Enfim, uma grande notícia: o jurista Jorge Béja volta a advogar

Carlos Newton

Como jornalista, acompanho o trabalho do Dr. Jorge Béja desde 1973, no caso Carlinhos, o crime de sequestro mais conhecido do país, com colossal cobertura na imprensa, só comparável ao caso do embaixador norte-americano Charles Elbrick, ocorrido quatro anos antes, no regime militar.

Béja era muito jovem, mas já se projetava como um advogado diferente, que se preocupava em defender pessoas carentes e também o interesse público em geral, como um dos precursores da luta pelo meio ambiente, pelo direito do consumidor e pelos direitos coletivos.

Quando falo sobre Béja, sempre lembro do Dr. Sobral Pinto. Era meu vizinho em Laranjeiras e nós o venerávamos. Todo dia, de manhã cedo, um táxi subia a rua e buscava o grande advogado, para conduzi-lo até a igreja do Cenáculo, onde ele assistia a missa, e depois voltava para casa. Sabíamos que o taxista não cobrava a corrida diária e o fazia prazerosamente. Havia sido acusado de homicídio, não tinha dinheiro para pagar advogado, Dr. Sobral o defendeu e provou a inocência dele. Nasceu assim essa amizade comovente. Bejá é assim também. Cada vez que fez uma defesa, ganha um amigo e admirador.

BÉJA E SOBRAL

Costumo comparar Dr. Jorge Béja ao Dr. Sobral, não só por se tratar de dois brilhantes juristas ligados à Igreja Católica, mas também porque as afinidades são muitas. Os dois sempre tiveram comportamento semelhante ao atuar na chamada Advocacia Social, defendendo prazerosamente os mais fracos, e sem visar ao menor retorno financeiro.

Dr. Sobral, todos sabem, era totalmente anticomunista, mas lutou como um leão na defesa de Luiz Carlos Prestes. Depois, na ditadura militar, Sobral foi até preso, considerado inimigo do regime, vejam que falta de respeito. A última vez que o vi foi no Aeroporto do Galeão, foi uma festa. Viajamos lado a lado na primeira fila, que é reservada aos mais idosos, e depois fomos juntos de táxi para a cidade. Ele era fascinante, tinha um bom humor admirável, mas desde a morte da filha só andava de terno preto. Por dentro, Dr. Sobral sofria. Penso sempre nele, porque continuo morando no mesmo lugar e agora suas bisnetas são minhas vizinhas e amigas.

EXEMPLO AOS JOVENS

Béja é assim como Sobral. Gosto de vê-lo escrever sobre os numerosos casos em que tem atuado nessa incansável dedicação à Advocacia Social, e minha esperança é que ele depois junte os relatos para fazer uma obra que sirva de lição e incentivo aos novos advogados. Ele tem muitas fotos e recortes de jornais, será um livro sensacional.

Recentemente, fiquei chocado ao saber que Béja estava disposto a abandonar a advocacia. Escrevi a ele, pedi que refletisse com mais calma, usei todos os argumentos que podia, mas ressalvei que entenderia e apoiaria a posição que ele viesse a tomar, não importa o que decidisse. E agora, com enorme satisfação, vejo que o grande jurista continua de pé e nos brinda com mais uma belíssima atuação no Direito Internacional.

A maioria do povo brasileiro, devido a essa escalada de violência, que só faz aumentar, demonstra estar propensa a apoiar a adoção da pena de morte. Mas será um retrocesso jurídico, apenas um ato de vingança. Precisamos ter penas mais rigorosas e que desestimulem o crime, mas matar não leva a nada, porque a Ciência do Direito entende que a finalidade da pena é a recuperação. Tenho respeito e até compreendo as opiniões contrárias, mas estou nessa luta ao lado de meu amigo Jorge Béja e não abro. Não há dúvida de que Marco Archer é um traficante profissional que se dedicava ao crime, mas ser executado é uma pena por demais injusta.

