Entre nós, Nietzsche venceu Marx

Carlos Chagas

Quando os metalúrgicos de São Paulo iniciaram o ciclo de greves nos anos setenta, formaram-se em torno deles duas vertentes: a esperança de que produzissem mudanças estruturais no país, de um lado, e a acomodação com a política dos resultados, de outro. Venceram os que queriam melhores salários e condições de trabalho, deixando-se envolver muito pouco pela ideologia da socialização dos meios de produção, pois sequer pensavam apoderar-se das fábricas. Mas poderiam chegar lá, na medida em que forçavam os empresários a aceitar justiça para eles.

Imaginou-se que daquela centelha surgiria o rastilho capaz de alterar as relações sociais num país então assolado pelo domínio das elites, mais econômicas do que militares, aliás. Assim muitos esperaram quando nasceu a CUT. Depois, os operários decidiram-se a formar um partido, o PT, mas ficou cada vez mais difícil escutarem e entenderem a mensagem dos poucos ideólogos que pregavam mudanças integrais. Sem perder a esperança, aqueles poetas acabaram expelidos pela maioria infensa a seus objetivos.

De lá para cá, ralaram muito, os companheiros, para chegar ao poder. Fizeram alianças à esquerda e à direita, mas sempre resistindo à cartilha que pregava a inversão nos valores e nas instituições políticas, econômicas e sociais. Insistem até hoje em alterações capazes de melhorar seu padrão de vida e dos assalariados, até estendendo o objetivo aos pobres, os miseráveis, os sem-terra e os excluídos, mas sem jamais pregarem o essencial.

Através do assistencialismo, existem dentro do sistema, ignorando constituir-se numa de suas criações. Essa é a ideologia do PT, expressa na figura do Lula, jamais um revolucionário. Apenas alguém inserido no modelo que imaginava contestar, mas que acabou por dominá-lo.

O primeiro a perceber essa evidência foi o general Golbery do Couto e Silva, que fez o possível para estimular o ingresso e a permanência do PT e de seu líder maior no bloco dos detentores do poder, mesmo quando protestavam, estrilavam, faziam greves, mobilizavam as massas e davam a impressão errônea de formar do outro lado, aliás, lado cada vez mais débil e dividido, hoje quase inexistente.

Saíram pelo ralo movimentos paralelos que se um dia existiram pregando a Revolução, deixaram apenas sombras caricatas no cenário nacional. Não há hipótese de ressurgirem, pelo menos diante da maciça organização do sistema.

Sobrou o PT dos sonhos de alguns empedernidos e de outro tanto de ingênuos, tornado peça importante, como desimportantes são o PMDB, o PP, o PTB e acólitos. Tanto faz se o PSDB e o DEM movem disputa retórica para apresentar-se como opção. Mesmo fingindo-se de alternativa, fazem parte do modelo, até os mais fiéis a seus postulados elitistas.

O resultado é que, ironicamente por ação ou inação do PT, desapareceu entre nós a dicotomia rotulada por uns de confronto entre liberdade individual e igualdade social; por outros, de choque entre exploradores e explorados. Prevalece em nossos dias a teoria de que os mais capazes, os mais bem aquinhoados pela fortuna, os mais espertos e malandros, assim como os mais bem nascidos, devem beneficiar-se e conduzir o processo onde as massas seguem a reboque, excluídas e contando com as migalhas do banquete alheio.

Dois séculos depois, aqui nos trópicos, Nietzsche acabou vencendo Marx. A menos que… A menos que se produza profunda metamorfose na única força política organizada, capaz de mudar o eixo das agruras em que foi lançado o ser humano. Qual? O PT, cujas origens um dia pareceram despertar uma nova era, mas, depois, transformou-se em serviçal do sistema.

Há quem mantenha as esperanças de o PT acordar. Seu criador, também. Ou sua sucessora. Porque os companheiros estão jogando nas profundezas as sementes capazes de fazer germinar uma nova nação. Até agora trocaram essa derradeira oportunidade por vantagens secundárias do poder, do mensalão às nomeações, das vantagens federais à ociosidade.

Devem tomar cuidado. Começaram com uma greve. Outras virão…

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