Enfim, um vento de renovação

Carlos Chagas

Caso não sobrevenham surpresas nesta última semana do ano, candidata-se ao troféu de mais realista e inusitada confissão do ano a entrevista concedida domingo, 23 de dezembro, pelo ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República. Publicadas no Correio Braziliense, suas declarações tem o dom de chamar o PT à ordem, no reconhecimento de que tardava mas afinal verificou-se a condenação das lambanças praticadas no passado recente, em prol da recuperação do futuro remoto. Coragem terá sido necessária e não faltou ao líder petista para apontar os desvãos em que o partido se lançou, junto com a esperança de reconstrução.

O que disse de tão importante assim? Apenas o óbvio. Para ele, mesmo criticando a rigidez do julgamento do mensalão, o PT desviou-se e errou. Os companheiros condenados não podem ser abandonados, mas o partido precisa renovar-se e refazer-se do ponto de vista da ética e da relação com a coisa pública. Nada de ficar olhando apenas para os próprios erros, mas para as questões estruturais da política que conduzem a esses desvios.

Ainda que insistindo em não ter havido mensalão, mas caixa dois, o que dá praticamente no mesmo, Gilberto Carvalho veste a carapuça. Reconhece que o PT amealhou recursos irregulares e fez pagamento para partidos aliados em termos eleitorais. Coisa que para ele todo mundo faz, mas não afasta o erro grave, acrescentou.

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LULA NÃO SABIA DE NADA…

Mesmo livrando a cara do Lula, que em sua opinião não sabia de nada, e lamentando derrotas eleitorais em Fortaleza, Porto Alegre e Recife, o ministro olha com otimismo para as eleições de 2014, dando praticamente como certa a reeleição, mas deixa uma dúvida dos diabos: reeleição de quem? De Dilma ou do Lula? Ele não particulariza e recusa-se a examinar, por enquanto, a hipótese de o ex-presidente concorrer ao governo de São Paulo. Quer dizer, abre o leque e até deixa entrever uma certa simpatia pelo próximo retorno do Lula ao palácio do Planalto.

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PROCURA-SE UM VELHINHO

Fica para ulteriores definições particularizar o que significa renovação do PT, se em termos apenas de pessoas e de métodos ou, como parece necessário, de objetivos e ideais. O processo partidário não andará para trás, mas o que se delineia à frente, seja com Dilma, seja com Lula?

Tem gente bem intencionada no partido procurando um velhinho. Um velhinho? Sem dúvida por conta da maior das transformações sofridas pela Igreja ao longo de seus dois mil anos de existência, quando em função do impasse na escolha de um novo Papa, os cardeais indicaram João XXIII, imaginando que não esquentaria o trono papal por mais de uns poucos anos, permitindo assim definições mais claras. Enganaram-se, pois o velhinho virou tudo de cabeça para baixo, convocando o Concílio Vaticano II e estabelecendo mudanças que repuseram a Igreja nos trilhos da modernidade. Mesmo que depois dele alguns sucessores tivessem tentado puxar o freio de mão, a verdade é que até hoje João XXIII continua sinônimo de renovação.

Talvez repouse aí a chave para o PT romper a barreira que o levou ao fundo do poço…

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