e a insegurança deles e de seus familiares. Classe média queima índio em Brasília por diversão. Mas, justiceiro é tipicamente das classes pobres. E isso não os exíme das consequências desses crimes. O dircuso vai ficando chato pela repetição de slogans.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *