Endividados, espanhois perdem suas casas: mas quem são os credores?

Pedro do Coutto

Reportagem de Luisa Belchior, colaboradora da Folha de São Paulo em Madrid, revela que a crise financeira que envolve a Espanha causou uma onda de desalojados no país: milhares de pessoas que não conseguiram pagar financiamentos imobiliários e, em consequência, tiveram de entregar suas casas, levando suas famílias a uma situação de angústia.

A Espanha chegou a ser a oitava economia do mundo, em matéria de PIB. Mas agora, descendo de posto, apresenta uma taxa de desemprego da ordem de 20%. Quarenta por cento da população do país vivem de pensões que seus avós recebem, único direito social a não sofrer qualquer corte do governo que surgiu das últimas eleições.

O governo na Espanha é parlamentarista. O atual, que sucede o de Zapatero, é conservador. Afastando-se do socialismo, os socialistas foram batidos fragorosamente nas urnas. Não conseguiram dar resposta às pressões econômicas e sociais da época. Mas esta é outra questão. O fato é que, como se constata do relato de Luisa Belchior, o país campeão do mundo em 2010 no futebol, e que passou a ter o Barcelona como um símbolo nacional, encontra-se mergulhado em dívidas. Internas e externas.

O que aconteceu? Uma pesquisa essencial, em primeiro lugar, penso eu, é saber quem são os credores, tanto os do país, quanto os da população. Claro. Porque se há devedores em massa é porque existem credores. Se houve compradores de apartamentos é porque houve vendedores. Onde alguém perdeu, alguém lucrou. Não existe débito sem crédito.

A Espanha poderia, assim, tornar-se um laboratório básico na busca dessas respostas, que não podem ser ignoradas. Basta ver, no caso dos imóveis, quem são os proprietários que os estão recebendo de volta. No caso espanhol, o problema se complica. A repórter informa que, mesmo perdendo as hipotecas e devolvendo as casas, os devedores, pela lei do país, têm que prosseguir pagando os compromissos assumidos. Devem ter que, acredito, continuar desembolsando até que possam resgatar a propriedade. Uma dureza.

E se não puderem? – eis a questão. Em tal hipótese uma maravilha para os baancos credores, sejam eles nacionais ou estrangeiros. Dificilmente os que devem poderão quitar os compromissos assumidos. Já que 50% dos endividados recorrem à entidade religiosa Caritas. Uma parcela, o que surpreende, obteve resultados positivos.

Ocorreu na Espanha, no plano imobiliário, a mesma bolha do subprime que atingiu em cheio os EUA em 2009. Executivos de estabelecimentos de crédito, empenhados em maiores vendas, já que em relação a elas recebiam comissão, facilitaram o acesso ao sistema de crédito.

Não levaram em conta se os financiadores eram paralelamente devedores em outras operações bancárias ou comerciais. Caso do crédito pessoal ou de compromisso com lojas. Não centralizando o cadastro, julgaram que as rendas constantes dos contracheques os habilitavam a contrair mais um empréstimo, neste caso de maior peso, o da compra de um imóvel. Houve uma voragem financeira. Uma espiral cujo fundo agora tornou-se aparente.

Mas o fato é que tal processo não alcançou somente a Espanha. Também a Grécia, Portugal, Inglaterra, Itália e Estados Unidos, cuja dívida interna é de quase 15 trilhões de dólares (o valor do PIB) além da França. E na França, a 5 de maio, realiza-se o primeiro turno das eleições presidenciais, colocando em confronto Nicolas Sarkozy, centro-direita e François Hollande, do Partido Socialista, de centro-esquerda. As urnas se aproximam. Quais serão os temas centrais da campanha?

Porém, além do voto e do povo, flutua no espaço uma pergunta ainda sem resposta: quen são os credores dos endividados? Serão as multinacionais? Os bancos internacionais? Os grandes conglomerados familiares? Uma pesquisa na Espanha, a ser feita pelo FMI ou pelo Banco Mundial (BIRD), é o único caminho para desvendar o segredo das joias. Pois o que acontece em Madrid e Barcelona acontece, na mesma escala, nos demais países. Uma forma de se encontrar o caminho da verdade.

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