Engenho Novo – Meyer – Engenho de Dentro. Agradecimento à MEMÓRIA de Ofélia Alvarenga

Helio Fernandes

Tenho que lamentar e pedir desculpas, pelo descuido de ter o Meyer como comparação, e citar o Engenho Novo, (que vem antes, no sentido da cidade) e esquecer o Engenho de Dentro, que vem depois. E que era o objetivo, pois é lá que está o Engenhão.

Nenhuma queixa, faço coisas demais, mas minha vida é assim desde que comecei a trabalhar aos 11 anos de idade, e com 13 entrar na revista “O Cruzeiro”, sem sequer saber o que iria fazer. E naquela época, ainda não estabelecer a diferença entre destino, inteligência, cultura e genética.

Mas o lado bom de tudo isto, não passa pelas retificações (naturais, muitas, a todas agradeço) e sim pelo texto de Ofélia Alvarenga. Narração, lembranças e recordações que ela trata de forma deliciosa. Se eu não tivesse “tentado” colocar o Engenho Novo no lugar que pertence por direito de conquista ao Engenho de Dentro, não teríamos a narrativa dela. A segunda.

Aos que citaram outras construções sem nenhuma “estaca” (ou viga), até concordo, mas sem a altura e a profundidade da Estação do Engenho de Dentro. Esta continua sem ser igualada. (Quanto à “retificação” a respeito da Estação da Luz, em São Paulo, maravilhosa a estação, mas sem a altura do agora popular Engenhão).

Jorge Baleia citou a King’s Cross Station. Mas em todos os livros de Sherlock Holmes ou sobre ele, a estação é citada como Charing Cross. E todas as vezes que fui a Londres, principalmente a caminho do Estádio de Wembley (o antigo, não conheço o novo, inaugurado há pouco), minha ida até lá era iniciada em Charing Cross.

Mas estamos fugindo da leitura da Ofélia. Os episódios que ela deixa entrever dos trens superlotados, “eu era muito ingênua”, são históricos. E praticamente só reconhecidos muito mais tarde, e desvendados como o que significavam de fato.

Era tudo impossível de deslindar ou de impedir, fazia parte do “cotidiano indevassável e indisfarçável”. Os trens trafegavam tão superlotados, a qualquer hora, que as pessoas ficavam coladas uma às outras, as segundas intenções chegavam primeiro. E o nosso atraso natural, o metrô do século XIX, ainda não chegou aqui.

Ofélia teve o prazer de contar tanta coisa agradável que ficou na distância do tempo. Eu e o Millor terminamos o primário na GENIAL e ADMIRÁVEL escola pública da época. Onde depois, 40 anos mais tarde, o Millor “fundaria a Universidade do Meyer”, embora já estivéssemos muito longe.

Entre o primário e o ginasial, ainda lá, uma das minhas maiores satisfações, era atravessar o belíssimo “Jardim do Meyer”, dobrar à direita, logo veria a Rua Aristides Caire e a casa do grande jornalista Agripino Grieco.

Foi o mais temido, lido e respeitado jornalista da época. Ninguém resistia à sua cultura, sua demolidora palavra escrita e às polêmicas, nas quais derrotava todos, sem exceção.

Sua casa tinha 30 mil livros, que maravilha viver. E estava construindo um “puxado”, (como se dizia), pois os livros na paravam de chegar, não dava tempo de comprar. Uma dia me disse: “Esses 30 mil livros foram todos lidos”. Não mentia.

***

PS – Já devia ter mais de 50 anos, seus dois filhos já se aposentaram como embaixadores. Foi a minha primeira admiração visível, com quem eu podia falar e, principalmente, ouvir. Só que fui logo embora, não houve nem  tempo para que me influenciasse.

PS2 – Escrevi que a revista “O Cruzeiro” foi um emprego, aos 13 anos, e não o cumprimento de uma vocação. Podia ser destinação, nunca saberei.

PS3 – Agradecimento total a Ofélia Alvarenga por ter aproveitado o meu equívoco, não para corrigi-lo, mas para ampliá-lo com sabedoria, a cultura e a inteligência da memória.

PS4 – Freud costumava dizer: “É brincando que se dizem as grandes verdades”. E concluía: “Não existe equívoco, e sim a autenticidade que você não conhece, mas só reconhece quando se exprimiu sem querer”.

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