Empresário que denunciou doleiro perdeu quase tudo

FR85 SÃO PAULO SP - 11/10/2014 - POLÍTICA - HERMES MAGNUS - Fotos do empresário Hermes Magnus, que denunciou a operação Lava-Jato. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Empresa de Hermes tinha 31 empregados, agora só tem três

Fausto Macedo e Ricardo Brandt
Estadão

“Eu perdi tudo, não devo nada para o governo do PT, mas o Brasil me deve muito”, afirma o empresário Hermes Freitas Magnus, que denunciou à Polícia Federal e à Procuradoria da República em Londrina, no Paraná, o esquema de lavagem de dinheiro, já a pleno vapor, sob comando do então ex-deputado José Janene (PP/PR), morto em 2010.

As primeiras revelações de Magnus, ainda em caráter anônimo, chegaram aos investigadores em 2008. Ele mandava documentos e mensagens, relatando os movimentos de Janene e do braço direito do político, o doleiro Alberto Youssef.

Naquele ano, em busca de investidores que aportassem recursos na Dunel Indústria e Comércio Ltda, que criou para atuar no fornecimento de equipamentos, o empresário conheceu um aliado de Janene, então já réu do mensalão do PT no Supremo Tribunal Federal.

O primeiro encontro com o político, conta Magnus, ocorreu no café de um hotel luxuoso em São Paulo, próximo da sede da CSA Project Finance, espinha dorsal da Lava Jato. Logo, ele afirma, descobriu que Janene usava a CSA para lavar dinheiro. E não se afastou de Janene porque havia entre eles um memorando de entendimentos que previa pesada multa em caso de rompimento contratual.

NA PETROBRÁS

Por meio da CSA, Janene e Youssef expandiram os negócios para o interior de órgãos públicos, como a Petrobrás, onde ambos se associaram a Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento da estatal petrolífera entre 2004 e 2012.

“Naquela reunião inaugural me foi apresentado o Claudio Menti, pupilo e testa de ferro do Paulo Roberto”, narra o empresário. “Eu não sabia quem era o Janene, eu não sabia nada de política. Nem conhecia o Youssef.”

Ele conta que na sede da CSA encontrou-se pelo menos três vezes com Paulo Roberto Costa. “O Pizzolato também não saía da CSA”, revela, apontando para Henrique PIzzolato, filiado ao PT, ex-diretor do Banco do Brasil, sindicalista com base no Paraná, condenado no processo do Mensalão por corrupção passiva,. peculato e lavagem de dinheiro – ­ Pizzolato foi preso em fevereiro na Itália, para onde havia fugido ao final do julgamento do Mensalão.

COMO “LARANJA”

Segundo Hermes Magnus, o ex-deputado Janene lhe ofereceu R$ 1 milhão para injetar na Dunel – o Ministério Público Federal sustenta que esse dinheiro era do mensalão do PT e foi lavado pelo político que liderou o PP na Câmara.

Magnus disse que percebeu que Janene e Youssef queriam usa-lo como “laranja” quando foi pagar um fornecedor e ele o alertou que o dinheiro não saiu do caixa da Dunel, nem da CSA, mas de uma outra pessoa jurídica. “O dinheiro rodava livre na CSA. Um dia ele encheu de dinheiro a caçamba até a lona de uma Mitsubishi L 200. Ele pagava políticos em Londrina, faziam fila para receber.”

A partir das revelações do empresário, a Lava Jato foi ganhando corpo na PF e na Procuradoria. Entre 2011 e 2012 a Justiça Federal autorizou medidas cautelares, interceptação telefônica e de e-mails. Descobriu-se, então, as ramificações e o alcance da trama liderada por Janene e Youssef. Surgiram detalhes das relações com Paulo Roberto Costa e os indícios de pagamento de propinas a políticos do PT, do PMDB e do PP.

“Virei refém da jagunçada do Janene”, denuncia Magnus. “Eles me ‘acompanhavam’ o tempo todo de perto, para que eu não fugisse. Eu achava que com as minhas denúncias a PF ia invadir a sede da Dunel para me salvar. Mas, no início, as investigações pareciam não andar.”

Ganharam celeridade as investigações quando o investidor Enivaldo Quadrado, apontado como operador de Janene, foi preso em dezembro de 2008 desembarcando de viagem a Portugal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica, com 361,4 mil euros em espécie na cueca, nos bolsos e na pasta de mão.

Magnus conta que esse dinheiro seria destinado à ex-mulher de Janene. “Ele (Janene) ficou atordoado com a prisão do Enivaldo. Mas foi a partir daí que a apuração ganhou força e resultou no escândalo da Lava Jato.”

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