Entrada de dólares no início de 2011 bate todos os recordes, dando um brutal prejuízo ao país. É um paradoxo, porque deveria ser exatamente o contrário.

Carlos Newton

É espantoso o que está acontecendo na economia brasileira. O Banco Central informa que a entrada líquida de dólares no País, até a sexta-feira da semana passada (dia 4), totalizou a espantosa marca de US$ 24,356 bilhões. Traduzindo: com isso, a entrada de dólares neste início de 2011 já superou o total registrado na soma dos 12 meses do ano passado, quando foi contabilizado ingresso de US$ 24,354 bilhões. Isso é bom ou ruim?

O volume contabilizado surpreende – não apenas por ter superado o total do ano passado em apenas 45 dias úteis deste ano, mas também por ficar apenas 15,23% abaixo dos US$ 28,732 bilhões contabilizados em 2009. Detalhe importantíssimo: o resultado foi impulsionado principalmente pelas operações financeiras, já que a conta comercial contabilizou déficit de US$ 78 milhões nos primeiros 45 dias do ano.

O BC diz que esse fluxo financeiro é “composto por investimentos estrangeiros de longo prazo no setor produtivo e por captações de empresas brasileiras no exterior”, sem entrar em detalhes, quando seria fundamental saber que investimentos a longo prazo são esses. É muito intrigante, não?

E o tal fluxo financeiro apresentou saldo de US$ 2,081 bilhões apenas na semana passada. Mas por que esse volume tão alto? Ora, com as taxas de juros reais praticada aqui dentro (as mais elevadas do mundo), num país em condições políticas estáveis e crescimento econômico, enquanto boa parte do mundo enfrenta graves problemas econômicos, não existe melhor negócio.

Com esse extraordinário volume de dólares ingressando na economia, o governo segue tentando intervir no mercado, para evitar que a cotação da moeda americana continue caindo em relação ao real, quem diria? E como resultado dessa política de intervenções, as reservas internacionais vão se elevando. De acordo com os dados do próprio BC, foi atingido no último dia 4 um montante de US$  310 bilhões em reservas. Isso é bom ou ruim?

As compras de dólares pelo BC no mercado à vista já totalizaram US$ 2,7 bilhões em março, até o dia 4. Em fevereiro foram registrados US$ 9 bilhões – sendo que US$  8,1 bilhões em negociações à vista e US$ 973 milhões no mercado  a termo (com data de liquidação diferenciada). Em janeiro, quando não foram realizadas compras de dólares no mercado a termo, o total registrado atingiu o montante de US$ 8 bilhões no mercado à vista.
 
Esses volumes são maiores até do que o total de entrada de dólares e, como consequência, acabam sendo refletidos na posição cambial vendida dos bancos, quando apostam no mercado futuro em mais valorizações do real frente ao dólar.

Traduzindo de novo: o Banco Central está adotando uma política suicida, porque cada vez que compra dólares, tem de emitir títulos da dívida interna em valores correspondentes, que pagam taxa Selic, ou seja, 11,75% de juros anuais. Com isso, a dívida interna aumenta na mesma proporção das reservas cambiais, mas como uma imensa diferença: as reservas (depositadas no exterior) rendem apenas 2% ao ano, enquanto a dívida interna paga 11,75%. Isso é bom ou ruim? Com certeza, é um péssimo negócio.

E os bancos brasileiros, que no mercado futuro apostam na queda do dólar, fazem sucessivas captações no exterior em dólar, a juros baixíssimos, e investem e emprestam aqui em reais, com as mais elevadas taxas do mundo. Um excelente negócio. Por isso, estão lucrando como nunca.

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