14 thoughts on “Enfim, uma grande notícia: o jurista Jorge Béja volta a advogar

  1. Estimado jornalista Carlos Newton, confesso estar dividido entre a aplicação ou não da pena de morte. Por exemplo, no caso “Champinha”, não vejo como fugir ao fato de que só a eliminação de elementos desse naipe nos reaguardaria de tamanhas monstruosidades. Falar em “recuperação” soa como piada do ano, como o sr. sempre se refere aos descalabros que nos assolam. E se pensarmos então num “zédirceu”, num “delúbio”, um “lula”, o sr. acha mesmo, francamente, que são passíveis de “recuperação”?

    • Prezado Lafaiete De Marco,

      Respeito as opiniões contrárias, mas a chamada Ciência do Direito parte do princípio de que todos os criminosos podem se recuperar, salvo os que demonstram graves desvios de comportamento e manifestações patológicas. A história mostra que este princípio está correto. No caso, as exceções (os que jamais se recuperam) confirmam a regra geral.

      Abs.

      CN

  2. A justiça divina existe, tenho certeza. Porem, o castigo terreno precisa existir tambem. É o exemplo que irá induzir outros cidadãos a permanecerem no caminho certo. Sou é contra a falsa piedade dos “coitados”. Optaram por ser criminosos, precisam ser punidos, ou a nossa sociedade vai tomá-los como exemplo de cidadãos bem sucedidos. Analisem por que o Brasil está cheio de traficantes. Não tem cidadezinha que não tenha esta praga. Por que? Simples porque o tráfico vale a pena, pois a pena, isto quando o traficante for condenado é minima. “Valeu a pena”.

  3. A teoria na prática é outra. Por essa e outras é que os EUA são o que são, pois sua legislação vem de uma cultura que tem pelo menos um pé na realidade. Lá , o americano sabe da importância do “faça você mesmo” , do trabalho manual, que é fundamental para se compreender grande parte da nossa natureza. Tanto é que na Casa Branca os presidentes constroem uma casa nas horas de folga.

    Enfim, a nossa cultura é diferente. Um tanto fantasiosa para entender as coisas na prática.

  4. “18. Se um homem tiver um filho indócil e rebelde, que não atenda às ordens de seu pai nem de sua mãe, permanecendo insensível às suas correções, 19. seu pai e sua mãe tomá-lo-ão e o levarão aos anciães da cidade à porta da localidade onde habitam, 20. e lhes dirão: este nosso filho é indócil e rebelde; não nos ouve, e vive na embriaguez e na dissolução. 21. Então, todos os homens da cidade o apedrejarão até que ele morra. Assim, tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel, ao sabê-lo, será possuído de temor.

    22. Quando um homem tiver cometido um crime que deve ser punido com a morte, e for executado por enforcamento numa árvore, 23. o seu cadáver não poderá ficar ali durante a noite, mas tu o sepultarás no mesmo dia; pois aquele que é pendurado é um objeto de maldição divina. Assim, não contaminarás a terra que o Senhor, teu Deus, te dá por herança”. (Dt 21)
    … … …
    Isto aconteceu com Jesus … para não acontecer com nenhum de nós nunca mais!!!

  5. Nobre Carlos Newton, como você é generoso ao me comparar ao incomparável e insuperável vulto nacional Doutor Sobral Pinto (Heráclito Fontoura Sobral Pinto), tão pequenininho sou. Tenho aqui em mãos uma relíquia: “Lições de Liberdade. Os Direitos do Homem no Brasil”. Com apresentação de Ary Quintela, o livro (273 páginas) é do próprio Doutor Sobral Pinto. Nele estão transcritas, na íntegra 38 cartas, petições de Habeas-Corpus e outros trabalhos jurídicos. As cartas são as que o Doutor Sobral Pinto enviou a generais e presidentes militares, de 27.4.1945 a 18.8.1977. A primeira delas é uma longa carta ao “Capitão Luís Carlos Prestes”. Começa assim: “Capitão Luis Carlos Prestes. Transgredindo prescrição médica, e procurando dominar o meu abatimento físico, retomo, por momentos, a minha atividade de homem público, tão só para fazer chegar ao seu conhecimento o meu modesto ponto de vista pessoal de católico e de brasileiro sobre a entrevista que o Sr. ontem teve com a imprensa diária desta Capital….”. A última, de 18.8.1977 é dirigida ao Senador Eurico Rezende.
    Em todas as cartas o Doutor Sobral Pinto assina, data e coloca o endereço onde morava e o telefone: “H.Sobral Pinto, 22 de Outubro de 1966, Rua Pereira da Silva, 740, Laranjeiras, Tel. 225-3108”. O Doutor Sobral Pinto foi defensor da vida, da legalidade, da democracia. Não aceitava a pena de morte.
    O Doutor Sobral Pinto foi único. Muito agradeço o artigo a meu respeito. Vou me preparar para, na medida do possível, voltar a advogar. Advogar sempre e sempre em favor das vítimas, do interesse público, do restabelecimento da ordem… e em cumprimento à sua ordem, a de voltar à advocacia. Ainda bem que preservo ativa minha inscrição na OAB.
    Fraternalmente,
    Jorge Béja

    • Gratíssimo Francisco Vieira. Seus comentários a respeito do artigo cujo tema foi a abolição da pena de morte marcaram importantes contrapontos que suscitaram análises acaloradas dos leitores.
      Jorge Béja

  6. Modestamente, também Saúdo o retorno a Advocacia Militante do grande Advogado e Humanista Cristão Dr. JORGE BÉJA. Melhor ainda, ele, Dr. JORGE BÉJA , participante ativo de nosso bom Jornal onLine” TRIBUNA DA INTERNET”. Pena ainda não termos uma boa Base Mensalista de R$20 para remunerar condignamente nosso incansável Editor/Moderador e excelentes Jornalistas/Escritores participantes como o brilhante Dr. JORGE BÉJA. Mas tenho certeza de que chegaremos lá. Coisas BOAS merecem Pagamento.

  7. DR.. BÉJA É UM SER EXTRAORDINÁRIO. SÓ POSSO PARABENIZÁ-LO. CARLOS NEWTON É, IGUALMENTE, UM SER INIGUALÁVEL. MEU RACIOCÍNIO É, NO ENTANTO, MACROECONÔMICO. UM CRIMINOSO IRRECUPERÁVEL É UM PESO MORTO PARA OS TRABALHADORES SUSTENTAREM. NÃO HAVENDO PENA CAPITAL, A OPÇÃO É A PRISÃO PERPÉTUA: SUSTENTAR UM CRIMINOSO, ATÉ O FIM DA VIDA, COM CAFÉ, ALMOÇO E JANTAR, CASA, COMIDA E ROUPA LAVADA (MAIS UM BANHOZINHO DE SOL E UM JOGUINHO DE FUTEBOL). SOU 100% A FAVOR DA PENA DE MORTE. IMEDIATA.

  8. Quanto mais o Brasil tiver homens preparados para lutar pela Justiça, ótimo.
    O Dr.Béja, além de ser um dos expoentes neste particular, leva consigo a experiência, a cultura, o conhecimento de um jurista de renome, aumentando a esperança de quem precisa que seus direitos sejam mantidos ou resgatados.
    Lamento que o meu RS não possa contar com um advogado deste quilate, no entanto, tenho a honra de poder dividir este espaço democrático com esta pessoa do bem, este ser humano dotado de sentimentos altruístas, este profissional incomparável.
    Alegro-me pelos clientes do Dr.Béja, mas fico extremamente feliz porque a Justiça terá ao seu lado um guardião determinado, disposto, combativo, excepcionalmente bem preparado para fortalecer os Direitos Humanos, hoje tão desvidos de seus verdadeiros objetivos, e desvirtuados em nome de políticas demagógicas.
    Minhas reverências e respeito ao célebre advogado, e salve o retorno à sua especialidade, o Direito!

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